Edição 143
Editorial
Editorial
Prezado educador,
Prezada educadora,
A inteligência artificial pode ser poderosa, mas o verdadeiro agente transformador continua sendo você. Quando combinamos tecnologia com sensibilidade pedagógica, o impacto na aprendizagem é ainda maior.
Inicio confessando que vou precisar de pesquisa e ajuda para escrever este editorial. O tema que escolhemos, inteligência artificial, é complicado. Como falar do que não se domina? Procuramos convidar pessoas que já trabalham na área ou estão se especializando no assunto, abrilhantando ainda mais o tema.
A inteligência artificial, tão em voga, estaria aí a substituir o processo de ensino-aprendizagem. Ameaçaria, portanto, a educação teórica e prática, com a promessa de extrair todo o conhecimento para um método novo de ensino e aprendizagem, baseado exclusivamente em análise de dados. Mas ela vai gerar conhecimento? Acho que sim, porém de forma artificializada, sem jamais se transformar em saber, que, por sua vez, é um conhecimento refinado, depurado e curado. E isso leva tempo.
O conhecimento gerado — talvez uma palavra-chave neste contexto — pela inteligência artificial só pode existir desde que alguém a alimente com conteúdo. E esse conteúdo não nasce do nada: nasce de mentes humanas, de professores, autores, artistas, cientistas, gente que pensa e sente. É como se entregássemos bilhões de blocos e a IA tentasse, com base em padrões estatísticos, organizar essas peças e nos devolver algo coerente, segundo o input fornecido. O que a inteligência artificial entrega é uma combinação de diferentes dados, baseada em repetição, previsão e cálculo. É conhecimento, sim, mas não é saber.
Claro que, como educadores, também precisamos estar atentos a alguns riscos. Um deles é a tentação de “pedir para a IA fazer”. Em vez de rascunhar, errar, reescrever e refletir, muitos estudantes já digitam: “ChatGPT, escreve isso para mim”, negligenciando etapas essenciais para a aprendizagem. Nesse momento, perdemos algo precioso: o pensamento em processo.
Quando a inteligência artificial entrega uma resposta pronta, há o risco de o aluno deixar de experimentar o desconforto de pensar. E pensar, às vezes, é mesmo incômodo. Mas é desse incômodo que nasce o argumento, o raciocínio, a autoria. Quando tudo vem mastigado, o aluno pode até repetir, mas dificilmente vai elaborar. E aprendizagem, sem a elaboração, vira eco.
A inteligência artificial não substituirá professores,
mas os educadores que souberem utilizá-la terão vantagem.
Essa prática recorrente, sem mediação, pode comprometer o desenvolvimento de habilidades cognitivas complexas, competências que se constroem com tempo e esforço. A IA pode ser parceira, mas não substitui o exercício do pensamento. E é esse, talvez, o nosso maior desafio: ensinar nossos alunos a usar a tecnologia sem terceirizar o que é intransferível — o ato de pensar.
Penso ser importante compreender que o conhecimento que a IA oferece é útil, rápido, eficiente, mas ainda é algo intermediado. Já o saber… O saber se constrói. Um algoritmo é apenas uma argila digital; é o ser humano, com suas emoções, intuições e propósitos, que transforma essa argila em escultura. Nós, professores, seguimos como escultores de futuros, mesmo quando usamos ferramentas digitais como cinzel.
A inteligência artificial não substituirá professores, mas os educadores que souberem utilizá-la terão vantagem. Muitos educadores ainda veem a IA como algo distante, complexo ou até uma ameaça. Por isso, é muito importante abordar o tema com otimismo, mostrando a importância dessa tecnologia como aliada do educador, não substituta.
Não há ameaça maior do que o medo de não se reconhecer mais necessário; porém, eu acredito, com convicção, que o professor continua sendo absolutamente necessário. Não para competir com a máquina, mas para lembrar à sociedade que ensinar e aprender são atos humanos. Que o conhecimento pode vir de várias fontes, mas o saber nasce do encontro entre pessoas. É visceralmente humano. E, enquanto houver esse encontro, não haverá algoritmo que substitua o olhar de quem ensina e a transformação de quem aprende.

(@profzeneidesilva)
