Edição 144
Construindo mais conhecimento
Dinâmicas de grupo
Albigenor Militão
O buraco, o sapo e o sapinho sapeca

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Um dia, nasceu um sapinho e, quase que no momento do seu nascimento, ingênua e inadvertidamente, caiu num buraco: “Ploft!”. Ali ficou. Era razoavelmente amplo, tinha água, era escurinho, aquecido, livre dos perigos, havia o necessário para a sua sobrevivência, enfim, era um mundo maravilhoso aquele seu buraco.
O tempo foi passando, o sapinho transformou-se em sapo, em sapão… e um sapão gordo, inchado e numa zona de conforto, aquela que ele pediu a Deus.
Num certo dia, ele acorda em meio a um barulho estranho e novo para o mundo em que vivia: caiu, bem perto dele, um bicho estranho e meio peçonhento.
— Ué! Quem é você?! — pergunta ele, assustado.
— Sou um sapo, ora! — respondeu o estranho visitante.
— Mas sapo sou eu! — questionou o habitante do buraco.
— Meu amigo, existem milhares de sapos no mundo lá fora — retrucou o outro.
— Mundo lá fora?! Como assim? — indagou o dono do buraco.
— É, meu amigo… o mundo lá fora é maravilhoso. E uma das coisas que faz com que ele seja mais maravilhoso ainda são umas criaturinhas especiais, razão maior da nossa vida de sapo: as sapinhas. Além disso — continuou ele —, é magnífico o entardecer, quando ficamos todos juntos, cantando nas lagoas e nos alimentando dos mosquitos que voam desgovernados.
— Lagoas?! Mosquitos?! — mais surpresas para o velho e acomodado sapo.
— E tem mais: quando anoitece, é lindo o céu, cheio de estrelas! — ressaltou, romanticamente, o sapinho sapeca.
— Epa! Aí você não me pega. Eu, também, todas as noites, consigo contar quatro a cinco estrelas, vistas daqui de casa — gabou-se o acomodado.
— Pois é, meu amigo. Aí é que está a nossa diferença: eu posso contar, aliás, nem posso, pois são milhões e milhões de estrelas…
E, assim, o sapinho sapeca foi dissertando sobre as belezas e vantagens do mundo lá fora. Mas parou um pouco e, reflexivamente, prosseguiu:
— Por outro lado, tem um bicho terrível, com o qual precisamos ter muito cuidado, e que não tem reconhecido o quanto somos úteis no processo de equilíbrio do meio ambiente… Quando a gente menos espera, ele chega e chuta a gente, e a gente rola, rola, que parece uma bola murcha… Joga sal no nosso dorso… Coloca álcool em nossas costas e depois (ai!) ateia fogo, e a gente sai pulando, pulando, no desespero das labaredas queimando o nosso corpo: é o bicho-homem. Além do homem, tem outro bicho traiçoeiro, peçonhento e para o qual precisamos estar sempre em alerta: as cobras. Mas é bom. Bom não… é maravilhoso viver e amar neste mundão todo lá fora!… Bem, tá ficando tarde; eu vou dar um pulinho e continuar meu passeio.
— Pulinho?! — surpreendeu-se, mais uma vez, o sapo do buraco.
— Sim, meu amigo. Sapo pula. E, a propósito, você não gostaria de ir comigo?
— Pensando bem, com esse negócio de “homem”… de “cobra”… desses perigos todos que você falou, acho melhor não. Prefiro ficar por aqui. Pelo menos, aqui eu já sei que tá bom. Pode ir… Eu tô muito bem aqui.
E assim termina o encontro do sapo do buraco com o sapinho sapeca: um, acomodado, preguiçoso, enfurnado no seu mundinho limitado, curtindo a felicidade ao seu modo; o outro, entusiasmado, ágil, criativo, buscando sempre coisas novas, ambientes novos, novos amigos, novas realizações.
Para você refletir: Que tipo de sapo você está sendo?
O feixe de lenha
Conta-se que um próspero fazendeiro, dono de muitas propriedades e gravemente enfermo, preocupava-se muito com o clima de desarmonia que reinava entre seus quatro filhos. Pensando em dar-lhes uma lição, chamou os quatro para fazer-lhes uma revelação importante.
Ao chegarem à casa do pai, viram-lhe assentado numa cadeira de balanço. O pai chamou-os para mais perto e comunicou-lhes a seguinte decisão:
— Como vocês sabem, eu estou velho, cansado, e creio que não me resta muito tempo de vida. Por isso, chamei-os aqui para avisá-los que vou deixar todos os meus bens para apenas um de vocês.
Os filhos, surpresos, entreolharam-se e ouviram o restante que o pai tinha, ainda, para lhes dizer:
— Vocês estão vendo aquele feixe de gravetos ali, encostado naquela porta? Aquele que conseguir partir o feixe ao meio apenas com as mãos será o meu herdeiro.
Cada um deles teve a sua chance de tentar quebrar o feixe, mas nenhum, por mais esforço que fizesse, foi bem-sucedido na sua tentativa. Indignados com o pai, que lhes propusera uma tarefa impossível, começaram a reclamar. Foi quando o fazendeiro pediu o feixe e disse que ele mesmo iria quebrá-lo. Incrédulos, os filhos deram o feixe de gravetos para o pai, que foi retirando, um a um, os gravetos, quebrando-os, separadamente, até não mais restar um único graveto inteiro. E depois concluiu:
— Eu não tenho o menor interesse em deixar os meus bens para só um de vocês. Eu quero, na verdade, que vocês, juntos, sejam os sucessores do meu trabalho, com garra, dedicação e, acima de tudo, repletos de amor, uns pelos outros.
Disse, ainda:
— Enquanto vocês estiverem unidos, nada poderá pôr em risco tudo o que construí para vocês. Nada nem ninguém os quebrará. Mas, separadamente, vocês serão tão frágeis quanto cada um desses gravetos.
Assim como dois pedaços de madeira podem sustentar mais peso do que a soma que cada um pode sustentar separadamente, da mesma forma o ser humano chegará à conclusão de que, um ajudando o outro, todos irão muito mais longe do que o famoso “Cada um por si, e Deus por todos…”.
Afinal, é trabalhando em equipe que todos chegarão melhor e mais rapidamente ao objetivo delineado.
Os três filhos
Pai e filho, na tentativa de purificar a água que utilizavam em casa, resolveram construir três filtros com carvão. Depois de prontos, fizeram o teste, e o pai comentou:
— Veja como a água está limpa! Todas as impurezas ficam nos filtros. A sujeira que consegue passar por um fica no outro ou no outro, e o resultado final é maravilhoso!
A mãe, ouvindo o comentário do esposo, aproveitou a oportunidade e disse:
— Há, também, três filtros que podemos construir dentro de nós, que são aquilo que de mais precioso alguém pode ter ao pensar que está ajudando ou prejudicando alguém. E não precisa ser de carvão. São os filtros da verdade, da bondade (ou amor) e da utilidade. Assim como você, meu filho, viu o resultado do uso do filtro de carvão, um dia vou lhe mostrar o que acontece quando utilizamos esses outros filtros que carregamos dentro de nós.
Passado algum tempo, um dia, o menino, voltando da escola, veio comentar com a mãe um fato, num tom sensacionalista:
— Mãe, sabe o que disseram da família do Nelsinho?!
— Bem, meu filho, chegou a hora de usar os três filtros internos de que lhe falei naquele dia. Comecemos com o filtro da verdade: você tem certeza de que o que vai me contar é verdade?
— Bem… não sei, não… só estou repetindo o que disseram.
— Agora, vamos passar pelo filtro da bondade: se isso que estão falando fosse algo acerca da nossa família, você gostaria que fosse espalhado, contado?
— Ah! Não! Se fosse com a nossa família, de jeito nenhum!
— Finalmente, usemos o filtro da utilidade: você acha útil e necessário passar essa notícia adiante?
— Não, mamãe. Pois é… Agora compreendo os nossos três filtros internos e procurarei lembrar deles sempre.
Nada nos proporcionará mais amigos do que a disposição para admirar as qualidades dos outros em vez de divulgar as suas fraquezas. Por que disseminar uma fofoca quando podemos — utilizando, no momento, os três filtros — eliminá-la?
Referência
MILITÃO, Albigenor. S.O.S.: dinâmica de grupo. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1999.
