Edição 146

IAprendizagem

DO GIZ À NUVEM: PLANEJAMENTO DOCENTE NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Isadora Bandeira de Melo Altoé
Mariana Vieira de Araújo

O planejamento é um processo de racionalização, organização e coordenação da ação docente, articulando a atividade escolar e a problemática do contexto social.

Irina Strelnikova - stock.adobe.com

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1. Introdução

A tecnologia transformou significativamente a nossa forma de pensar e de agir diante do mundo. Dentro da escola, no cotidiano que envolve professores, gestores, coordenadores e responsáveis, isso não foi diferente. Em uma instituição como a escola, marcada por costumes, tradição e rotina, quaisquer mudanças saltam aos olhos, evidenciando os novos caminhos que a sociedade tem tomado.
Entretanto, apesar das mudanças evidentes que vemos, a exemplo do uso do celular em sala de aula, da relação dos estudantes com as redes sociais e da presença intensa de inteligência artificial no processo de ensino-aprendizagem, há um verbo constante na escola: planejar.

Planejar, em qualquer era, tecnológica ou não, é um desafio. Libâneo (1990) reflete sobre as implicações sociais que envolvem o planejamento na escola: “O planejamento é um processo de racionalização, organização e coordenação da ação docente, articulando a atividade escolar e a problemática do contexto social. A escola, os professores e os alunos são integrantes da dinâmica das relações sociais; tudo o que acontece no meio escolar está atravessado por influências econômicas, políticas e culturais que caracterizam a sociedade de classes”.
Assim, podemos perceber que o nosso planejamento está conectado às nossas vivências. Todas as transformações que a sociedade sofre influenciam em nossas práticas educacionais, afinal estamos incluídos no contexto e atuando ativamente nessas mudanças.

Irina Strelnikova - stock.adobe.com

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2. O planejamento como eixo da prática educativa

A ideia de planejamento pedagógico tem sua origem no movimento educacional, especialmente no contexto das reformas educacionais do século XX — ações que buscaram modernizar e maximizar o acesso à educação, a exemplo da criação do Ministério da Educação e Saúde, em 1931; do Método Paulo Freire; e da LDB, em 1996. Nos primórdios, o ato de planejar era algo rígido, relacionado principalmente a objetivos e métodos que estavam, de modo geral, alheios às necessidades e particularidades dos estudantes. Em boa parte, o ensino estava centrado no professor e na transmissão de conteúdos.
Com o passar do tempo, o planejamento foi se transformando de uma ferramenta puramente administrativa para um processo reflexivo, que envolve decisões tanto dos educadores quanto dos estudantes. A partir de estudos e teorias desenvolvidas, a educação e, por conseguinte, o planejamento passaram a adotar práticas de ensino focadas no estudante, corroborando a mudança de percepção da ação de planejar para um processo dinâmico.
Com a chegada da onda tecnológica, o planejamento foi se tornando ainda mais adaptável, permitindo que as práticas pedagógicas sejam cada vez mais personalizadas de acordo com o ritmo de aprendizagem e os perfis dos estudantes. Hoje, o planejamento não é visto apenas como uma previsão de atividades que serão realizadas, mas uma constante reflexão, avaliação e ajuste de estratégias que respondem a dados concretos, e reais, dos estudantes.

Planejar, prever, refletir, ajustar, decidir: qual é o significado desses verbos no contexto escolar?

No contexto escolar, planejar vai muito além de preencher agendas ou realizar anotações sobre o que será ensinado. De fato, o planejamento envolve uma série de momentos conectados, que vão desde a previsão das atividades e dos conteúdos até a constante reflexão e possíveis ajustes de práticas pedagógicas. Destacamos, a seguir, os verbos e seus respectivos significados.
Portanto, planejar é um ato pedagógico essencial que dá intencionalidade à prática educativa. Um planejamento bem elaborado e constantemente analisado contribui para uma educação mais democrática, eficaz e centrada no estudante. Tal como afirma Paulo Freire, planejar é um ato de amor e de coragem. É um exercício de liberdade que implica escolha e compromisso com o que se deseja trabalhar e impactar.

1. Prever: diz respeito a antecipar possíveis situações de aprendizagem, pensando, por exemplo, nos seguintes questionamentos: “Quais conteúdos serão trabalhados?”, “Quais habilidades precisam ser desenvolvidas?”, “Quais recursos serão necessários?”. O educador, neste momento, projeta o percurso a ser trilhado, com base no currículo, no calendário interno e nas características da turma.

2. Refletir: envolve olhar criticamente para a própria prática docente e as suas escolhas: “O que tem funcionado?”, “Quais estratégias precisam ser revistas?”. A reflexão contínua permite que o planejamento seja mais coerente com a realidade e com os resultados obtidos.

3. Ajustar: refere-se ao reconhecimento de que o planejamento não é rígido. Ele precisa ser flexível para se adaptar às diferentes situações que surgem no cotidiano escolar, como o ritmo da turma, imprevistos ou novas demandas internas e externas. Ajustar é um ato de escuta e sensibilidade pedagógica.

4. Decidir: tomada de posicionamentos conscientes sobre o que será ensinado, como será ensinado e o motivo pelo qual será ensinado. É a etapa em que o educador exerce sua autonomia profissional, considerando o que é mais significativo para a aprendizagem dos estudantes.

3. Juntos fazemos a força: a importância do planejamento coletivo (gestores, professores, equipe pedagógica)

O planejamento coletivo é um dos pilares fundamentais para a promoção e o desenvolvimento de uma educação de qualidade. Ele promove a construção de uma escola mais integrada, coerente e alinhada com os objetivos comuns da aprendizagem. Antes mesmo de pensar em incorporar tecnologias ou inovações, é essencial compreender que nenhuma ferramenta será eficaz sem um planejamento bem articulado entre todos os envolvidos no processo educativo.
Gestores, professores e equipe pedagógica como um todo têm papéis diferentes, mas atuam de forma complementar. Quando esses profissionais se reúnem para planejar em conjunto, há uma troca valiosa de experiências, pontos de vista e estratégias que enriquecem o trabalho pedagógico e favorecem a tomada de decisão de forma mais assertiva.

Irina Strelnikova - stock.adobe.com

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4. Planejar com inteligência artificial: um novo paradigma

Como a IA pode auxiliar no planejamento: geração de ideias, organização de sequências didáticas.
É fato que a inteligência artificial pode nos auxiliar em diversas áreas e a qualquer momento. No contexto educacional, por exemplo, ela pode contribuir de forma valiosa para a prática do professor. A IA atua como uma ferramenta de apoio ao docente, otimizando o tempo, organizando informações e sugerindo percursos metodológicos de forma personalizada. Elencamos, a seguir, alguns usos possíveis:
Geração de ideias para atividades: a inteligência artificial pode sugerir jogos, estratégias pedagógicas interativas e exemplos contextualizados de acordo com o tema e a faixa etária da turma.
Organização de sequências didáticas: com base em objetivos de aprendizagem, a IA pode ajudar a estruturar uma sequência lógica de conteúdos, caso você a programe para isso.
Elaboração de um plano de aula: a partir de um plano-base de aula, por exemplo, a IA consegue desenvolver outros planos, personalizando os critérios e objetivos de aprendizagem para necessidades específicas de cada turma. Veja a seguir um exemplo.

IA atua como uma ferramenta de apoio ao docente, otimizando o tempo, organizando informações e sugerindo percursos metodológicos de forma personalizada.

Exemplo de um plano de aula
A professora de Língua Portuguesa precisava de um plano de aula para trabalhar o gênero Notícia. Como já vinha trabalhando outros gêneros com a turma do 6o ano, ela anexou a um aplicativo de inteligência artificial um outro plano de aula que ela mesma fez. Junto ao arquivo, direcionou o que era importante ter no novo plano. Vejamos o que a IA conseguiu criar:

Gênero textual: Notícia
Disciplina: Português
Assunto: Gêneros Textuais: Notícia
Segmento: Ensino Fundamental – Anos Finais
Duração: 50 minutos
Palavras-chave: Notícia; Gêneros textuais; Ensino Fundamental; Leitura; Interpretação; Jornalismo.

Objetivos principais:
› Identificar as características do gênero textual Notícia.
› Compreender a estrutura de uma notícia (título, lide, corpo).
› Desenvolver habilidades de leitura e interpretação de notícias.
› Produzir pequenas notícias sobre temas relevantes para os alunos.

Introdução (10 minutos)
Professor, inicie a aula perguntando aos alunos o que eles entendem por “notícia”. Questione onde eles costumam encontrar notícias (jornais, Internet, televisão, rádio) e qual a importância das notícias em nosso dia a dia.
Explique que a notícia é um gênero textual informativo que tem como objetivo relatar fatos relevantes e de interesse público. Destaque que as notícias devem ser objetivas, imparciais e baseadas em fatos verídicos.

Tópicos a serem abordados:
› O que é uma notícia?
Definição e características principais.
› Onde encontramos notícias?
Diferentes meios de comunicação.
› Por que as notícias são importantes?
Relevância para a sociedade.

Dinâmica:
Apresente manchetes de notícias recentes e pergunte aos alunos sobre o que eles acham que se trata cada notícia. Isso despertará a curiosidade e o interesse deles pelo tema.

Você sabia?
Você sabia que o primeiro periódico impresso surgiu na Roma Antiga? Era chamado de Acta Diurna e continha informações sobre eventos políticos e sociais da época

Desenvolvimento (30 minutos)
Professor, nesta etapa, explore a estrutura de uma notícia e suas características. Utilize exemplos de notícias adequadas para a faixa etária dos alunos, como notícias sobre esportes, meio ambiente, cultura ou eventos escolares.

Tópicos a serem abordados:
Estrutura da notícia:
› Título (manchete): Deve ser chamativo e resumir o assunto principal da notícia.
› Lide: É o primeiro parágrafo da notícia e deve responder às perguntas básicas: O quê? Quem? Quando? Onde? Como? Por quê?
› Corpo da notícia: Apresenta os detalhes do fato noticiado, com informações adicionais e depoimentos de pessoas envolvidas.

Linguagem da notícia:
› Objetividade e imparcialidade.
› Uso de linguagem clara e precisa.
› Uso de verbos no presente ou pretérito perfeito.

Exemplos de notícias:
› Apresente notícias curtas e interessantes para os alunos.
› Analise a estrutura e a linguagem das notícias em conjunto com a turma.
Exemplos:
• “Escola Municipal promove Feira de Ciências com projetos inovadores”
• “Atleta mirim conquista medalha de ouro em campeonato nacional de natação”
• “Campanha de arrecadação de alimentos beneficia famílias carentes da região”

Conclusão (10 minutos)
Professor, finalize a aula revisando os principais pontos abordados: definição de notícia, estrutura da notícia (título, lide, corpo) e linguagem da notícia (objetividade, imparcialidade, clareza).
Reforce a importância das notícias para a sociedade e incentive os alunos a se manterem informados sobre os acontecimentos do mundo.
Professor, ao final da aula, abra espaço para perguntas e dúvidas dos alunos. Incentive-os a compartilharem suas opiniões e experiências sobre o tema. Isso promoverá um ambiente de aprendizado colaborativo e enriquecedor.

Irina Strelnikova - stock.adobe.com

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Com isso, percebemos que a IA conheceu a estrutura oferecida pela professora, captou as necessidades dela e desenvolveu um novo plano de aula, semelhante ao que ela já tinha feito, mas com mais elementos e com novas ideias. Em resumo, planejar com o apoio de uma ferramenta inovadora, como a inteligência artificial, representa uma mudança significativa na forma como os professores podem pensar e organizar suas práticas pedagógicas.
Cabe, portanto, ao educador explorar essas possibilidades com senso crítico, garantindo que a IA seja um mecanismo a serviço da aprendizagem, e não um substituto da sensibilidade e da experiência docente.

[…] mesmo com grandes inovações e tecnologias modernas, o professor continua sendo o autor e o condutor do processo educativo.

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5. Aviso importante: Não podemos deixar de manter a intencionalidade pedagógica humana.

Apesar das inúmeras vantagens, é fundamental pontuar que a inteligência artificial não substitui a sensibilidade do educador nem a sua capacidade crítica, ética e afetiva. Planejar perpassa a organização de conteúdos: envolve a leitura do contexto, a escuta
dos estudantes, a tomada de decisões com base em valores e propósitos.
Para entender o papel da inteligência artificial, a metáfora do teatro pode ser útil: imagine-a como uma excelente roteirista ou assistente de edição, mas que nunca ocupará o papel principal, ou seja, o lugar do protagonista.
No panorama educacional, segue-se o mesmo raciocínio: mesmo com grandes inovações e tecnologias modernas, o professor continua sendo o autor e o condutor do processo educativo.

6. Conclusão

O planejar é um trabalho contínuo e delicado, mas, ao assumirmos esse controle e colocarmos as ações em prática com novos recursos que facilitem esse processo, a sala de aula ganhará muito mais qualidade no ensino.
É importante lembrar que a inteligência artificial pode oferecer dados, mas somente o professor pode interpretá-los à luz da realidade concreta de uma sala de aula. A escolha de quais conteúdos priorizar, que abordagens utilizar, que experiências proporcionar, tudo isso continua sendo uma decisão humana, pedagógica e contextualizada.
E, além disso, não podemos nos esquecer de como queremos planejar o futuro da educação: o ser humano no centro das ações, planejando, refletindo e, acima de tudo, aprendendo uns com os outros.

LIBÂNEO, José Carlos. Didática.
São Paulo: Cortez, 1990. (Coleção
Magistério – 2º Grau. Série Formação
do Professor.)

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