Edição 142

Em discussão

Inclusão na prática docente: a metodologia do lúdico na educação inclusiva sendo utilizada como recurso didático para a educação infantil

José Henrique Feliciano Silva

Introdução

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Este trabalho tem como objetivo revisar textos que tratam sobre a utilização do lúdico na prática docente e como uma metodologia baseada nesse uso pode promover a inclusão de alunos com necessidades educacionais específicas em turmas regulares na Educação Infantil. Para entender melhor como o lúdico pode ser proposto como metodologia docente, primariamente em turmas com alunos com necessidades educacionais específicas, é preciso entender seu significado. Para alguns, o lúdico se resume apenas a jogos; já para outros, a brincadeiras. Entretanto, seu significado é muito mais abrangente.

A origem da palavra lúdico vem do latim ludus, que quer dizer jogo. Se esta palavra fosse deixada apenas em sua origem, o termo lúdico estaria confinado apenas a jogar, brincar ou ao movimento espontâneo. Porém, através do comportamento do ser humano e dos processos que o organizam, o lúdico passou a ser reconhecido como essencial ao desenvolvimento humano, deixando, assim, sua definição mais abrangente do que apenas o sinônimo de jogo (Almeida, 2009).

As implicações da necessidade lúdica extrapolaram as demarcações do brincar espontâneo, ou seja, o lúdico faz parte do desenvolvimento humano.

As implicações da necessidade lúdica extrapolaram as demarcações do brincar espontâneo, ou seja, o lúdico faz parte do desenvolvimento humano. Percebemos, então, que o lúdico pode estar presente em sala de aula como uma importante metodologia na prática docente. Nesse contexto, as brincadeiras podem fazer com que a criança consiga expressar seus sentimentos e as diferentes impressões que tem de si e daqueles que com ela convivem. Contudo, todo educador engajado a promover mudanças na sua prática em sala de aula deve encontrar, na proposta do uso do lúdico, uma importante metodologia, a qual tem condições de contribuir para a melhoria das ações realizadas no ambiente escolar no que se refere à promoção de ações inclusivas.

Nesse sentido, é objetivo deste trabalho demonstrar que a metodologia do lúdico favorece, sim, e de forma significativa, a melhoria do ensino e da aprendizagem, contribuindo para a educação inclusiva.

Justificativa

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Na observação dos alunos da Educação Infantil com necessidades educacionais específicas, o lúdico tem se tornado um método inovador, pois tem permitido, através de jogos e de brincadeiras, uma nova perspectiva da concepção sobre aprendizagem; contudo, é importante observar que nem todo jogo ou brincadeira podem oportunizar uma aprendizagem. O jogo ou a brincadeira devem estar implicitamente entrelaçados a uma competência disciplinar para que ocorra, de forma lógica, uma aprendizagem. Nesse sentido, o presente estudo pretende demonstrar de que forma o lúdico pode ser usado como metodologia na prática docente e contribuir para a promoção de ações inclusivas e para a melhoria dos métodos aplicados. Este trabalho demonstra, por meio de pesquisa bibliográfica, que a metodologia do lúdico pode, sim, melhorar o aprendizado com proposta de mudança de paradigmas, de maneira que a prática docente traga a inclusão.

O jogo ou a brincadeira devem estar implicitamente entrelaçados a uma competência disciplinar para que ocorra, de forma lógica, uma aprendizagem.

Metodologia inclusiva na prática docente

A metodologia analisa os modelos de ensino e suas implicações no processo da aprendizagem. Etimologicamente falando, a palavra método significa caminho a seguir para alcançar algum fim (Piletti, 1995, p. 102). A prática metodológica adotada pelo professor ou pela escola traz em si o objetivo de inserir diferentes estratégias em situações didáticas, a fim de promover a aprendizagem. A partir desse pressuposto, a prática docente deve equacionar a utilização dos procedimentos didáticos e pedagógicos propostos em seu planejamento com o objetivo de realizar metodologias que atendam às necessidades dos alunos para que ocorra uma aprendizagem inclusiva.

Para Libâneo (2001), as práticas de formação de professores consideram o aluno como parte do processo de ensino e de aprendizagem. O professor deve ter entrelaçado, em sua formação acadêmica, o desejo de buscar metodologias diferenciadas, que promovam, em seus princípios, uma igualdade no ato da aprendizagem, envolvendo todos os alunos em seus métodos, ou seja, possibilitando que possam participar das aulas em equidade de condições, com os demais, pois a inclusão não deve ser vista como metodologia opcional, e sim como parte do processo pedagógico visto por um professor inovador, dinâmico e prático. Portanto, o professor tem o papel de auxiliar o aluno com necessidades educacionais específicas para que ele avance tanto intelectualmente quanto socialmente.

O professor deve ter entrelaçado, em sua formação acadêmica, o desejo de buscar metodologias diferenciadas, que promovam, em seus princípios, uma igualdade no ato da aprendizagem.

Uma metodologia inclusiva na prática docente que tem trazido, em seus parâmetros, bons resultados em sala de aula, promovendo uma inclusão em suas práticas, é a utilização de jogos lúdicos como recurso didático, pois desenvolvem nos alunos, por exemplo, os novos signos linguísticos que se fazem nas regras, a função de literalidade e não literalidade, a combinação de ideias e comportamentos auxiliando o desenvolvimento na aprendizagem de noções e habilidades.

Para Vygotsky (1989), o brincar é uma atividade humana criadora, na qual a imaginação, a fantasia e a realidade interagem na produção de novas formas de construir relações com outros sujeitos, crianças e adultos. Sendo assim, o professor, ao utilizar-se de tais metodologias em sua prática de ensino, estará colaborando, significativamente, na formação educacional de seus alunos, promovendo a inclusão em todo o seu processo de ensino e aprendizagem.

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Dentro das atividades lúdicas, espera-se que a criança com necessidades educacionais
específicas desenvolva a coordenação, o movimento ritmado, a atenção e o desenvolvimento da posição quanto ao corpo.

O lúdico e as crianças com necessidades educacionais específicas

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No início do século XX, as brincadeiras passaram a ser objeto de estudo entre autores que dedicaram suas pesquisas às representações mentais. Surgiram, então, os estudos de autores como Piaget, Vygotsky, Leontiev e Elkonin, que tentaram comprovar a importância e o valor das brincadeiras no desenvolvimento infantil e na aquisição de conhecimentos. Grandes teóricos como Rousseau (Emílio, ou Da educação), Froebel e Dewey (Vida e Educação) também confirmam a importância do lúdico para a educação da criança (apud Ferreira, 2002).

A vivência de ideias em nível simbólico oferece à criança uma compreensão melhor sobre o significado na vida real, e ela passa a evoluir a partir de seus pensamentos com relação a suas ações, razões pelas quais as atividades lúdicas são tão importantes para o desenvolvimento do pensamento infantil.

É no brinquedo que a criança aprende a agir numa esfera cognitiva que depende de motivações internas. Para uma criança muito pequena, os objetos têm força motivadora, determinando o curso de sua ação; já na situação de brinquedo, os objetos perdem essa força motivadora, e a criança, quando vê o objeto, consegue agir de forma diferente em relação ao que vê, pois ocorre uma diferenciação entre os campos do significado e da visão, e o pensamento, que antes era determinado pelos objetos do exterior, passa a ser determinado pelas ideias (Vygotsky, 1998, p. 112).

Dentro das atividades lúdicas, espera-se que a criança com necessidades educacionais específicas desenvolva a coordenação, o movimento ritmado, a atenção e o desenvolvimento da posição quanto ao corpo, trazendo aspectos físicos, afetivos, psicológicos e sociais. Para Mafra (2008), a criança com deficiência intelectual, por exemplo, é capaz de ter um pensamento lógico, mas precisa de uma estratégia de mediação a fim de desenvolver ainda mais o seu raciocínio. Portanto, os jogos e as brincadeiras infantis, aplicados de forma lógica e contextualizada a competências adequadas no processo de aprendizagem, podem parecer apenas passatempo, mas, na verdade, preparam a criança com necessidades educacionais específicas para um aprendizado posterior, demonstrando, no ato do ensino, a inclusão.

Considerações finais

Através deste trabalho, houve a observação e reflexão da importância da utilização didática do lúdico, por meio dos professores da Educação Infantil, demonstrando que uma metodologia baseada nesse exemplo serve como modelo; ou seja, neste paradigma, existe a previsão à inclusão de crianças com necessidades educacionais específicas em turmas da Educação Infantil.

É percebível que quanto mais profundo for o conhecimento dos professores nesse contexto, mais será possível seu uso em sala de aula, havendo uma probabilidade para que tais métodos promovam a inclusão de crianças com necessidades educacionais específicas em turmas da Educação Infantil. Afinal, ao sentirem que as vivências lúdicas podem resgatar a sensibilidade e a criatividade, perceberão, também, a promoção da melhoria na aquisição de conhecimentos, o fortalecimento das habilidades e, principalmente, o favorecimento de ações mais inclusivas. Portanto, no ambiente escolar, as práticas lúdicas contribuem para desenvolver uma docência inovadora e inclusiva, favorecendo a construção do conhecimento e o respeito à diversidade.

[…] no ambiente escolar, as práticas lúdicas contribuem para desenvolver uma
docência inovadora e inclusiva, favorecendo a construção do conhecimento e o respeito à diversidade.


Referências
ALMEIDA, Anne. Ludicidade como instrumento pedagógico. Cooperativa do Fitness, Belo Horizonte, jan. 2009. Seção Publicação de Trabalhos. Disponível em: <http://www.cdof.com.br/recrea22.htm>. Acesso em: 26 de março de 2022.
FERREIRA, Lívia. A importância do lúdico na Educação Infantil. Artigonal, [S.I.], set. 2009 Disponível em: <http://www.artigonal.com/educacao-infantil-artigos/a-importancia-do-ludico-na-educacao-infantil-1230873.html>. Acesso em: 26 de março de 2022.
VYGOTSKY, L.S; LURIA, A.R. & LEONTIEV, A.N. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícone, 1998.
MAFRA, Sônia Regina Corrêa. O lúdico e o desenvolvimento da criança deficiente intelectual. Paraná: Secretaria de Estado da Educação, 2008. Disponível em: <http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/pde/arquivos/2444-6.pdf>. Acesso em: 27 de março de 2022.
PILETTI, Claudino. Didática geral. São Paulo: Ática, 1995.
LIBÂNEO, José Carlos. Adeus professor, adeus professora? Novas exigências educacionais e profissão docente. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2001.
VYGOTSKY, Lev. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1989.


José Henrique Feliciano Silva é licenciado e pós-graduado em Matemática pelo Centro Universitário da Vitória de Santo Antão (Univisa) e professor da rede particular de ensino no distrito de Fazenda Nova – Brejo da Madre de Deus/PE; trabalha orientando artigos matemáticos na ampliação do conhecimento dessa disciplina, com um vasto trabalho em aulas de matemática em laboratório; tem um blog voltado para o ensino da matemática; e, em seu Instagram, compartilha pensamentos e dicas matemáticas.


E-mail: jose.henrique59@gmail.com
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