Edição 142

Matéria Âncora

Agora é lei: desconectando para conectar na educação básica

Maria Altair Galvão

A Lei nº 15.100/2025 representa um marco significativo na busca por um ambiente escolar mais saudável e focado ao restringir o uso de celulares e dispositivos eletrônicos pessoais nas escolas de Educação Básica. Essa medida, embora desafiadora, visa proteger crianças e adolescentes dos impactos negativos do uso excessivo de telas, promovendo um aprendizado mais significativo e interações sociais mais ricas.

A discussão sobre o impacto da tecnologia na educação não é nova, mas ganhou urgência diante do aumento do tempo de tela entre crianças e jovens. Estudos recentes, como os da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), apontam que o uso desregulado de dispositivos digitais está associado a problemas de atenção, ansiedade e redução da capacidade de interação social. A nova lei surge como uma resposta a essas preocupações, incentivando escolas e famílias a repensarem o papel da tecnologia no desenvolvimento dos alunos.

Implicações e consequências: o que professores e alunos têm observado

 

Desde a implementação da lei, educadores têm relatado mudanças perceptíveis no ambiente escolar. O aumento na concentração e participação dos alunos é um dos pontos mais destacados. Sem a distração constante de notificações e redes sociais, os estudantes demonstram mais engajamento nas atividades propostas.

Além disso, professores observam uma melhora na comunicação interpessoal. Antes, era comum ver grupos de alunos sentados juntos, mas cada um imerso em seu próprio dispositivo. Agora, as conversas presenciais e as dinâmicas em grupo têm se intensificado, favorecendo o desenvolvimento de habilidades socioemocionais essenciais.

No entanto, alguns desafios persistem. Alunos acostumados ao uso constante do celular relatam ansiedade e sensação de isolamento, especialmente aqueles que dependiam dos dispositivos como principal meio de interação. Esse fenômeno, conhecido como abstinência digital, reforça a necessidade de estratégias pedagógicas que ajudem os estudantes a se adaptarem a essa nova realidade.

Sem a distração constante de notificações e redes sociais, os estudantes demonstram mais engajamento nas atividades propostas.

O que dizem as famílias

A reação das famílias à nova lei tem sido dividida. Alguns pais apoiam a medida, reconhecendo que o uso excessivo de celulares prejudica o desempenho escolar e a saúde mental dos filhos. Outros, porém, expressam preocupação com a dificuldade de comunicação imediata, já que muitos utilizavam o celular como forma de monitorar os filhos fora de casa.

Esse cenário evidencia a necessidade de diálogo entre escola e família. A escola deve esclarecer os benefícios da medida, enquanto as famílias precisam ser orientadas sobre como estabelecer limites saudáveis no ambiente doméstico. O equilíbrio digital não deve ser uma responsabilidade apenas da escola, mas um compromisso coletivo.

O sentimento dos alunos sem a ferramenta tecnológica

Para muitos estudantes, o celular é mais do que um dispositivo — é uma extensão de sua identidade e principal meio de socialização. Por isso, a restrição inicial pode gerar frustração. Alguns alunos relatam sentir-se “desconectados do mundo”, especialmente os que usavam redes sociais como principal forma de interação.

Por outro lado, muitos estão descobrindo novas formas de ocupar o tempo livre. Brincadeiras coletivas, leitura e até mesmo o simples ato de conversar com os colegas têm ganhado espaço. Essa transição, embora desafiadora, pode ser uma oportunidade para resgatar experiências sociais mais autênticas e menos mediadas por telas.

O bom uso da ferramenta tecnológica na escola

A lei não proíbe completamente o uso de tecnologia, mas regulamenta seu uso pedagógico. Celulares e tablets podem ser ferramentas valiosas quando utilizados de forma orientada, seja para pesquisas, produção de conteúdo multimídia ou atividades colaborativas.

O desafio para as escolas é estabelecer diretrizes claras sobre quando e como esses dispositivos devem ser usados. Professores podem, por exemplo, incorporar atividades que envolvam tecnologia de forma intencional, como projetos de vídeo, programação ou pesquisa guiada. O importante é que o uso seja consciente, supervisionado e alinhado aos objetivos educacionais.

O papel dos pais na prevenção da dependência

A escola sozinha não consegue resolver o problema da dependência digital. Os pais têm um papel crucial em estabelecer limites saudáveis dentro de casa. Algumas estratégias incluem:

• Definir horários sem telas (como durante as refeições e antes de dormir).
• Incentivar atividades offline, como esportes, leitura e brincadeiras criativas.
• Dialogar sobre os riscos do uso excessivo, como cyberbullying e exposição a conteúdos inadequados.

Escolas podem auxiliar nesse processo promovendo oficinas para pais, nas quais especialistas discutem como criar um ambiente familiar equilibrado em relação ao uso de tecnologia.

Relacionamento, interação e ansiedade: a psicologia em cena

A psicologia tem alertado há anos sobre os efeitos negativos do uso excessivo de telas. Problemas como ansiedade, depressão, déficit de atenção e isolamento social estão diretamente ligados ao tempo excessivo diante de dispositivos digitais. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que crianças menores de 10 anos tenham, no máximo, duas horas de tela por dia, enquanto adolescentes devem ser orientados a equilibrar o uso com outras atividades. O Manual de Saúde da SBP indica limites claros para o tempo de tela, variando de acordo com a faixa etária:

• Menores de 2 anos: nenhum contato com telas.
• Dos 2 aos 5 anos: até 1 hora por dia.
• Dos 6 aos 10 anos: entre 1 e 2 horas por dia.
• Dos 11 aos 18 anos: entre 2 e 3 horas por dia.

Syda Produ / stock.adobe.com

Nas escolas, a ausência do celular pode intensificar sintomas de ansiedade em alguns alunos, especialmente aqueles que já apresentavam dependência digital. Por isso, é fundamental que a escola ofereça suporte psicológico e promova atividades que ajudem os estudantes a desenvolverem estratégias de regulação emocional sem o uso da tecnologia.

A escola sozinha não consegue resolver o problema da dependência digital. Os pais têm um papel crucial em estabelecer limites saudáveis dentro de casa.

A visão de educadores brasileiros

Grandes nomes da educação brasileira, como Mario Sergio Cortella e Tânia Zagury, defendem que a tecnologia deve ser uma ferramenta de apoio, e não o centro do processo educativo. Cortella destaca que “A escola é o lugar do encontro, do diálogo, da construção coletiva” e que o excesso de telas pode empobrecer essas experiências.

Zagury, por sua vez, ressalta a importância de “resgatar o prazer da leitura, da escrita e da conversa presencial”. Para ela, a tecnologia não deve substituir, mas complementar as interações humanas.

Essas reflexões reforçam que a Lei nº 15.100/2025 não é um retrocesso, mas um convite para repensar como a tecnologia está sendo usada na educação.

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Construindo um futuro digital equilibrado

A nova lei não é contra a tecnologia, mas a favor de um uso mais consciente e intencional. O objetivo é desconectar para reconectar, ou seja, reduzir a distração digital para valorizar o aprendizado profundo, as relações humanas e o desenvolvimento integral dos alunos.

A escola, em parceria com famílias e comunidade, deve liderar essa transformação, criando um ambiente onde a tecnologia seja usada de forma crítica e criativa, sem dominar a experiência educativa.

O desafio é grande, mas o potencial de uma geração mais focada, criativa e emocionalmente equilibrada faz valer a pena. Agora é lei — e agora é hora de agir.

O objetivo é desconectar para reconectar, ou seja, reduzir a distração digital para valorizar o aprendizado profundo.

 


Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018.
BENCINI, Roberta. Como atrair os pais para a escola. In: Revista Nova Escola. p. 38. Ano XVIII, nº 166, outubro de 2003.
CORTELLA, Mario Sergio. Entrevista ao Jornal O Globo. Rio de Janeiro, 2024.
ZAGURY, Tânia. O professor refém: para pais e professores entenderem por que fracassa a educação no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 2006.
SOCIEDADE Brasileira de Pediatria (SBP). Manual de orientação: grupo de trabalho Saúde na Era Digital (2019–2021). #Menos telas #mais saúde [Internet]. Rio de Janeiro: SBP; 2019.


Maria Altair Galvão é licenciada em Letras e pós-graduada em Gestão e Coordenação Escolar, atuou como professora de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental, foi coordenadora pedagógica e é revisora de obras didáticas na Editora Construir.

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