Edição 150

Como mãe, como educadora, como cidadã

Educar para a vida: quando o empreendedorismo começa dentro de casa

Zeneide Silva

“Empreender não é só abrir empresas, é desenvolver autonomia, responsabilidade, criatividade, resiliência e capacidade de tomar decisões — competências que começam em casa, mas precisam ser fortalecidas pela escola.”
João Kepler Braga

Recentemente, tive contato com o livro Educando filhos para empreender – como preparar filhos para o mundo ao invés de querer mudá-lo para eles, de João Kepler Braga, e fui profundamente impactada pela reflexão proposta pelo autor: “Estamos preparando nossos filhos para enfrentarem a vida ou tentando apenas protegê-los dela?”.

O autor fala de sua experiência prática e real de um pai de família que, entre erros e acertos, fracassos e sucessos, educa seus filhos com base nos princípios do empreendedorismo.

Vivemos em uma sociedade em constante transformação. O mundo muda rapidamente, as profissões mudam, as relações mudam, e a escola já não pode limitar-se apenas à transmissão de conteúdo. Precisamos formar seres humanos capazes de pensar, criar, resolver problemas, trabalhar em equipe, lidar com frustrações e encontrar caminhos diante das dificuldades.

É exatamente nesse ponto que o empreendedorismo entra como ferramenta de educação para a vida.

O livro Educando filhos para empreender permite fazer uma ponte muito bonita entre família, escola e formação humana. Ao longo da leitura, compreendi que educar para empreender não significa ensinar crianças a abrirem empresas, mas ajudá-las a desenvolver autonomia, responsabilidade, iniciativa, criatividade e coragem para fazer escolhas conscientes — competências que começam em casa, mas precisam ser fortalecidas pela escola, pois sabemos que a escola sozinha não forma empreendedores da vida; famílias e educadores precisam caminhar juntos.

É exatamente nesse ponto que o empreendedorismo entra como ferramenta de educação para a vida.

Como mãe, percebo o quanto muitas vezes queremos facilitar todos os caminhos para nossos filhos. Como educadora, entendo que proteger demais pode impedir o desenvolvimento da independência emocional e intelectual. E, como cidadã, reconheço que nossa sociedade precisa, urgentemente, de pessoas mais preparadas para agir, inovar e transformar realidades.

A escola empreendedora nasce, justamente, dessa visão: uma escola que incentiva o protagonismo, a escuta, a colaboração e o pensamento criativo. Uma escola que ensina o estudante a sonhar, mas também a construir caminhos para realizar seus sonhos.

Resolvi trazer para vocês, educadores, um capítulo do livro Seja um mentor para seus filhos. Acredito que a leitura desse livro irá contribuir para o desenvolvimento dos seus alunos. Ele apresenta 21 capítulos com tópicos interessantes como: empreendedores, preparar os filhos para o mundo, mesada, educação doméstica, perfil empreendedor, persistência, agradecer, pensar e praticar, zona de conforto, mentor, entre outros.

fizkes – stock.adobe.com

 

Seja um mentor para seus filhos

 

 

Quando uma pessoa me procura e diz que está com sede, ela não espera que eu lhe dê a fórmula da água, muito menos que abra um livro e comece a explicar a importância das chuvas e os benefícios para a saúde do ser humano. O que interessa é descobrir onde existe uma fonte de água potável e matar a sua sede. Quem tem sede não quer explicações, quer uma jarra de água, de preferência cheia e bem fresquinha. Usei esse exemplo para mostrar qual é a função do mentor na vida dos filhos. Na prática, aplicando esse exemplo em um contexto real, o papel do mentor seria mostrar as alternativas e os caminhos para se conquistar a água desejada.

Observe que não estou falando em pegar a água e servir, não se trata de dar o dinheiro e levar o filho até a porta para que ele compre a água. Estou falando em dar a ele informações suficientes para que consiga, mas que é preciso deixar que faça suas descobertas e chegue até a água sozinho.

O mentor é, basicamente, o guia, o mestre, o conselheiro, o grande pensador. Ser mentor não é para qualquer um, é preciso ter tido experiências práticas e usar seus próprios conhecimentos e vivências na sua área para poder partilhá-las com seus mentorados. É aquela pessoa que já desbravou caminhos desconhecidos, já ultrapassou barreiras e que, constantemente, supera suas próprias limitações em busca do autoconhecimento. Pessoas assim são tidas como exemplo, porque chegaram lá, ou seja, tornaram-se uma referência por conquistar seus objetivos e realizar seus sonhos e que estão dispostas a compartilhar seus erros, seus acertos e suas conquistas. Observe ainda que, nessa linha, um mentor se diferencia de um professor, instrutor, facilitador, consultor, que cumprem outros papéis.

Mas, cuidado, o mentor não é um atalho para o sucesso, não pode ser enxergado assim. O caminho é sempre longo, e os atalhos são ilusões. O mentor não faz milagre nem é mágico. Ele irá ajudar a incentivar e a ampliar sua visão, principalmente fazendo pensar e questionar suas escolhas e decisões, para que você tenha convicção do que está fazendo.

Encontrar os melhores caminhos não é uma tarefa fácil! Mas, por ter tido experiências semelhantes ao longo da vida, ele é capaz de reconhecer e indicar as melhores rotas, trata-se de direcionamento.

Todos precisam de mentores, até mesmo os que se acham mais experientes e seguros. Sozinho é muito mais difícil seguir na trilha ideal quando se tem uma infinidade de opções.

Eu, por exemplo, apesar de ser mentor de vários empreendedores, tenho os meus mentores, os meus ídolos, as pessoas que me inspiram positivamente. Sempre que preciso, recorro a eles. E sou muito grato por poder contar com essa ajuda, sou grato inclusive aos “nãos” que eles já me deram e que me fizeram ser quem eu sou hoje.

Mentoria, na prática, são conversas, debates e reuniões, com ou sem métodos predefinidos, sobre assuntos ligados à sua jornada e ao seu negócio. Este processo possibilita o aprendizado e desenvolvimento, porque a troca de ideias e de informações ajuda a expandir os horizontes das possibilidades. Mas, atenção, é preciso fazer a sua parte e não transferir para o mentor a responsabilidade de encontrar soluções rápidas para todos os seus problemas. O papel do mentor é ajudar a olhar por outras perspectivas, a formular respostas corretas, pegar na mão e mostrar validações por meio de exemplos, ajudar a perceber o que precisa ser avaliado no momento em que você mesmo toma as próprias decisões.

“Jamais tente impor nada, muito menos a sua opinião. Mostre que a decisão é dele, mas que existem outras possibilidades.”

Se o seu filho está indo por um caminho que você tem certeza absoluta de que não o levará a lugar nenhum ou que poderá, inclusive, prejudicá-lo, seu papel como mentor é dizer algo do tipo: “Você tem certeza de que o caminho é este mesmo? Já pensou em fazer assim ou assado? Talvez se você for em tal lugar poderá ter novas ideias e ver como tudo funciona por lá”. Jamais tente impor nada, muito menos a sua opinião. Mostre que a decisão é dele, mas que existem outras possibilidades.

O mercado respeita quem é mentorado por aqueles que já conseguiram obter êxito no seu papel. É a adaptação do velho ditado: “Mostre-me quem é o seu mentor que eu te direi onde vai chegar!”. Os pais, por si mesmos, trazem uma bagagem de experiências que podem e devem repassar aos seus filhos em forma de mentoria. É preciso diferenciar, sim, a hora de ser o pai amigo, educador, disciplinador, a hora de brincar e a hora de direcionar seu filho, de mostrar a ele os melhores caminhos e possibilidades, afinal todo pai deseja ver seu filho bem, feliz e realizado.

E, como eu disse, ter um mentor (ou vários) na vida não precisa ser necessariamente apenas na relação entre pais e filhos. Aliás, se os pais que estão lendo este livro se interessarem, podem buscar um mentor para eles, e, consequentemente, este se torne um mentor para seus filhos. A minha dica é: olhe, principalmente, o track record da pessoa, o que já realizou, as empresas de que participou, onde trabalhou, sua experiência como mentor. Veja também o que pensa, escreve e fala em posts, artigos e eventos. Se conhecer alguém que já se aconselhou com ele, melhor ainda. Procure pelo passado dele, o que ele já fez, não somente o passado moral, mas a experiência efetiva naquilo que você precisa dele. Ou seja, como esse mentor pode ser útil na sua questão específica? Pode ser um ou mais mentores, porém o ideal é que sejam especialistas nas áreas em que você tem mais dificuldade e precisa de ajuda. Quanto mais específico você for, neste momento de definir os objetivos, melhor.

Mentores são os nossos heróis, aqueles nos quais nos espelhamos e, de alguma forma, gostaríamos de fazer as coisas ou sermos iguais a eles. Daí a importância de escolher o mentor correto, para que ele sirva como inspiração. “Se eles conseguiram, eu também posso!” Pode fazer com que você se sinta especial e que isso impacte positivamente na sua autoestima, na sua autoconfiança e, principalmente, nas suas escolhas e no seu destino.

Reprodução

Espero que vocês possam sentir o desejo de adquirir o livro, que apresenta uma leitura leve, de fácil compreensão e com fundamentos para realização de um trabalho muito importante para a escola. E sugiro, ainda, que criem um momento com os pais, com o objetivo de ajudá-los na formação de seus filhos.

A conclusão da introdução do livro termina assim: “Da próxima página em diante, encare essa leitura como uma fonte de inspiração e informação, afinal, se você está com este livro em mãos é porque deseja um mundo melhor para o seu filho, mas já compreende que, para que isso aconteça, irá depender dele, e não de você”.

Desejo uma boa leitura.

Grande abraço,

Profa. Zeneide Silva

(Hoje, começo a assinar meus textos usando o nome professora, o que me deixa muito feliz)

BRAGA, João Kepler. Educando filhos
para empreender: como preparar filhos
para o mundo ao invés de querer
mudar o mundo para eles. São Paulo:
Literare Books, 2016

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