Edição 146
Como mãe, como educadora, como cidadã
TRÊS HOMENS, TRÊS HISTÓRIAS, TRÊS DORES – E A MESMA LUTA PELA DIGNIDADE

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Tenho o prazer de apresentar e contar uma história que envolve três homens.
Cada um, com sua própria vida e seus desafios, torna-se um exemplo de resiliência e solidariedade. Eles mostram que, mesmo em tempos difíceis, é possível encontrar força na amizade, na dignidade e na vontade de ajudar uns aos outros.
Encontro com eles quase diariamente. Antes das 6h da manhã, encontro com dois deles enquanto sigo para o Centro de Condicionamento Físico (a academia).
O primeiro homem – o “Doutor Compaixão”
O primeiro, encontro na esquina da minha casa. Guardador de carros, ajuda idosas a atravessar a rua, alerta o grupo de corredores todas as manhãs, sempre de bom humor. Me chama de “doutora”. É um homem jovem, avô e muito trabalhador. Agradece por tudo.
O que me encanta nesse homem é a grandeza de seu coração. Ele quase nunca fala de Deus, mas vive a compaixão de forma tão concreta que supera muitos que se dizem cristãos, mas nada fazem pelos excluídos. Seu modo silencioso de amar cansa qualquer discurso bonito e vazio que vemos por aí.
Há um rapaz em situação de extrema vulnerabilidade, usuário de drogas, que dorme na entrada de um parque.
Come o que lhe dão, anda — ou andava — em uma cadeira de rodas (que foi roubada enquanto dormia). A situação é devastadora: a droga o destruiu a ponto de mal conseguir falar.
E esse primeiro homem cuida dele com a delicadeza de quem reconhece a dignidade que ninguém mais parece ver. Carrega água em baldes, busca sabonete, xampu e toalhas doadas e lhe dá banho encostado no muro. Já o vi preparando tudo com um cuidado quase paterno.
Um dia, enquanto eu esperava para seguir o meu caminho, ele comentou, desanimado, que estava difícil: o rapaz estava sujo de fezes, até nos ouvidos. Sugeri que fosse pegar material de higiene em minha casa. Ele sorriu e disse que não precisava, ainda tinha. E completou, rindo:
— Vou deixá-lo cheirosinho hoje.
Segui em frente pensando na parábola do Bom Samaritano e pedindo a Deus que eu não morresse sem ter um coração tão cheio de compaixão quanto o daquele homem que me chama de doutora.
Na verdade, ele é quem deveria ser chamado de Doutor Compaixão.
O segundo homem – o lamento diário e a força silenciosa
O segundo homem… ah, esse eu acho abusado — e rio quando lembro.
Não sei seu nome, mas sempre conversamos. A conversa é tão repetida que parece ensaiada:
— Bom-dia!
— Como vai a família?
— Vai bem, e o senhor?
E ele responde, sempre igual:
— Aqui está ruim demais… o povo sem dinheiro, não fiz a feira, vivo de aluguel… a mulher daquele prédio disse que ia trazer uma cesta básica, mas até agora nada…
E eu continuo:
— O senhor mora com quem?
— Sozinho. Sou viúvo.
— É aposentado?
— Sou, mas vivo de aluguel.
— Mora onde?
— No Alto…
Quando o sinal abre, dou minha ajuda. Ele dobra o dinheiro com cuidado e diz:
— Vá com Deus.
Nunca o vi sorrir.
Certo dia, ele ficou uns quinze dias sem aparecer. Fiquei preocupada, pois não tinha nenhum contato. Uma vez disse que não tinha celular. Então pedi a um funcionário que fosse perguntar ao porteiro do prédio em frente, onde ele sempre ficava e recebia um cafezinho dos porteiros. O porteiro disse que ele estava doente. Fiquei aliviada ao vê-lo de volta. Sorri, mas ele não sorriu. Apenas retomou nossa velha conversa, palavra por palavra.
Ele sai de casa às quatro da manhã, vem de bicicleta, usando apenas uma perna, depois fica apoiado em uma muleta.
Um retrato de esforço diário. Seu lamento constante não é vitimismo, mas o reflexo de uma realidade dura demais, que pesa nos ombros de quem tenta sobreviver.
O homem da bicicleta talvez não precise só de uma mão para empurrar — talvez precise de um novo olhar sobre o caminho.
E quando ele diz “Vá com Deus”, sempre respondo em silêncio, com carinho: “Fique com Ele”.
O terceiro homem – um homem no sinal que me ensinou sobre luz
Todos os dias, no mesmo sinal, encontro um homem que parece carregar o sol no rosto. Ele vende de tudo um pouco — pequenos objetos, utilidades do cotidiano —, sempre com um sorriso que chega antes dele. Corre entre os carros com uma leveza rara, agradecendo a cada gesto, a cada palavra, como se a vida lhe tivesse ensinado que tudo é dádiva.
Diferentemente dos outros dois, ele sorri. Sorri com os olhos, mesmo quando o corpo denuncia cansaço.
Como o segundo homem, por cerca de quinze dias ele sumiu. Liguei para sua filha (nenhum dos três usa celular) para saber o que estava acontecendo.
Ela me informou que estava extraindo os dentes. O sinal parecia mais silencioso sem sua presença alegre. Quando finalmente voltou, veio com aquele mesmo sorriso, mesmo sentindo dor.
Contou que havia extraído os dentes e que tinha um sonho simples, mas enorme para ele: colocar uma peça nova, recuperar seu sorriso por inteiro.
Naquele momento, pude ver o tamanho do seu desejo — não por vaidade, mas por dignidade. Disse a ele que ajudaria, porque queria vê-lo ainda mais lindo e feliz, como sempre parecia ser, mesmo diante das dificuldades. Ele se emocionou, como se eu tivesse lhe dado algo muito maior do que dinheiro.
É impressionante como ele agradece tudo. Quando entrego algum valor, ele diz que vai oferecer uma parte à Igreja, como forma de gratidão. Corre entre os carros todos os dias carregando fé, esperança e aquele sorriso incompleto, mas cheio de luz.
E talvez ele nem saiba, mas, em meio à pressa da cidade, é ele quem me lembra — e lembra a todos que o veem — que a alegria, quando vem da alma, é sempre suficiente para iluminar o caminho de alguém.
Ficamos amigos, diz que sou muito especial, que sou uma bênção, diz que apresenta meu nome ao pastor de sua Igreja.
Com alegria no coração sempre digo: “Eu te amo com amor do Senhor”. Refrão de um hino que cantamos na Igreja.
Três vidas, três lições, três amigos
Esses três homens, tão diferentes entre si, carregam dores, perdas e batalhas imensas. Mas também carregam algo que não se compra: dignidade. Cada um, à sua maneira, ensina-me algo todos os dias — sobre compaixão, perseverança e esperança.
E, assim, sigo grata pelos encontros que a vida me deu às 6h da manhã e às 5h da tarde quase que diariamente.
Porque são essas histórias, silenciosas e reais, que me lembram o que é humanidade.
Feliz vida!
Obrigada, Senhor, pela vida dos meus três amigos.
Grande abraço,
Zeneide Silva
