Edição 148

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O brincar como prioridade

Fabbio Campello

Anastasia – stock.adobe.com

O ato de brincar, apesar de todos os avanços conceituais, estruturais e tecnológicos da educação e do setor de entretenimento, ainda ocupa um lugar incerto e confuso em relação ao seu propósito.

Perceber o brincar dentro da estrutura da sociedade humana pode ser o caminho mais profundo para uma compreensão sensível da forma como ocupamos o planeta e elegemos nossas prioridades.

O brincar está inserido, inevitavelmente, na essência do ato de educar e de construir pontes para a convivência entre pessoas e entre pessoas com o ambiente. Então, por consequência, a forma como desenhamos o universo da educação afeta diretamente o brincar e vice-versa. Não temos como pensar o ato de brincar sem considerarmos o objetivo central do ato de educar dentro do modelo de sociedade global.

Qual seria o foco central da essência do ato de educar na história da humanidade?

Eu arrisco dizer que esse formato, metodologicamente, evoluiu muito, mas sempre permaneceu baseado na ideia de formatar indivíduos mais competentes, capazes de se destacar e sobreviver ao caos que a sociedade, na qual a educação está absolutamente inserida, produz e alicerça.

O brincar não escapa dessa realidade, em que não conseguimos ainda, no setor da Educação, olhar corajosamente para nossa condição natural de existência, para nossas prioridades e necessidades coletivas, levando a direcionar o momento do brincar para um conceito de desenvolvimento meramente individualizado.

Ora, o desenvolvimento é importante. Sim, o desenvolvimento é importante, porém os rumos desse desenvolvimento é que precisam ser repensados, sendo o ato de brincar um instrumento valioso nesse desafio. Ele está, ou deveria estar, intimamente ligado ao conceito de felicidade plena, fluida, agregadora e diversa.

Seria, a felicidade, objetivo central da educação nesse modelo atual de sociedade?

Dessa forma, brincar é muito mais do que brincar e muito menos do que um recurso de desenvolvimento de habilidades, que acabam tendo, como objetivo final, a competitividade, ainda que possua tantas propriedades benéficas para a promoção da socialização e de ampliação do afeto.

Brincar é um ato de afirmação de uma sociedade que acolhe para a plenitude de um existir que não seja baseado nas mazelas impostas pelo conceito de conquistas, lideranças e desenvolvimento desenfreado.

Questionam-me se isso seria uma utopia descabida e impossível de existir na prática, e eu devolvo o questionamento dizendo que o impossível é construirmos futuros aceitáveis com este desenho de coexistência que elegemos como meta e que, todos os dias, desperdiça o tempo da vida para servir de engrenagem, sobretudo financeira, cujos objetivos atropelam nosso pertencimento natural aos elementos essenciais à vida e nos colocam na condição de peças de reposição.

Brincar é apenas felicidade, e a felicidade
é o maior dos desenvolvimentos.

O brincar, reduzido a ser esse instrumento de desenvolvimento, parece, na prática, uma espécie de adestramento lúdico, eficaz tecnicamente e artificial quanto ao significado.

Também, a subimportância dada ao ato de brincar, as perdas ocasionadas pela exposição excessiva às telas e a diminuição de espaços de brincar, como quintais e ruas, são golpes sofridos contra a leveza e a pureza brincante.

Muitas vezes, o tempo brincante serve para preenchimento de horários vagos nos cronogramas de atividades a que as crianças, na mais tenra idade, são submetidas ou, ainda, esse brincar é associado a movimentos padronizados, frequentemente adultizados e comumente transformados em conteúdo massificante de Internet.

Em relação às perdas brincantes que os novos tempos trouxeram, esse golpe foi ainda mais impactante, pois veio acompanhado de um processo de movimentação corporal limitador, que dilacera possibilidades criativas e transforma possibilidades de descobertas em meras ações de repetição que, certamente, refletem na qualidade da construção da cognição e da socioafetividade.

Considerando essas reflexões, precisamos de muito mais do que uma requalificação técnica para o ato de brincar, precisamos redirecionar nosso foco no modelo de educação global, para destituir a ideia de formatar indivíduos capazes e competentes e dar lugar à elaboração de indivíduos capazes e competentes para a construção para uma coletividade inegociável, como condição suprema de sobrevivência feliz e saudável.

Um brincar que estimule as individualidades criativas inseridas em contextos de pertencimento a uma coletividade, livre de movimentação padronizada e mais próxima da nossa origem animal precisa, urgentemente, ser a tônica de uma inserção no complexo contexto da existência da vida, ou seja, precisamos de um brincar e de um educar muito além da adequação e a serviço da reconstrução do olhar.

Particularmente no brincar musical — uma linguagem visceral, que gera percepções duradouras e sublimes —, defendo uma prática que considere as possibilidades e peculiaridades em contraponto ao “Efeito Manada”, produzido pela disseminação cada vez maior de conteúdo de Internet e, pasmem, pelas iniciativas de entretenimento que causam danos severos às singularidades criativas.

São nossas singularidades nossas maiores contribuições para a formatação de uma sociedade em que diferenças sejam motivo para a ambientação de encontros de leituras de mundos, conexões de trocas e busca por harmonização.

Em suma, brincar é, antes de tudo, um belo motivo para a vivência de uma realidade feliz, onde sejamos mais do que um “amontoado de muitos” que trabalha mais do que o necessário e não o suficiente para a produção de felicidades. O estado de brincar é o termômetro perfeito para medirmos nossas prioridades e seus efeitos no cotidiano.

Que o brincar não padronize diferenças, não adestre criatividades, não nos posicione como superiores tecnicamente, não sirva para preenchimento de horários livres no roteiro alucinante da correria moderna, e sim seja combustível para um novo e melhor formato da nossa ocupação terrena.

Brincar é apenas felicidade, e a felicidade é o maior dos desenvolvimentos.

O AUTOR

Fabbio Campello é compositor, pedagogo, arte-educador, escritor, contador de histórias e idealizador do Projeto Brincantar. Com 30 anos de carreira, desenvolve seus projetos no eixo Educação, Cultura e Entretenimento, através de shows, workshops, palestras e vivências variadas para crianças, jovens, educadores e famílias.

@fabbiocampello

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