Edição 138

Sob um novo olhar

Dez tipos de professor

Içami Tiba

Mais do que fazer caricaturas, meu objetivo é apresentar algumas informações que estimulem o professor a refletir sobre sua atuação em classe para que melhore seu desempenho.

Se um professor está disposto a tornar suas aulas mais interessantes, mas nem sabe por onde começar, o que será que está faltando? É bom ter consciência do funcionamento da aula. Sabendo de onde ela parte e como está funcionando agora e adquirindo mais informações sobre os tipos de aula, o professor pode chegar a um autoconhecimento mais eficaz e realizar a grande mudança para o estilo que gostaria de adotar.

De acordo com a Teoria da Integração Relacional, o primeiro requisito para que um professor consiga bons resultados para a mudança pretendida é conhecer bem a si. Teria o professor tentado se avaliar segundo o olhar de seus alunos?

1. Um aluno faz a média

Trinta e nove alunos tiraram nota baixa na sua prova, mas o professor não se abala porque teve um que tirou nota 8. Isso significa que, se um aluno teve nota boa, o problema é dos demais, pois todos tiveram a mesma chance. Se sua aula fosse ruim, ninguém tiraria 8. Os trinta e nove foram mal porque não prestaram atenção. “Eu estou cumprindo minha função de ensinar, tanto que um aluno prestou atenção e se saiu bem.”
Esse tipo de professor tem uma grande vaidade pessoal: avalia seu desempenho em classe em função do melhor aluno, e não da média dos estudantes. Se um dos presentes está interessado, valeu! A aula é interessante.

Pretensões do professor: Que todos se guiem pelo aluno que tirou a nota mais alta, pretendendo nivelar todos pelo maior rendimento.
Resultados: Desestimula os alunos médios; aniquila os fracos; e a maioria desiste de estudar, a não ser para as provas, porque não se sente reconhecida nos seus esforços pessoais.
Qualidades: Poucas. Falta o olhar para o próprio desempenho como professor. Quem tirou nota 8 pode ter estudado em outras fontes, e não na sua aula.
Defeitos: Não leva em consideração as múltiplas inteligências de Gardner, provoca repetência desnecessária e migração escolar.
Estratégia dos alunos: É difícil enganar esse tipo de professor, mas os estudantes podem se desinteressar cada vez mais da matéria e dispor de uma justificativa comovente: a classe toda foi mal. Os pais se tornam mais tolerantes. Afinal, seu filho está na média. Nas provas, muitos alunos vão querer sentar perto daquele que tirou a nota mais alta da classe.

2. Superexigente

Até que haja silêncio absoluto, ele não inicia a aula. E, enquanto passa a matéria, o silêncio é tanto que dá para ouvir uma mosca voando. Ameaçador, ele apavora seus alunos. Amarra o corpo na carteira enquanto amordaça o cérebro. Transforma adolescentes em seres inanimados perante a autoridade em classe. E, desse modo, nega a condição máxima da interação. Todo relacionamento humano é interativo, inclusive o de professor e aluno. É natural que os estudantes se manifestem ocasionalmente, ainda mais se forem adolescentes.

Pretensões do professor: Exigir o máximo dos alunos, também quanto ao comportamento, para que assim rendam mais.
Resultados: Se a qualidade da aula for boa, alguns alunos procuram corresponder positivamente. Essa concentração obriga o aluno a ficar quieto, e a primeira conversinha é logo descartada. Outros acabam desenvolvendo um medo do professor — que procura resolver tudo nas provas escritas para não precisar de uma avaliação individual ou oral.
Qualidades: O silêncio é ótimo quando resulta do interesse espontâneo do aluno em ouvir o professor. Facilita para quem quer prestar atenção.
Defeitos: Como a aula não tem vida, a aprendizagem é tremendamente prejudicada.
Estratégia dos alunos: Embora seus olhos estejam fixos no professor, o pensamento está muito longe dali. O professor pode prender o corpo do aluno, jamais seus pensamentos.

3. Tanto faz

Nada o atinge: se o aluno aprendeu, ótimo! Se não aprendeu, pouco importa. Independentemente do que fizer, seu salário será pago de qualquer jeito. O estudante entregou o trabalho? Bom! Se não entregou, é problema do aluno. Dá nota baixa e pronto. Meio anárquico e desorganizado, esse professor está ali, na frente da classe, quase como uma formalidade. Não é de exigir muito em prova. Se o aluno se queixa, ele vê se dá para mexer em alguma coisa. Se não reclama, continua tudo como está. Esse tipo apresenta uma espécie de indiferença, uma das piores posturas para qualquer emprego, principalmente para o educador. O pior de tudo é que os alunos não se sentem importantes para o professor, e o estudante precisa sentir que é valorizado para se envolver no processo de aprendizado.

Pretensões do professor: Não ser incomodado por ninguém, a não ser que possa ser prejudicado.
Resultados: Não consegue o entusiasmo dos alunos, pois ele lida da mesma maneira com notas baixas e altas.
Qualidades: Caso tenha alguma, com certeza é muito menor que os defeitos.
Defeitos: Raramente o aluno consegue aprender alguma coisa com um professor assim. A tendência é que passe a se acomodar com o mínimo. Para ele, essa aula “tanto faz”.
Estratégia dos alunos: O professor entra na classe, e os estudantes nem percebem a presença dele. Continuam o que estavam fazendo.

4. Vítima

Sofre com a classe, que descobre um prazer sádico em “torturá-lo”. Vale tudo para tumultuar a aula. Enquanto implora silêncio, “Pelo amor de Deus!”, um aluno está atrás dele, imitando seus gestos, dando-lhe uns cascudos, fazendo gozações com a sua pessoa. Será lembrado pelo resto da vida como um professor “zoado pela classe”. Dificilmente alguém se esquece de um professor-vítima. Como ele não consegue se impor, muito menos assumir a posição de coordenador da classe, os alunos fazem o que querem mesmo! Tudo funciona na base da vontade dos estudantes de cooperar ou não. Ele vive pedindo clemência aos alunos — “Não façam isso comigo” — e, às vezes, chega até a chorar.

Pretensões do professor: Um dia dominar os alunos e dar aquela aula inesquecível para todos eles.
Resultados: Consegue mobilizar alguns alunos em sua defesa. Sua competência profissional quase nem aparece, tamanha é a dificuldade de se relacionar com os alunos mais querelantes.
Qualidades: Poucas. Os alunos escolhem sua aula para bagunçar e, no final, aprendem muito pouco. Os alunos não respeitam quem não sabe se defender.
Defeitos: Ele não consegue dar a matéria. Quando chega ao fim da aula, desgastado de tanto sofrer com a classe, diz a célebre frase: “Vou considerar essa matéria dada”. Nem assim os alunos se preocupam.
Estratégia dos alunos: Descobrem as maneiras mais variadas de tumultuar a aula, dando preferência a brincadeiras focalizadas na figura do professor. Na hora da prova, recorrem à cola ostensiva do livro ou à troca de provas com os colegas. Esse tipo de professor estimula classes sádicas ou anarquistas. Precisa vestir urgentemente o avental comportamental para proteger sua pessoa, tão vulnerável que é atingida na pele por qualquer ação de seus alunos.

5. Superatual

Usa e abusa de novidades, como recursos da informática, Internet, informações de jornais e revistas, temas abordados em novelas, seriados de sucesso, tudo. Desperta o maior interesse na classe porque incorpora às aulas as últimas notícias, as invenções e os avanços.

Pretensões do professor: Conservar a mesma linguagem dos alunos, principalmente a dos adolescentes, trazendo a vida deles para dentro da sala de aula.
Resultados: Geralmente, são muito bons. Os alunos participam ativamente e aprendem a comunicar o que pensam. Um bom exercício para a vida.
Qualidades: A maior é solicitar a participação dos alunos, que devem levar novidades também. Afinal, ele está sempre pronto a aprender. É capaz de dar uma aula dinâmica e interessante. Esse tipo de professor costuma fazer sucesso entre os alunos.
Defeitos: Às vezes, exagera na novidade, tirando o foco da aula, sem relacionar o assunto à sua matéria. É preciso critério para selecionar novidades.
Estratégia dos alunos: Levar cada vez mais novidades para desfocar a aula, porque, para os alunos, a escola é boa, o que atrapalha são as aulas.

6. Rolo compressor

Sua fala é como um rolo compressor que vai passando por cima de todos os alunos, independentemente de como se encontram naquele momento. Ele entra e sai da classe falando ou escrevendo freneticamente o tema da matéria. Não dá espaço sequer para o aluno reagir. Os estudantes podem até conversar, mas ele continua falando. Não faz questão de silêncio absoluto. Na verdade, esse tipo não liga para a classe. Egoísta, dá aula para si mesmo, para demonstrar os seus conhecimentos. E sai satisfeito, com a sensação de que a aula foi muito boa. Cumpriu seu dever. Pouco se importa com o outro.

Pretensões do professor: “Alunos atrapalham as aulas. Se eles ficassem todos quietos a me ouvir, eu seria diferente, mas, como não ficam, um dos jeitos é ir falando para que eles parem de falar. Vou fazendo a minha parte, eles que se virem.”
Resultados: Mal preparados, os alunos geralmente não acompanham a matéria, apenas copiam mecanicamente o que o professor escreveu na lousa. Tal professor não tem boa aceitação dos alunos.
Qualidades: Esse professor expõe sua matéria conforme a preparou e não se deixa influenciar por atrasos, incidentes ou outros movimentos.
Defeitos: O rendimento é prejudicado.
Estratégia dos alunos: Podem aproveitar a aula para estudar outras matérias, fazer trabalhos, etc. Às vezes, nem olham o professor. E, quando chega a prova, recorrem à decoreba, às colas, aos estudos de última hora ou aos professores particulares.

7. Crédulo

Excessivamente compreensivo e democrático, ele debate qualquer assunto e acredita em tudo o que o aluno diz, independentemente de ser verdade ou mentira. Se o estudante alega que não entregou o trabalho porque o pai ficou doente, tudo bem, ele lhe dá outra oportunidade. Não importa que a doença do pai tenha ocorrido “cinco anos atrás” e hoje ele esteja muito bem. Se os alunos alegam e argumentam que tal professor já permitiu à classe fazer o que estão pedindo agora, então ele deixará mais uma vez.

Pretensões do professor: Acreditar em quem quer que seja, porque ninguém iria mentir para ele. Ainda questiona quem o adverte: “Para que o aluno iria mentir para mim?”.
Resultados: De bonzinho, esse professor passa a ser “bobozinho”. Professores assim não conseguem o respeito necessário para dar aulas, mas são queridos pelos alunos.
Qualidades: O aluno se faz ouvir. Como esse tipo de professor costuma ser muito querido pelos alunos, pode mobilizar a cooperação da classe e produzir bons resultados.
Defeitos: É fácil ser enganado e manipulado. Se alguns respeitam essa posição, a maioria abusa dela.
Estratégia dos alunos: Os mais espertos podem abusar da boa vontade desse professor e mentem descaradamente para obter vantagens, principalmente em notas, em prorrogação do prazo de entrega dos trabalhos, etc.

8. Crânio

É um profundo conhecedor de sua disciplina, mas um péssimo comunicador. Sabe tudo sobre a matéria, mas não consegue explicar nada. Por timidez, desorganização na forma de se expressar ou falta de capacitação para o papel de professor, ele não consegue transmitir seus conhecimentos. Algo dificulta, paralisa ou tumultua a comunicação de seu saber. A grande maioria não aprendeu a representação cênica do papel de professor nem a se apresentar diante de uma “plateia” de estudantes. Precisa muito do avental do professor.

Pretensões do professor: Conseguir passar o que sabe aos alunos.
Resultados: Os alunos sentem que o professor não tem autoridade educativa; portanto, tumultuam a aula.
Qualidades: São poucas, uma vez que ocorre desperdício de talento. As vantagens podem aparecer em tempos de vestibular: quando os alunos se põem a resolver exercícios que caíram em várias provas e encontram dificuldades nas questões, em geral procuram esse tipo de professor, e o resultado costuma ser produtivo. É que, nessa ocasião, o aluno está pronto para ouvir.
Defeitos: Rigoroso na avaliação, esse professor exige muito além do que conseguiu ensinar, não por espírito de vingança ou sadismo, mas por achar que o aluno deve saber. O grande perigo é desmotivar o estudante para o aprendizado. “Saber tanto, para quê?”
Estratégia dos alunos: Como aprendem pouco, tendem a tumultuar a aula e a utilizar recursos variados (inclusive a cola) para passar de ano.

9. Carrasco

Sempre exige mais do que ensinou. Nas mãos dele, a avaliação vira um chicote. Pergunta o rodapé das enciclopédias, a errata dos jornais. Se, durante o bimestre, deu exercícios de dificuldade progressiva de 1 a 10, na prova ele pede 15. Elabora questões de Física com tamanha dificuldade que é impossível resolvê-las.

Pretensões do professor: Bastante parecidas com as do tipo superexigente, mas com a diferença de que este tem vontade de “explorar” o aluno. Muito próximo ao sadismo, parece até que se satisfaz um pouco com os sofrimentos dos alunos, com a sensação de vingança cumprida. Onipotente.
Resultados: Apesar de, aparentemente, estar dentro da lei, nenhum aluno vai chegar a ter o conhecimento que ele exige da sua matéria.
Qualidades: O professor-carrasco exige o máximo do aluno, que, se tentar corresponder, poderá progredir muito, estimulado pelo desafio da superação.
Defeitos: Corre o risco de criar, nos estudantes, um horror pela matéria.
Estratégia dos alunos: Como a maioria não tem meios de aceitar o desafio, dá um jeito de burlar as normas. Xeroca o caderno do melhor aluno na véspera da prova ou, simplesmente, cola.

10. Sedutor/seduzido

Atraído por conversa, beleza, status, poder ou outra característica de um aluno, torna-se extremamente parcial em seu comportamento: tende a facilitar, favorecer ou privilegiar esse aluno, fazendo uma distinção nítida entre ele e os demais. A aula passa a ser dada para ele. A classe, que logo percebe o jogo, pode se sentir injustiçada e rejeitada. O “preferido”, por sua vez, nem sempre se acha confortável nessa posição. Ao contrário, pode se sentir prejudicado, mal interpretado e explorado numa vantagem que não tem nada a ver com os critérios da aula. Sendo rico, por exemplo, e bajulado por todos, até mesmo pelo professor, não ganha uma identidade pessoal, mas sobressai devido ao poder da família. Se a origem da admiração for beleza, força física ou qualquer outro atributo pessoal, sua identidade é reconhecida, mas há risco de muitas complicações. Não é incomum professores se casarem com alunos, mas pode dar uma tremenda confusão uma professora de 30 anos se envolver com um rapaz de 16. Numa classe, todos devem ter direitos iguais, inclusive para aprender a ser cidadãos. Quando demonstra nitidamente a preferência por um aluno em detrimento dos outros, em geral o professor é ridicularizado. Nunca vi algum ser bem considerado por cair na sedução. Geralmente, é tachado de bobo, dominado, possuído. Perde a autoridade perante a classe e tem de apelar para o autoritarismo para conseguir dominar a turma. Há casos, em certas escolas, em que, em dias de prova com um professor sedutor/seduzido, as moças usam decotes bastante ousados e fazem poses provocantes somente para distraí-lo.

Pretensões do professor: Pode ser desde querer alimentar o próprio ego, geralmente frágil, até estar, de fato, apaixonado pelo aluno.
Resultados: Prejudica os estudos do aluno e, frequentemente, a profissão de professor. Este pode ser processado pelos pais do menor por abuso. Um professor que perde o respeito dos alunos não consegue ter autoridade educativa para dar aulas.
Qualidades: Pode usar a sedução pelo lado bom, caprichando mais para dar a aula, fazendo com que a classe se sinta beneficiada, já que ele demonstra ser mais tolerante com ela.
Defeitos: Quase sempre, esse comportamento é antipedagógico. O aluno pode extrair vantagens dessa relação e vir a manipular o professor.
Estratégia dos alunos: Quando querem obter algum benefício, apelam para o “preferido”, que vira porta-voz da classe e, em geral, tem seu pedido atendido. Assim, a classe aprende a manipular o professor. Investe no que o atrai em proveito próprio.

Professor nota 10

É o atualizado, competente, ético e integrado relacionalmente. É aquele que, a partir de episódios práticos e cotidianos dos alunos, consegue introduzir os conhecimentos teóricos para que os estudantes passem a dominar o fenômeno. Ele consegue despertar no aluno o desejo de aprender pelo prazer de saber. É o construtor do futuro do Brasil, porque é mestre na formação dos cidadãos felizes, competentes, educados, éticos e progressivos.

Cada cidadão ético, competente, feliz e progressivo traz dentro de si a imagem viva desse educador e sempre demonstra gratidão e reconhecimento pela sua ajuda, homenageando-o sempre por tê-lo acompanhado desde os tempos de estudante.

O tipo perfeito de professor é o que tem a capacidade de se adaptar às características do aluno com a finalidade de estabelecer um bom relacionamento para o aprendizado. Os bebês e as crianças foram os grandes mestres de Piaget, o pai do construtivismo.

Os adolescentes foram os meus mestres, porque eles me ensinaram como funcionam! Eu simplesmente teorizei seus funcionamentos quando criei a Teoria do Desenvolvimento Biopsicossocial da Puberdade e da Adolescência, que está em Puberdade e adolescência: desenvolvimento biopsicossocial.

O educador aprende com o seu estudante; o mestre aprende com o seu discípulo; os grandes mestres do mestre são seus próprios alunos.


Extraído de: TIBA, Içami. Ensinar aprendendo: novos paradigmas na educação. São Paulo: Integrare, 2006.
Revista Construir Notícias, nº 96.
Setembro/outubro 2017.

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