Edição 134

Refletindo

A semente

Rafahel Ramos

A base familiar é a estrutura fundamental para um indivíduo. Com plena certeza, o que enfrentamos hoje é uma avalanche desmotivadora das relações familiares, um desmonte que assombra a relação mais bem estruturada: a de pais e filhos.

Onde e como erramos? Será que há erros na relação contemporânea que ainda conseguimos reparar?

Pais e filhos, tema de novelas, filmes e músicas, fazem-nos refletir o quanto podemos ser vulneráveis a quaisquer falhas. Sim, pais e filhos erram.

A coisa mais preciosa em qualquer relação é o respeito pela individualidade do outro, por isso com essa relação não é diferente. É preciso que ambas as partes respeitem-se e considerem que, numa relação, independentemente de qual seja, há indivíduos diferentes e que precisam ter a sua individualidade respeitada.

Mas, atenção, pais e mães, não esqueçam que vocês são tutores. Vocês moldam, educam, orientam a criança, que já nasce com uma personalidade e um caráter particulares.

É necessária muita vigilância para não cair em armadilhas antigas, como “Não quero ser como meus pais”. Será que não há nada do passado, em seu processo de educação e formação, que você não deva mesmo aplicar nos dias de hoje?

A contemporaneidade requer nosso autodesenvolvimento, ou seja, nossos valores, nossa bagagem adquirida e nossas formações de caráter devem ser aplicadas no “aqui e agora”. Eu não consigo aprender se não me disponho a ensinar. É impossível educar alguém sem que você tenha sido educado antes.

Agora, uma vez que você é um educador, um pai ou mãe, um tutor de um ser em formação, você precisa retirar os excessos, o perigo está no excesso.

Na educação contemporânea, tudo está permissivo demais. Dizer um não parece não ser mais possível para as crianças de hoje, que se frustram por tudo e sofrem por tudo.

O não é um mecanismo no processo da educação. Dizer não não é uma forma de frustrar a sua criança. No processo educacional, o não representa uma forma de ensinamento.

O não é um mecanismo no processo da educação. Dizer não não é uma forma de frustrar a sua criança. No processo educacional, o não representa uma forma de ensinamento.”

Temos, hoje, pais e filhos no embate de quem governa quem. Filhos autoritários, mais independentes e inconsequentes do efeito da não educação. Pais que, por serem ausentes, buscam formas excessivas de agradar aos filhos dizendo sempre sim. Dão o sim já que não têm tempo para saírem no fim de semana; dão o sim já que não conseguem ver o filho durante o dia, então preferem deixá-los no celular o dia todo, nas dancinhas o tempo todo; e esquecem que vigiar é uma das formas de se reconhecer onde está a falha.

Há também, ainda sobre o excesso do qual falávamos, a ideia de que apenas os pais têm deveres. Essa temática pode ser mais complexa do que realmente já nos parece. O estilo de educação aplicada gera um turbilhão de efeitos na vida da criança. Em contexto, a contemporaneidade é ainda mais desafiadora, já que pais e filhos “estão sendo educados” por mídias sociais.

Ferramentas digitais ensinam como lidar com uma educação engessada e cada vez mais sem limites. Conforme os filhos crescem, eles buscam cada vez mais ver nos pais um exemplo para se espelhar e tomar para si como modelo de vida. Assim como também pais esperam modelos perfeitos dos filhos, exemplos e uma reprodução fiel de todos os seus ensinamentos. Na prática, não funciona assim.

Há, nessa relação, a soma de dois lados. Dois lados que devem se equilibrar. Apesar da nossa época atual, por causa das várias mudanças pelas quais a família passou e passa, os pais têm um papel estruturante, pois são tutores da criança em formação.

Pais e filhos podem aprender juntos. Podem descobrir a delícia que é a educação.

Conforme já mencionado, a relação entre pais e filhos deve ser pautada por uma base de formação. Os pais já têm a base, aplicá-la é o desafio.

Essa pode ser a semente deixada como herança para um futuro com mais respeito e valores consigo mesmo e para com a sociedade.


Rafahel Ramos é professor de Inglês e Português e escritor. Autor do livro Educação contemporânea: pais e filhos, publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

E-mail: rafahramos@hotmail.com

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