Edição 148
Mensagem inicial
Sísifo e os baiacus
Júlio Clebsch
No Japão, o fugu é uma iguaria. Por se tratar de um peixe letal, poucos chefs têm autorização para prepará-lo. A licença para se tornar um especialista nessa arte é controlada com rigor. Por aqui, esse peixe é conhecido como baiacu. Para se defender dos predadores, ele incha e expele um líquido venenoso, que mata por intoxicação.
Nosso mundo está cheio de baiacus. São pessoas amargas e rancorosas que exalam veneno em todos os que estão à sua volta. Transformam a vida em algo pesado, triste. O baiacu acha que o destino não foi justo com ele. Culpa a todos, e não a si próprio como responsável por sua vida medíocre.
Isso me lembra a história de Sísifo, personagem da Grécia Antiga. O cara era um herói mitológico destinado a rolar uma pedra muito grande até o ponto mais alto de um morro, tendo o desprazer de vê-la despencar de volta à base. Foi condenado a repetir o martírio durante sua eternidade.
Você deve estar se perguntando: “O que é que baiacu tem a ver com Sísifo?”. Já explico.
O sujeito baiacu atua como se fosse Sísifo. Ele acha que foi condenado a carregar sua pedra (sua vida) morro acima. Para o baiacu, acordar pela manhã é um suplício. Ele esquece que destino é a soma de todas as decisões que tomou na vida.
Muitas vezes, somos obrigados a tomar decisões desagradáveis em função de necessidades que surgem de forma imprevista e que nos influenciarão — positivamente ou não — pelo resto da vida. As coisas são assim.

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Mas nós não somos como Sísifo. Ele era prisioneiro do destino. Nós, não! Temos livre arbítrio. Somos senhores da nossa vida. Se ganhamos algo do destino, é o início. O meio e o fim dessa viagem nós construímos (intervimos), somos os únicos responsáveis.
Antes que alguém diga que não é bem assim, eu digo que é. Se você tomou decisões precipitadas ao longo da vida, nunca é tarde para um recomeço, por mais riscos que essa decisão implique. Talvez você não possa alterar os eventos de sua vida, mas pode alterar a forma de vivê-los.
O que não deve nunca é transformar-se num baiacu e, durante o tempo que lhe restar, achar-se condenado a arrastar uma pedra ou exalar um veneno mortal que intoxicará todos à sua volta. Não se trata de destino, mas de atitude.
Júlio Clebsch é editor da Revista Profissão Mestre. E-mail: jclebsch@profissaomestre.com.br
