Edição 145
Matéria Âncora
Aula interessante O impacto da comunicação no processo de ensino-aprendizagem
Erik Penna

Foto: Ronaldo Rizzutt
O melhor professor não é aquele que mais sabe, é o que melhor ensina. E o êxito no processo de ensino-aprendizagem tem relação direta com uma comunicação bem-sucedida. Ou seja, não adianta o docente “apenas” falar, passar a matéria ou transmitir o conteúdo pragmático, a comunicação só será efetiva se o aluno aprender e interiorizar a informação, transformando-a em conhecimento adquirido.
Uma aula torna-se interessante quando o professor cria uma conexão entre o conteúdo e o mundo do estudante. Perceba: a comunicação precisa fazer sentido não só para quem fala, mas também para quem escuta.
Certa vez, eu estava participando de uma reunião de professores, e o diretor conduzia perfeitamente o bate-papo pedagógico. De repente, chegou um professor “atrasadinho”. O diretor, então, educadamente deu as boas-vindas e perguntou o motivo do atraso. O professor informou que estava corrigindo as provas da turma e, ao ser questionado sobre como os alunos tinham se saído na avaliação, ele respondeu: “Na minha prova, os alunos não têm moleza, a maior nota da sala foi quatro”. O diretor disse: “Se a maior nota da turma foi quatro, é bem provável que o professor é quem precise de aula de reforço”.
Meu pai uma vez me disse: “Meu filho, se você brigar com o vizinho, você pode estar certo, mas se você brigar com a rua inteira, provavelmente estará errado”.
De fato, se ninguém da turma acertar nem metade da avaliação escolar, algo pode estar errado. Há várias hipóteses para o ocorrido. Talvez a prova não tenha sido construída de acordo com o ensinado em sala ou então — e essa é a opção mais provável — os alunos não entenderam o que o professor quis ensinar. Isso me faz lembrar da frase do publicitário David Ogilvy: “Comunicação não é o que você diz. É o que os outros entendem”.
Eu me lembro, ainda, que o professor tentou se justificar dizendo que, como se tratava da primeira prova do ano, ele precisava dar logo uma “lição” na turma para os alunos ficarem amedrontados e, a partir daí, levarem os estudos a sério.
Sei que há alunos que não se interessam tanto quanto deveriam, mas penso que o medo e a intimidação não têm espaço na educação contemporânea. Em vez disso, precisam dar lugar ao respeito e à motivação.
Em vez de gritar, ameaçar e dar notas baixas, como se a avaliação fosse uma forma de castigo, eu prefiro acreditar em uma docência moderna, evoluída, e que, estando motivada, não precisa desse tipo de artifício para ganhar a atenção dos alunos.
Para finalizar, vale a pena refletir sobre os ensinamentos de dois mestres na arte de ensinar. Salman Khan, eleito o melhor professor do mundo, em entrevista à revista Veja destacou duas palavras-chave para o sucesso com seus alunos:
Comunicação de forma simples — eu falo, e o aluno entende. Não adianta passar o conteúdo, pois o que importa é se o aluno entendeu. Motivação — eu saio de casa não para dar mais uma aula, mas, sim, para fazer a diferença na vida de alguma pessoa.
Comunicação não é o que você diz. É o que os outros entendem.

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E Doug Lemov, em seu livro Aula nota 10, que apresenta 49 técnicas para ser um verdadeiro campeão de audiência em sala de aula. O autor dá ótimas dicas para os professores conquistarem a atenção dos alunos sem precisar gritar, ameaçar nem dar notas baixas. Destaco a seguir três delas:
> Não fique parado em um mesmo local o tempo todo:
movimente-se pela sala e aproxime-se dos alunos mais interessados para que se sintam enaltecidos e das pessoas desinteressadas ou sonolentas, pois, assim, elas ficarão atentas.
> Faça perguntas durante a exposição, mesmo que você mesmo as responda:
questionamentos geram maior atenção e interação dos participantes.
> Enumere o que vai dizer:
vivemos em uma época de pessoas ansiosas, então, quando o professor enumera o que vai ensinar, o aluno sabe o momento em que a aula começou e já imagina a hora que vai terminar. Avisar quantos assuntos, tópicos ou etapas a aula terá favorece um maior controle da ansiedade e maximiza a concentração até o final.
Novas funções do professor contemporâneo
O profissional de educação, como já vimos, precisa se adaptar aos novos tempos, acompanhar as mudanças tecnológicas e as transformações que isso acarreta às pessoas e, consequentemente, adaptar como absorvem informações dentro e fora da sala de aula. Diante dessa realidade, o professor contemporâneo precisa dominar novas funções, a fim de dar conta do recado. Vamos analisar as principais.

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Curadoria do conteúdo
É só abrir o livro ou a apostila e a informação está lá. A Internet permitiu acesso a inúmeros dados, estudos, estatísticas e qualquer tipo de conteúdo. Mas o bom professor é aquele que transforma toda essa gama de letras e números em conhecimento para cada aluno.
Minha esposa costuma fazer compras toda semana no supermercado. Quando não estou viajando, apresentando palestras pelo Brasil afora, ela me pede que vá em seu lugar. Assim, ela me entrega uma lista com a relação de itens que preciso levar para casa.
Repare que, quando chego ao supermercado, não preciso necessariamente saber todos os produtos, marcas, pesos de cada item que há dentro da loja. Eu me atenho apenas ao mais importante, ou seja, à lista preparada pela minha esposa. E ai de mim se trouxer alguma coisa errada!
Podemos, então, fazer uma analogia entre a lista do supermercado e os tópicos de ensino.
Sabe as informações que estão em uma apostila? Então, a mesma coisa acontece com esse conteúdo a ser ensinado. Nenhum aluno aprenderá 100% do material que o professor vai ensinar ao longo do ano. Então, não seria melhor se concentrar na lista, ou seja, na parte mais importante ou na que mais interessa?
O professor contemporâneo deve atuar como um curador de conteúdo, ou seja, apresentar, selecionar e, sobretudo, enfatizar aos alunos o que é mais essencial de ser ensinado.
O professor contemporâneo deve atuar como um curador de conteúdo, ou seja, apresentar, selecionar e, sobretudo, enfatizar aos alunos o que é mais essencial de ser ensinado
Ênfase pedagógica
Ao empregar ênfase pedagógica, os professores utilizam estratégias como repetição, destaque visual, mudança de tom de voz, enfatizando certas palavras ou conceitos-chave e sinalizando para o aluno o tópico mais importante do conteúdo ensinado. O objetivo é direcionar a atenção dos alunos para aquilo que é considerado essencial para o entendimento do assunto, facilitando a assimilação e a retenção do conhecimento.
Essa prática os ajuda a identificar e focar os elementos mais relevantes, proporcionando uma compreensão mais clara e aprofundada do todo. A ênfase pedagógica contribui para a eficácia do ensino, tornando o processo de aprendizagem mais direcionado e impactante.
Certo dia, cheguei em casa bem tarde da noite, vindo de uma cidade distante, após uma palestra. Minha filha Mariana me esperava na mesa da sala com livros e cadernos abertos. Chorando, disse-me que a prova era na manhã seguinte e que a matéria para a verificação escolar estava em 85 páginas da apostila que o professor selecionou para o estudo.
Pedi a Mariana que me mostrasse essas páginas. Depois de dar uma rápida olhada, perguntei a ela: “Filha, são diversos temas, mas, de tudo isso que o professor ensinou, o que ele destacou como assuntos mais relevantes?”.
“Ele não destacou os pontos mais importantes”, ela respondeu, respirando fundo.
Se for tudo prioridade, na verdade, nada será priorizado.
Bom, o professor não está aqui para se defender, então não devemos culpá-lo. Mas uma coisa é certa: se não sinalizou, deveria ter sinalizado.
Repare que as crianças e grande parte dos jovens não têm discernimento para guardar todas as informações que foram apresentadas em sala de aula, sejam mais ou menos relevantes. O professor pode e deve ajudar com esse apontamento prioritário e didático.
Vamos supor que, na aula de Geografia, um professor esteja ensinando o clima na África, o relevo da Ásia e a vegetação do leste europeu, e, então, chega o Enem, e cai a pergunta: “Quantos estados tem o Brasil?”, e muitos não sabem esse dado básico do próprio país onde vivem. Por vezes, gastamos muito tempo com um assunto não tão primordial e não investimos mais atenção num outro mais relevante para o cotidiano dos alunos.
Há quem defenda que todos esses assuntos são importantes. Sim, eu concordo, mas é preciso definir uma prioridade. Se tudo for prioridade, na verdade, nada será priorizado.
Uma aula interessante, normalmente, termina com o mestre enfatizando a parte fundamental, enaltecendo o mais relevante, circulando ou sublinhando o que de mais essencial foi apresentado. Repare que estamos fazendo exatamente isso neste livro. Percebeu as frases em destaque? É porque são as que julgamos mais valiosas.

PENNA, Erik. Alegria para ensinar e transformar vidas: como criar aulas interessantes, interativas e inesquecíveis para engajar seus alunos e potencializar o processo ensino-aprendizagem. São Paulo: Gente, 2024. Capítulo 4.
Na trajetória educacional, um aspecto crucial é a abordagem flexível no ensino dos conteúdos, evitando uma estrutura linear engessada. Ao contrário da abordagem-padrão que sugere a distribuição igualitária do tempo para cada tópico, reconhece-se que nem todos os assuntos têm a mesma complexidade ou impacto. Imagine um cenário em que um professor precisa abordar dez assuntos durante um período de dez semanas de aulas. A metodologia tradicional sugeriria dedicar uma semana para cada tema, mas isso pode ser inadequado.
Na prática, alguns assuntos podem demandar mais tempo e atenção, enquanto outros podem ser compreendidos em menos dias. A chave reside na capacidade do educador de avaliar a necessidade de cada tema, adaptando o tempo conforme a complexidade e a receptividade dos alunos. Por exemplo, ao explorar um conceito matemático desafiador, um professor pode optar por estender o tempo dedicado a ele para garantir a compreensão, enquanto tópicos mais simples podem ser abordados de maneira mais concisa.
Outro exemplo, voltando à disciplina de Geografia: o educador pode reconhecer que saber os estados brasileiros e suas capitais é fundamental, proporcionando uma base sólida para os alunos entenderem a organização do próprio país.
Nesse caso, o professor pode decidir dedicar mais tempo a esse tópico, incentivando discussões, atividades práticas e aprofundando o entendimento da diversidade regional no Brasil.
Por outro lado, ao abordar a vegetação em uma região menos crucial, como algumas ilhas da Oceania, o professor pode optar por uma abordagem mais concisa. Essa decisão baseia-se na compreensão de que, embora a diversidade de vegetação seja um tópico interessante, seu impacto no contexto global é menos significativo para os alunos em comparação com o conhecimento detalhado sobre o país em que vivem.
Dessa forma, a abordagem flexível permite a personificação do ensino, priorizando tópicos mais relevantes e fundamentais para uma compreensão sólida da matéria.
Nunca termine uma aula sem destacar o conteúdo mais relevante. O educador moderno não age como uma “metralhadora” de assuntos, não confunde qualidade com quantidade. Ele foca a questão do conhecimento e humaniza a prática pedagógica.
O AUTOR
Erik Penna é escritor; palestrante; empreendedor; autor de sete livros, sendo Alegria para ensinar e transformar vidas um best-seller; Especialista em Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica (no Brasil) e Qualificação Internacional em Gestão de Excelência (pelo Instituto Disney de Orlando, nos Estados Unidos); já apresentou mais de mil palestras em todos os estados do Brasil e no exterior. No Google, figura em 1º lugar no Brasil na busca por “Palestrante para Professores”. Na TV, atuou como especialista em Empreendedorismo nos programas É de Casa e Empreender.
Saiba mais em:
www.professorerikpenna.com.br
