Edição 148
Como mãe, como educadora, como cidadã
Ciclos que precisam ser quebrados
Zeneide Silva
Todos os dias, a caminho do escritório da Construir Notícias, passo em frente a um posto de saúde que fica numa esquina. Em um desses dias, parei no semáforo e observei uma cena que me marcou profundamente.
Uma mãe atravessava a rua, segurando a mão da filha adolescente, que aparentava ter entre 13 e 15 anos. Um detalhe me chamou a atenção: a jovem estava grávida, com a gestação já bastante avançada. Pelo seu caminhar, demonstrava cansaço.
Segui meu caminho refletindo. Pensei em quantos momentos aquela adolescente deixaria de viver: passeios, estudos, descobertas, sonhos. A maternidade precoce, além das transformações físicas e emocionais, traz desafios intensos — interrupção dos estudos, falta de apoio, preconceito, isolamento social e uma sobrecarga para a qual muitas vezes não se está preparada.
Atualmente, uma novela em exibição retrata uma realidade que reforça essa reflexão: três gerações de uma mesma família — avó, filha e neta — engravidam aos treze anos. A história evidencia como, na ausência de diálogo, orientação e oportunidades, certos padrões tendem a se repetir.
Cada uma dessas mulheres viveu dificuldades profundas: abandono, relações abusivas, falta de apoio. Mesmo a neta, que sonhava em estudar e ser médica para ajudar sua comunidade, não conseguiu romper esse ciclo.
Embora seja uma obra de ficção, a narrativa reflete uma realidade presente em muitas famílias. A gravidez na adolescência não é apenas uma questão individual, mas social. Envolve educação, acesso à informação, apoio familiar e oportunidades reais de mudança.
Quando esses fatores falham, cria-se um ciclo silencioso e persistente, onde meninas que poderiam estar construindo seus projetos de vida assumem precocemente responsabilidades que transformam completamente seus caminhos.
Essa reflexão me levou a lembrar do curta-metragem brasileiro Vida Maria, dirigido por Márcio Ramos. A animação retrata a história de uma menina que sonhava em estudar, mas é impedida pela própria mãe, sendo direcionada ao trabalho desde cedo.

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Com o passar do tempo, Maria repete o mesmo padrão com sua filha. E assim, geração após geração, o mesmo destino se repete.
O final do curta é forte e simbólico: a filha de Maria, ainda criança, começa a trilhar exatamente o mesmo caminho. Isso nos mostra que, quando não há intervenção, o ciclo continua.
Essas histórias nos fazem entender que não se trata apenas de escolhas individuais, mas de um conjunto de fatores sociais, familiares e educacionais. A falta de acesso à informação e orientação sobre saúde e sexualidade e de perspectivas de futuro contribuem para a manutenção desse cenário.
É nesse contexto que a escola assume um papel fundamental. Mais do que ensinar conteúdos, ela precisa promover diálogo, escuta e consciência. Trabalhar temas como projeto de vida, respeito ao próprio corpo, responsabilidade e planejamento do futuro é essencial para que adolescentes façam escolhas mais conscientes.
Ao refletir sobre tudo isso, lembrei-me de uma experiência que vivi.

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Na época em que atuava como catequista, conheci uma menina que não tinha registro e não frequentava a escola. Decidi visitar sua casa e conversar com a família.
A mãe trabalhava como colaboradora em uma residência, e o pai, inicialmente resistente, afirmou que a filha não precisava estudar, pois seguiria o mesmo caminho da mãe. Para ele, o destino dela já estava definido.
Aquele momento me entristeceu profundamente. Lembrei da minha mãe, Zélia, que, mesmo diante das dificuldades, sempre valorizou o estudo e nos incentivava a aprender.
Foi um grande desafio, mas consegui convencer aquele pai de que sua filha tinha direito de estudar e escolher seu próprio futuro.
Anos depois, retornei à igreja e encontrei aquela menina. Ela me reconheceu, sorriu, e nos abraçamos.
Fiz apenas duas perguntas:
— Você está estudando? Está feliz?
Com um sorriso no rosto, ela respondeu:
— Sim.
Fiz o sinal da cruz em sua testa e, em silêncio, desejei: “Deus te abençoe hoje e sempre”.
Ela não entrou na estatística. Ela venceu.
Que possamos, como educadores, famílias e sociedade, contribuir para que as histórias das novas gerações sejam diferentes — com mais oportunidades, mais sonhos e mais liberdade de escolha.
Refletir sobre a gravidez na adolescência e sobre histórias como a de Vida Maria é refletir sobre o nosso papel coletivo na construção de um futuro mais justo.
A gravidez na adolescência não é apenas uma questão individual, mas social.
Envolve educação, acesso à informação, apoio familiar e oportunidades reais de mudança.
