Edição 141
Em discussão
Crianças e jovens mais ansiosos que adultos
Paty Fonte
Por trás dos aparelhos, existem os adultos; nós, que permitimos ao ‘vilão’ ocupar tamanho espaço na mecânica do cotidiano infantil.
Um fato inédito na História preocupa e entristece: pela primeira vez, os registros de ansiedade entre crianças e jovens aumentam assustadoramente. Cresce, a cada dia, o número de jovens que se mutilam. A automutilação atinge adolescentes no Brasil e no mundo. Pesquisas indicam que 20% dos jovens sofrem desse mal. Além disso, em nosso país, as taxas de suicídio cresceram na população em geral. O suicídio é, hoje, a quarta causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no Brasil.
Neste cenário, o celular é apontado como o grande vilão; entretanto, cabe uma pausa para refletirmos a respeito, tendo em vista que a evolução tecnológica avança avassaladoramente, mas os aparelhos eletrônicos sozinhos não conduzem ou direcionam a educação de uma criança.
Por trás dos aparelhos, existem os adultos; nós, que permitimos ao “vilão” ocupar tamanho espaço na mecânica do cotidiano infantil.
Especialistas de diversas áreas orientam quando oferecer o celular a uma criança, o tempo de tela adequado a cada idade, entre inúmeros outros pontos importantes, mas, cá para nós, na prática, é quase impossível proibir o bebê curioso de pegar aquele “brinquedo” luminoso e sonoro da mão da mamãe ou deixar a criança maior desvinculada da rede digital de amigos, de jogos, conversas e produções de vídeos rápidos.
O maior desafio é conseguir atrelar as tecnologias a uma rotina saudável. Somente proibir o celular, sem oferecer outras possibilidades, sem dar a chance de a criança explorar e conhecer o mundo por diferentes nuances e perspectivas, não vai amenizar o problema.
Somente proibir o celular, sem oferecer outras possibilidades, sem dar a chance de a criança explorar
e conhecer o mundo por diferentes nuances e perspectivas, não vai amenizar o problema.
Há uma carência do brincar, da brincadeira, do jogo, da ludicidade. Cedo demais as crianças são exigidas, cobradas, pressionadas para que demonstrem um comportamento que a maioria dos adultos não consegue ter.
Há uma carência de relações afetuosas, de tempo junto às famílias, ouvindo histórias, desenhando em conjunto, cantando, dançando, cozinhando…
Há uma enorme lacuna entre o que vemos nas telas e o que vivemos em nossos lares. Entre o sonho e a realidade. Entre o eu e o mundo. Há uma carência em sentir alegria na simplicidade da vida.
O que todos buscamos viver é o equilíbrio. Independentemente do celular, há uma dificuldade em educar sem “transbordar” a permissividade exagerada ou a repressão excessiva. Qual é o caminho do meio?
Como não existem receitas em educação, cabe-nos encarar os fatos, refletir sobre eles e compreender a importância da educação socioemocional.
Queremos crianças concentradas, mas poucos adultos vão ler este artigo até o final. A falta de concentração, de paciência, de tempo para reflexão é apenas um eixo neste complexo universo humano vivente no século XXI.
Identificar e gerenciar as próprias emoções e sentimentos é uma capacidade, uma competência que engloba várias habilidades a serem desenvolvidas e potencializadas. Logo, está dentro de nós a possibilidade de manter um equilíbrio emocional e, assim, olhar a vida de maneira diferente, com olhos mais amorosos e menos ansiosos, mais curiosos e menos egoístas, mais criativos e menos reprodutores, mais reflexivos e menos influenciáveis.
Começar este processo de autoconhecimento e alfabetização emocional na primeira infância é o maior e melhor presente que um adulto pode oferecer a uma criança. É presente raro, mais caro que celular de última geração.
É urgente refletirmos sobre as emoções e como elas influenciam o nosso cotidiano.
Perseverança, resiliência, determinação, colaboração, autocontrole, empatia, curiosidade, otimismo e confiança são algumas das habilidades socioemocionais possíveis de serem desenvolvidas.
As habilidades socioemocionais levam em consideração como o indivíduo consegue identificar e gerenciar suas emoções quando precisa tomar decisões intrapessoais e interpessoais. É, portanto, uma capacidade reflexiva de lidar com as emoções e os sentimentos que potencializa características ímpares do seu eu nas relações com o outro.
Educar emocionalmente implica fortalecer o indivíduo, resgatar valores, o senso de respeito, de solidariedade e responsabilidade. Assim sendo, o simples fato de proibir o celular não educa, não ensina, ao contrário, pode até produzir o efeito reverso. A grande preocupação deveria ser ensinar a usar o aparelho, mas como fazer isso se nem os adultos sabem?
Em “tempo líquido”, metáfora de Bauman, que peço licença para utilizar, só provoca a mudança aqueles que têm coragem e “mergulham” fundo.
Paty Fonte é filósofa, especialista em Pedagogia de Projetos e Educação Infantil e autora dos livros Competências Socioemocionais na Escola e Práticas Socioemocionais para dinamizar o ambiente escolar, publicados pela Wak Editora, entre outros.
@professorapatyfonte/youtube.com/@professorapatyfonte
