Edição 138

Espaço pedagógico

Algumas reflexões sobre o ensino “tradicional” e alternativas pedagógicas na formação do eu leitor: um relato de experiência

Antônio Vítor Santos da Silva

Introdução

No panorama educacional contemporâneo, a dinâmica das salas de aula e os métodos de ensino têm sido objeto de intensos debates e reformulações. Quando se trata de mudanças na educação, a abertura para o debate é de extrema importância, pois o educador Paulo Freire (2000) já nos dizia que “A educação sozinha não transforma a sociedade”. É importante falar sobre educação, pois este mesmo educador ainda afirma que “[…] sem ela tampouco a sociedade muda”. Essa afirmação ressoa profundamente em um momento em que a sociedade enfrenta desafios cada vez mais complexos e demanda indivíduos capazes de pensar criticamente e agir de forma criativa. Em meio a essa efervescência de mudanças, vale refletir sobre o que é educação e como fazê-la.

Destaco que este ensaio é parte da avaliação da disciplina Estágio Supervisionado em Língua Portuguesa 4, do Departamento de Ensino e Currículo da Universidade Federal de Pernambuco (DEC/UFPE). No decorrer deste, pretendo refletir sobre minha experiência de estágio na escola-campo onde atuei, a Escola Técnica Estadual Professor Lucilo Ávila Pessoa (Eteplap), sendo as aulas ministradas para uma turma do 1º ano do Ensino Médio do curso de Redes de Computadores.

Aqui, não pretendo propor nada novo, mas apontar o que a Academia pensa enquanto educação ideal e o que o Ensino Básico pratica enquanto educação. Só assim, passo às provocações de como essas ideologias acarretam efeitos sobre a formação de leitores no País, além de explorar possíveis alternativas e estratégias para promover uma educação mais participativa, a partir dos desafios e das oportunidades encontrados no contexto de estágio.

Essa desconexão entre o modelo educacional vigente e as necessidades do mundo atual tem gerado uma série de consequências negativas, incluindo altos índices de evasão escolar […]

 

Educação “moderna” e educação “tradicional”

Desde o início da graduação, os estudantes das diversas licenciaturas ouvem falar de dois importantes nomes da epistemologia: Jean Piaget e Lev Vygotsky. Ambos propõem uma abordagem educacional que chamam de Teoria Construtivista, na qual a construção do conhecimento se dá de forma ativa, uma vez que proporciona ao aluno oportunidades para que ele explore, questione e construa significados a partir de suas experiências. Consoante a isso, David Ausubel (2003) afirma que a aprendizagem é mais eficaz quando os novos conhecimentos estão relacionados de forma significativa com os conhecimentos prévios do aluno. Assim sendo, uma educação ideal — que aqui chamo de moderna apenas por oposição ao termo tradicional — precisa ser crítica ao mesmo tempo que precisa ser global, no sentido de incluir a todos em suas particularidades. O papel do professor nesse processo é o de mediador, oferecendo orientações e feedbacks, mas o foco é o estudante e o seu desenvolvimento.

Entretanto, algumas instituições — para não dizer a maioria em peso — ainda permanecem arraigadas a um modelo “tradicional” de ensino. Nesse modelo, o professor é o centro da sala de aula, pois é o detentor de um conhecimento inquestionável, e sua missão é repassar esse conhecimento aos alunos, que são vistos pela errônea compreensão do olhar de John Locke ao afirmar que a mente humana é como uma “folha em branco”. Assim, a folha em branco que deveria ser amassada, riscada, rasurada — isto é, a mente ao aprender pela experiência significativa — passa a ter linhas, letra bonita e proibição de rasura, ou seja, o conhecimento é linear, com foco nos belos clássicos e canônicos, e o erro, nesse ambiente, não é permitido.

Embora esse modelo possa ter sido eficaz em épocas passadas, hoje se mostra limitante e inadequado para atender às demandas e potencialidades dos alunos. Alguns pensadores, como Ken Robinson (2015), afirmam que o sistema educacional contemporâneo foi projetado e concebido para um mundo diferente daquele em que vivemos hoje. Essa desconexão entre o modelo educacional vigente e as necessidades do mundo atual tem gerado uma série de consequências negativas, incluindo altos índices de evasão escolar, desinteresse dos alunos pelo processo de aprendizagem e uma crescente lacuna entre as habilidades desenvolvidas na escola e aquelas demandadas pelo mercado de trabalho. A escola, que deveria ser um lugar de criação, tem matado a criatividade dos alunos, e muitas continuam a privilegiar a memorização de fatos e a repetição de conteúdos, em detrimento do desenvolvimento da capacidade de questionar, criar e inovar.

Os limites entre o “moderno” e o “tradicional” na escola-campo de atuação

A Escola Técnica Estadual Professor Lucilo Ávila Pessoa (Eteplap), aclamada por sua excelência no Ensino Técnico, depara-se com uma dualidade marcante em sua abordagem pedagógica. Apesar de seu reconhecido prestígio no âmbito técnico, a instituição ainda mantém raízes profundas em um modelo de ensino “tradicional”, que, em muitos aspectos, contrasta com as demandas e tendências contemporâneas da educação. Ao adentrar as salas de aula da escola, é possível visualizar claramente a materialização desse modelo “tradicional”. A disposição das carteiras, enfileiradas e voltadas para o quadro branco, denota uma estrutura rígida e centrada no professor. A sala, com suas paredes brancas desprovidas de qualquer expressão visual, reflete a impessoalidade desse ambiente, onde os alunos são frequentemente tratados como receptores passivos de conhecimento, sem identidade — e, mesmo que tenham, não convém saber.

Nesse contexto, as práticas pedagógicas adotadas pela instituição tendem a privilegiar as aulas expositivas, relegando os alunos a um papel secundário e limitando seu engajamento e sua participação ativa no processo de aprendizagem. A interação entre os estudantes é, muitas vezes, restrita a breves momentos de questionamento, deixando pouco espaço para o diálogo colaborativo e a construção coletiva do conhecimento. Além disso, é perceptível uma forte ênfase na memorização de conteúdos, em detrimento do desenvolvimento de habilidades cognitivas mais complexas e da capacidade de aplicar o conhecimento de forma prática e significativa. Embora o currículo técnico ofereça oportunidades para a experimentação e aplicação prática dos conceitos aprendidos, a abordagem pedagógica geral da instituição ainda carece de uma integração mais ampla dessas práticas inovadoras no cotidiano escolar.

No entanto, apesar do tradicionalismo que permeia as salas de aula da Eteplap, é possível observar alguns sinais de mudança e inovação em outros aspectos da instituição. A presença de laboratórios bem equipados e de uma biblioteca funcional demonstra um esforço em oferecer espaços e recursos que estimulem a prática e a pesquisa dos alunos. Embora essas iniciativas representem uma fuga do ambiente “tradicional” de ensino, é importante ressaltar que sua implementação ainda é limitada e não atinge todos os alunos de maneira igualitária. Ou seja, esses ambientes, muitas vezes, acabam por ser uma extensão do tradicionalismo da sala de aula — isso quando são usados.

Entre o “moderno” e o “tradicional”: impactos epistemológicos na formação de leitores

A formação de leitores é um aspecto fundamental da educação, pois não apenas desenvolve habilidades linguísticas e cognitivas, mas também promove o pensamento crítico, a empatia e a compreensão do mundo ao nosso redor. Em virtude disso, meu projeto denominado A formação do Eu leitor: o lugar do texto literário na sala de aula, um trabalho com poemas e nanocontos teve como objetivo proporcionar a alunos do Ensino Médio uma experiência significativa com o universo literário, destacando o papel central desses textos no desenvolvimento do leitor crítico, sensível e reflexivo (Candido, 2011). No entanto, não se pode deixar de falar das diferentes influências que as epistemologias “moderna” e “tradicional” exercem sobre esse processo, moldando a maneira como os alunos interagem com os textos literários e, consequentemente, sua relação com a leitura.

No contexto da epistemologia “tradicional”, centrada no professor e na transmissão unidirecional de conhecimento, a formação de leitores tende a ser mais passiva e restrita. As aulas expositivas e a ênfase na memorização de conteúdos frequentemente levam os alunos a encarar a leitura como uma atividade mecânica e desprovida de significado pessoal. Os textos literários são frequentemente abordados de maneira fragmentada e descontextualizada, sem espaço para a exploração de suas nuances e múltiplas interpretações. Nesse cenário, os estudantes podem desenvolver uma aversão à leitura, associando-a a uma obrigação tediosa e desinteressante.

Por outro lado, a epistemologia “moderna”, que valoriza a construção ativa do conhecimento pelo aluno e a aprendizagem significativa, oferece um ambiente mais propício para a formação de leitores críticos e engajados. Nesse modelo, os alunos são encorajados a explorar os textos literários de forma autônoma e reflexiva, construindo seus próprios significados a partir de suas experiências e interações com as obras. As atividades de leitura são enriquecidas por discussões em grupo, análises contextualizadas e projetos criativos, que estimulam a imaginação e a expressão individual dos alunos.

A presença de espaços e recursos dedicados à leitura, como bibliotecas funcionais e ambientes de leitura acolhedores, também desempenha um papel crucial na formação de leitores na epistemologia “moderna”. Esses ambientes incentivam a exploração e a descoberta, proporcionando aos alunos acesso a uma variedade de textos e estimulando o desenvolvimento do hábito de ler por prazer. Felizmente, a Eteplap dispõe de um ambiente de leitura acolhedor, que é a Biblioteca Ariano Suassuna, com seu acervo diversificado, abrangendo desde clássicos até literatura contemporânea, pop e temas atuais como feminismo e questões LGBTQIAP+.

Relato de experiência: leitura guiada, autorregulação e escrita criativa

O primeiro encontro de regência foi um momento marcante para a turma, gerando uma mistura de curiosidade e surpresa. Após me apresentar e expor minha proposta, apresentei o primeiro slide, uma envolvente pintura (O beijo, de Gustav Klimt), e propus uma leitura coletiva. Dado que essa abordagem era nova para os estudantes, foi necessário intervir em alguns momentos para manter o foco e, aos poucos, ir direcionando-os. Em seguida, introduzi a primeira poesia (Todas as cartas de amor são ridículas, de Álvaro de Campos) para que fizessem uma leitura seguida de análise. Ambas as atividades levaram um tempo considerável da aula, visto que não era familiar para os estudantes o contato com o texto poético e muito menos com uma pintura.
Ainda nesse encontro, a segunda poesia (Bilhete, de Mário Quintana) provocou uma onda de comentários entusiásticos e olhares apaixonados para o texto. Analisá-lo trouxe a participação de alunos que gerou surpresa na turma: alunos que aparentemente nunca participavam da aula agora estavam se manifestando. Esse fenômeno evidenciou a importância de proporcionar oportunidades para que os estudantes assumam uma voz ativa em seu processo de aprendizagem, permitindo que expressem suas opiniões, seus sentimentos e suas interpretações de forma livre e autêntica.

[…] a epistemologia ‘moderna’, que valoriza a construção ativa do conhecimento
pelo aluno e a aprendizagem significativa, oferece um ambiente mais propício para a formação de leitores críticos e engajados.

Ao finalizar a aula, pedi que os alunos selecionassem fragmentos de poesias e/ou músicas para compor um painel, e foi notável a empolgação. Essa experiência me impactou positivamente, pois pude perceber o quanto aquilo era bem quisto pelos alunos, além de todo o poder transformador que essa abordagem teria dali para frente.

Uma outra atividade realizada, dessa vez utilizando a biblioteca, foi a oficina de poesia. Nessa atividade, os alunos receberam orientações para escolher um poema do acervo da biblioteca — que é riquíssimo — e fazer algumas modificações e recortes para, então, produzir seu próprio poema. Dessa atividade, saíram produções muito boas, mas o que realmente me deixou feliz foi o fato de alunos que nunca tiveram essa experiência, que diziam não ser bons escritores ou que nunca conseguiriam escrever um poema escreverem coisas belíssimas.

Esse episódio ressalta a importância de os professores criarem espaços e oportunidades para que os alunos manifestem seus desejos e suas habilidades, especialmente no contexto artístico e criativo. A escola não deve ser um ambiente de castração artística, onde os talentos individuais são ignorados ou reprimidos. Pelo contrário, é fundamental que os educadores incentivem a expressão criativa dos alunos, estimulando a confiança em suas próprias capacidades e proporcionando-lhes o suporte necessário para explorarem todo o seu potencial. Ao permitir que os alunos participem ativamente do processo de criação artística, os professores não apenas promovem o desenvolvimento de habilidades específicas, como a escrita poética, mas também cultivam a autoestima, a autoexpressão e a autoconfiança dos estudantes.

Para além das aulas com poemas, foi apresentado aos alunos o nanoconto com temática de horror. Igualmente à aula introdutória de poesia, a de nanoconto contou com análise de pintura (O grito, de Edvard Munch). A estrutura desse gênero surpreendeu os alunos, que nunca tinham sido provocados com textos tão curtos, com um final que não é explorado, mas que deixa para o leitor inferir significado. A análise da pintura em conjunto com os nanocontos proporcionou uma imersão completa no universo do horror, estimulando a imaginação e incitando discussões sobre o significado e as possíveis interpretações das obras. A ausência de um desfecho definitivo no nanoconto desafiou os alunos a exercitar sua capacidade de inferência e a explorar diferentes perspectivas, enriquecendo ainda mais a experiência de aprendizado a partir do diálogo entre os pares.

Como último momento e culminância desse projeto, os alunos foram desafiados a elaborar um reconto de algum conto de horror. Para isso, em uma aula, eu apresentei, de maneira prática, como fazer tal atividade a partir do reconto do texto Venha ver o pôr do sol, de Lygia Fagundes Telles. Durante a aula, eles receberam minha orientação de como produzir um roteiro de apresentação e, nas aulas seguintes, tiveram a oportunidade de ensaiar. No dia da culminância, foi possível perceber alunos que no primeiro dia estavam calados, até mesmo isolados da turma como um todo, apresentarem com grandeza seu texto escolhido. Os alunos fizeram uma ótima curadoria, então contos como O gato preto e O corvo, de Edgar Allan Poe, e O espelho, de Machado de Assis, foram escolhidos para serem recontados.

Por fim, parabenizei e agradeci a todos pela experiência enriquecedora, tendo certeza de que os objetivos estabelecidos no meu projeto foram alcançados e afirmando que, com convicção, esperava que eles saíssem dali transformados assim como eu saía. Esse momento de culminância não apenas evidenciou o progresso individual dos alunos ao longo do projeto, mas também ressaltou o poder transformador da abordagem da leitura guiada, autorregulação e escrita criativa. Ao fornecer aos alunos as ferramentas e o espaço necessários para explorar suas próprias capacidades e expressar suas vozes únicas, pude testemunhar o florescimento de sua confiança e autoestima. Ao encerrar o projeto, senti uma sensação de gratificação e realização ao ver o impacto positivo que essa experiência teve nos alunos. Mais do que simplesmente transmitir conhecimento, pude facilitar um processo de descoberta e crescimento pessoal que espero que continue a reverberar na vida dos alunos muito além da sala de aula.

Considerações finais

A partir da análise das práticas pedagógicas e da experiência vivenciada no estágio na Eteplap, conclui-se que a promoção de uma educação mais participativa e centrada no aluno é essencial para formar leitores críticos e reflexivos. Enquanto a epistemologia “tradicional” tende a restringir o papel do aluno a mero receptor de conhecimento, a abordagem “moderna” valoriza a construção ativa do saber e o desenvolvimento das habilidades cognitivas e criativas dos estudantes. Destaca-se, assim, a importância de proporcionar oportunidades para que os alunos assumam uma voz ativa em seu processo de aprendizagem, estimulando a expressão criativa e a autonomia intelectual. Ao encorajar os alunos a explorar e interpretar os textos literários de forma pessoal e significativa, os educadores podem contribuir para o desenvolvimento de uma geração de leitores críticos, sensíveis e engajados, capazes de enfrentar os desafios do mundo contemporâneo com confiança e criatividade.


Antônio Vítor Santos da Silva é professor de Língua Portuguesa do Colégio e Curso Nossa Senhora do Carmo, Recife/PE.
E-mail: profantoniosantos0@gmail.com

Referências

AUSUBEL, David. Aquisição e retenção de conhecimentos: uma perspectiva cognitiva. Lisboa: Plátano Edições Técnicas, 2003.
CANDIDO, Antonio. Vários escritos. 5. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Unesp, 2000.
ROBINSON, Ken. Ken Robinson diz que as escolas acabam com a criatividade – Legendado. YouTube: Canal TED Brasil, 2015. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=M2pRR_w-5Uk. Acesso em: 21 abr. 2024.

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