Edição 146
Espaço pedagógico
A ARTE DE SER PROFESSOR E OS DESAFIOS DA APRENDIZAGEM NO SÉCULO XXI
Kelly Cartaxo Costa
O século XXI trouxe muitas mudanças tecnológicas, sociais, políticas e culturais que têm impactado diretamente na nossa vida e, principalmente, na escola que ainda não sabe muito bem o que fazer diante deste mundo globalizado, em que a informação é muito veloz; e a interatividade, por vezes, caótica, complexa e até egoísta. O mundo vive em plena conectividade digital, onde o mais importante são as visualizações, os likes e, óbvio, as rápidas viralizações de falas, escritas e vídeos. É uma busca frenética pelo “engajamento”.
O tempo diário parece cada vez mais reduzido, e os contatos físicos e presenciais estão a cada dia mais desafiadores. Nesse cenário, o professor está inserido em diversos contextos, ancorados em ideias e práticas de um século anterior. Por isso, promover a aprendizagem dos alunos nos dias atuais é um desafio contínuo, que exige do docente, além de tudo que já lhe era exigido, um domínio mais aprofundado dos conteúdos, inovação constante e novas metodologias, além de competências digitais, emocionais e éticas, dentre outras exigências essenciais para a prática contemporânea.
Ficamos a pensar que tudo isso é maravilhoso e que a escola precisava mesmo dessa sacudida para que as mudanças realmente acontecessem. Mas como ensinar a alunos que, muitas vezes, não querem aprender, não respeitam o outro e o ambiente no qual estão inseridos? Como ensinar diante da quantidade de turmas e aulas que é preciso ter na carga-horária para sobreviver e ainda assim ter tempo para pensar, estudar, inovar, planejar, corrigir, educar? Como se reinventar na docência diante do novo perfil de alunos que exigem cada vez mais do professor? Será que ainda é possível ensinar de forma prazerosa e saudável? São inúmeras as reflexões que fazemos no quotidiano.
A escola necessita se reinventar, como um espaço que acolhe, inspira e, acima de tudo, que desperta o desejo de ensinar e aprender. Será que é possível tornar o processo de ensino e aprendizagem mais humano, ético, criativo e prazeroso, tanto para o aluno como para o professor?
Para que esse processo de ensino e aprendizagem seja prazeroso e saudável para todos, é necessário que o ambiente escolar seja emocionalmente seguro e que as relações sejam estabelecidas a partir do respeito mútuo, da empatia e da escuta ativa, valorizando, especialmente, a diversidade existente.
As famílias, os alunos e os professores precisam ser respeitados assim como são, e não do jeito como gostaríamos que fossem. Ensinar é muito mais do que transmitir conteúdos, é um ato de amor, ousadia e coragem.
Na perspectiva freiriana, a relação entre docente e discente deve ser pautada pelo diálogo e pela amorosidade, pois é
Não há vida sem esperança, não há existência humana sem a dimensão da esperança.
[…] a convivência amorosa com seus alunos e na postura curiosa e aberta que assume e, ao mesmo tempo, provoca-os a se assumirem enquanto sujeitos sócio-histórico-culturais do ato de conhecer, é que ele pode falar do respeito à dignidade e autonomia do educando. Pressupõe romper com concepções e práticas que negam a compreensão da educação como uma situação gnoseológica” (Freire, 1996, p. 11).
O professor deve continuar a acreditar no rigor da ação docente sem abrir mão da amorosidade. Nunca podemos esquecer que o processo de ensino e aprendizagem deve pautar-se no amor, no rigor, na liberdade, na curiosidade, na inquietude e no respeito. Para o exercício pleno e efetivo da docência, é preciso criar um ambiente de respeito e confiança com uma postura aberta e dialógica, humana e ética para lidar com a diversidade cultural e social dos alunos, alicerçada por uma convivência de cuidado, flexibilidade e amor. É ser capaz de iluminar mentes e abrir caminhos que conduzam à curiosidade e ao conhecimento.
Freire (1996, p. 99) reforça que:
O autoritarismo e a licenciosidade são rupturas do equilíbrio tenso entre autoridade e liberdade. O autoritarismo é a ruptura em favor da autoridade contra a liberdade; e a licenciosidade, a ruptura em favor da liberdade contra a autoridade. Autoritarismo e licenciosidade são formas indisciplinadas de comportamento que negam o que vinham chamando a vocação ontológica do ser humano. Assim, como inexiste disciplina no autoritarismo ou na licenciosidade, desaparece em ambos, a rigor, a autoridade ou a liberdade. Somente nas práticas em que autoridade e liberdade se afirmam e se preservam enquanto elas mesmas, portanto no respeito mútuo, é que se pode falar de práticas disciplinadas como também em práticas favoráveis à vocação para o ser mais.

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Não há vida sem esperança, não há existência humana sem a dimensão da esperança.
Quando a liberdade e a autoridade existem de maneira equilibrada, as relações humanas se tornam saudáveis e verdadeiramente emancipadoras. Quando há diálogo, há ensino e há aprendizagem. Precisamos compreender que, mesmo com os desafios do século XXI, o aprendizado não floresce em ambientes de opressão e muito menos de laissez-faire absoluto. Para ensinar nos dias de hoje, é necessário exercer uma autoridade ética e amorosa, alicerçada pelo respeito, pela empatia e pela confiança. É preciso continuar a ter entusiasmo e esperança, assim como a acreditar num ambiente de respeito e liberdade, onde os sentimentos são validados e a diversidade é valorizada, tornando-nos — professor e alunos — sujeitos autônomos, emancipados e felizes, conscientes dos seus direitos e deveres, capazes de atuarem em prol de uma sociedade mais coerente com os valores de justiça, equidade, solidariedade e inclusão.
O respeito à autonomia e à dignidade de cada um como um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros […] o professor que desrespeita a curiosidade do educando, seu gosto estético, a sua inquietude, a sua linguagem, mais precisamente a sua sintaxe e a sua prosódia; o professor que ironiza o aluno, que o minimiza, que manda que ‘ele se ponha em seu lugar’ ao mais tênue sinal de sua rebeldia legítima, tanto quanto o professor que se exime do cumprimento do seu dever de propor limites à liberdade do aluno, que se furta ao dever de ensinar, de estar respeitosamente presente à experiência formadora do educando, transgride os princípios fundamentalmente éticos de nossa existência”
(Freire, 1996, p. 66).
Agora, mais do nunca, o aluno do século XXI precisa de um docente que dê orientação ética acerca de como usar a liberdade, que valorize a sua bagagem cultural, que estimule o diálogo, que o ajude a ter critérios para saber filtrar as informações, tudo isso mediados pelo amor, pelo respeito mútuo, pela autonomia, pela presença e pelos limites. Lembrando sempre que “[…] ensinar exige compreensão do mundo” (Freire, 1996, p. 30), ou seja, é preciso estar sempre atento às transformações sociais, políticas e culturais.
O professor do século XXI é um facilitador da aprendizagem, é aquele que ajuda a preparar os alunos para os desafios contemporâneos. Segundo Moran (2015, p. 2–3), “Ensinar e aprender no século XXI exige mais do que dominar conteúdos, exige criar ambientes de aprendizagem que motivem o aluno a aprender por si”. Além de tudo isso, o professor do século XXI é aquele que precisa de apoio, de ser reconhecido pelo seu trabalho e de políticas que promovam o seu bem-estar, a valorização e o seu autocuidado diário porque “A qualidade de uma escola está intrinsecamente ligada ao bem-estar e à valorização dos professores, pois educadores motivados e reconhecidos conseguem criar ambientes de aprendizagem mais saudáveis, inovadores e eficazes” (Nóvoa, 2009, p. 9; Hargreaves; Fullan, 2014, p. 75–76).

Ilustração: José Luiz
[…] ensinar exige compreensão do mundo.”
Freire, 1996, p. 30
Como conseguir fazer com que tudo isso aconteça na atualidade, quando, cada vez mais, há um desencanto pela profissão? Os professores estão passando por uma crise física, emocional, intelectual e até existencial, sem falar da crise social, que já vem de muito tempo. Parafraseando Nóvoa (2019) quando discute que os professores vivem, muitas vezes, o paradoxo de serem cobrados como os principais agentes da transformação, mas são tratados como meros executo res de políticas educacionais, limitando, assim, a sua autonomia. É urgente ressignificar o papel docente, reconhecendo-o como agente crítico e um transformador de práticas pedagógicas e sociais.
O professor precisa encontrar sentido no que faz e sentir-se motivado para pensar, criar, experimentar, errar e aprender continuamente, tornando-se um profissional engajado pela sua prática e comprometido com uma educação verdadeira e transformadora, porque “O professor reflexivo não apenas age, mas também pensa sobre a sua ação para aperfeiçoá-la continuamente, aprendendo com a prática” (Schön, 1987, p. 21).
Diante de tantos desafios, podemos dizer que ensinar no século XXI continua a ser, cada vez mais, um ato de coragem, amor, persistência e determinação, seja pela necessidade de cuidar de si, de se reinventar ou de lutar por reconhecimento e condições mais justas. Mas não devemos deixar de cultivar o diálogo, o respeito, a ética, o compromisso e, acima de tudo, a esperança, pois “Não há vida sem esperança, não há existência humana sem a dimensão da esperança” (Freire, 1994, p. 33), ou seja, é educar na convicção da mudança, mesmo que a realidade não seja fácil. Educar porque acreditamos e temos a esperança de que é uma oportunidade única de transformação pessoal e social porque “A educação é um ato coletivo e dialógico, no qual educador e educando aprendem juntos. Construindo o conhecimento em comunhão”, especialmente porque “[…] não há docência sem discência” (Freire, 1996, p. 50).
Ser professor é e sempre foi uma arte porque envolve criatividade, conhecimento, empatia e, acima de tudo, capacidade para se reinventar diante do velho, do novo e dos desafios quotidianos, porque
Ensinar exige, antes de tudo, alegria, generosidade e compromisso. Alegria para encarar o desafio da ação educativa com entusiasmo; generosidade para colocar-se no lugar do outro e perceber suas dificuldades e potencialidades; compromisso para continuar a buscar o conhecimento e aprimorar a prática pedagógica, mesmo diante das adversidades” (Freire,1996, p. 75).
A “alegria, a generosidade e o comprometimento” (Freire, 1996, p. 75) são elementos fulcrais para a construção genuína de uma obra de arte, porque, no contexto atual, marcado pelas rápidas transformações políticas, tecnológicas, sociais e culturais, o professor contemporâneo não pode querer limitar o seu importante papel à mera transmissão de conteúdos, porque a arte de ensinar na atualidade transcende a técnica. Ela é profundamente humana, e, por isso, o docente é um verdadeiro artista da arte de inspirar e transformar vidas, sempre em parceria e cooperação com os seus alunos, os protagonistas da arte de aprender.
DAMÁSIO, António R. Emoção e razão: o encontro entre o sentimento e a razão. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996._____________. Pedagogia da esperança – um reencontro com a pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1994._____________. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.HARGREAVES, Andy; FULLAN, Michael. Professional capital: transforming teaching in every school. New York: Teachers College Press, 2014. Cap. sobre satisfação docente e inovação pedagógica, p. 75–76. MORAN, José Manuel. A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá. Campinas: Papirus, 2015. NÓVOA, António. Professores: imagens do futuro presente. Lisboa: Educa, 2009. ______________ . “Professores para libertar o futuro.” Revista Educação, 2023. Disponível em: https://revistaeducacao.devsocial.com.br/2023/07/28/antonionovoa-professores-futuro/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 10 de agosto de 2025._______________. Os professores e a sua formação num tempo de metamorfose da escola. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 44, n. 3, p. 1-15, 2019. Disponível em: https://www.redalyc.org/journal/3172/317265189003/html/. Acesso em: 10 ago. 2025.
SCHÖN, Donald A. Educador reflexivo: como os profissionais pensam na ação. São Paulo: Cortez, 1987
