Edição 147
Refletindo
ATITUDES QUE TRANSFORMAM
Anselm Grün
Capazes de perdoar
Muitas pessoas mostram resistência quando ouvem falar de perdão. Algumas afirmam que jamais poderão perdoar uma certa pessoa que as feriu profundamente. Outras, pelo contrário, acham que, por serem boas, precisam sempre ceder e desculpar o mau comportamento alheio. As que rejeitam o perdão alegam que essa é uma atitude passiva. Quando o perdão realmente é entendido assim, essa resistência se justifica. Porém, o perdão é algo diferente; ele consiste em um processo ativo de me livrar do vínculo à pessoa que me feriu. Enquanto eu não puder perdoá-la, ela terá poder sobre mim e comandará o meu humor.
Atualmente a Psicologia redescobriu o perdão como um ato terapêutico; mas precisamos entendê-lo bem para que seja salutar para nós. Entendo que o perdão se processa por meio de cinco passos.
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No primeiro passo, tomo consciência de minha dor. Não a ignoro desculpando o ofensor e alegando que ele não podia agir de outra forma. Intencional ou não, a ofensa me doeu e ainda me dói.
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No segundo passo, permito a raiva, que é a força de expulsar para longe de mim aquele que me feriu. Em primeiro lugar, preciso me distanciar interiormente dessa pessoa, pois não posso perdoá-la enquanto suas palavras ofensivas permanecerem em mim. Mas posso transformar minha raiva em ambição, dizendo a mim mesmo: “Posso viver sem essa pessoa”, “Não dependo de que ela me trate bem”, “Minha dignidade me pertence”, “Ponho minha ambição em viver bem por mim mesmo”.
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Já no terceiro passo, investigo objetivamente como ocorreu a ofensa e procuro entendê-la. Algumas ponderações ajudam nessa sondagem: “Foi realmente a mim que essa pessoa visou?”, “Talvez ela simplesmente tenha passado adiante uma ofensa que recebeu e me fez pagar uma conta que era devida a outra pessoa”, “Talvez ela tenha atingido o meu ponto sensível, e a criança em mim chorou porque uma antiga ferida foi tocada”. Este passo é importante para que eu me entenda e entenda a outra pessoa. Só posso me apoiar quando eu me entendo: de outro modo, estarei sempre me censurando por minha sensibilidade excessiva.
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O quarto passo é o perdão propriamente dito. Liberto-me do vínculo a quem me feriu. Devolvo–lhe a ofensa. Não o desculpo, mas retorno a mim mesmo e deixo que o outro permaneça onde está. Perdoar significa entregar e devolver a ofensa ao ofensor, deixando-a em suas mãos, pois ela lhe pertence; mas sem retribuí-la. Assim, eu me livro da ofensa. Perdoar também significa me livrar da energia negativa que a ofensa fez nascer em mim. Nesse sentido, o perdão funciona como autoterapia. Ele não indica que eu vá abraçar imediatamente o ofensor. Devo, antes, perguntar-me qual é a melhor forma de restabelecer essa relação. Será possível retomar normalmente o contato com ele ou até mesmo comemorarmos juntos a reconciliação? Ou meu coração me diz que ainda preciso de distância?
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O quinto passo é a integração. Quando vejo a ofensa como uma oportunidade para deixar florescer em mim novas possibilidades, já não me sinto prejudicado por ela, pois a integrei em minha vida. Percebo que ela me desafiou a crescer, a desenvolver em mim novas capacidades.

GRÜN, Anselm. Atitudes que transformam: como vive mos: como poderíamos viver. Petrópolis: Vozes, 2017.
O perdão não se estende apenas às pessoas que tiveram culpa em relação a mim. O fundamento da vida do cristão é o perdão de Deus. Como temos, geralmente, muita dificuldade em perdoar nossos próprios erros, precisamos sentir que Deus nos perdoa sempre. Uma imagem desse perdão nos foi descrita por Jesus na parábola do Filho Pródigo. Quando a mantemos diante dos olhos, cresce em nós a confiança de que o Pai misericordioso também nos perdoa. A imagem de Jesus na cruz, nas palavras do Evangelista Lucas, desarma nossas resistências internas contra o perdão, pois Jesus perdoa até mesmo a seus assassinos na cruz: “Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Se o próprio Jesus perdoa seus assassinos, podemos confiar que nada existe em nós que não receba o perdão de Deus. Ele nos capacita a nos aceitar e a perdoara nós mesmos. No dizer do teólogo evangélico Paul Tillich, perdoar é aceitar o inaceitável. Muitas pessoas não se aceitam, especialmente quando tiveram culpa. A experiência do perdão nos convida a nos perdoarmos. Isto não é tão fácil. Conheço muitas pessoas que acreditam no perdão de Deus, mas não conseguem perdoar a si mesmas quando cometem algum erro, especialmente quando ele foi público e elas foram incriminadas ou insultadas por outras pessoas. Para que possamos nos perdoar, é necessário meditar sempre na misericórdia de Deus, tal como ela se manifesta na cruz de Jesus e nas parábolas do Filho Pródigo e do Administrador Desonesto.
