Edição 149

Como mãe, como educadora, como cidadã

EDUCAR PARA RESPEITAR: o papel da escola diante da violência contra a mulher

Zeneide Silva

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Recentemente, reencontrei um livro que li em 2016, de Augusto Cury, que aborda a importância das relações saudáveis e do papel da mulher na construção de vínculos afetivos equilibrados. Ao revisitá-lo, fui tomada por uma reflexão profunda: passaram-se quase dez anos, mas a realidade vivida por muitas mulheres ainda é marcada pela violência, pelo desrespeito e por tragédias como o feminicídio.

É nesse contexto que retomo algumas ideias apresentadas por Augusto Cury, não apenas como leitora, mas como mãe, educadora e cidadã. Suas reflexões sobre inteligência emocional, autoestima e escolhas afetivas nos convidam a pensar: que tipo de relações estamos ensinando, direta ou indiretamente, às nossas crianças?

A escola, muitas vezes vista apenas como espaço de transmissão de conteúdos, é também território de formação humana. É ali que meninos e meninas começam a construir suas primeiras noções sobre respeito, limites, empatia e convivência. Quando negligenciamos esses aspectos, abrimos brechas para que padrões de violência — muitas vezes sutis — se perpetuem ao longo das gerações.

Como educadores, não podemos tratar temas como o respeito à mulher e as relações saudáveis apenas em datas específicas ou projetos pontuais. É preciso que esses valores estejam incorporados no cotidiano escolar: nas falas, nas atitudes, nas intervenções pedagógicas e, sobretudo, no exemplo.

Como mãe, essa reflexão se torna ainda mais urgente. Que mundo estamos ajudando a construir para nossas filhas? E que tipos de homem estamos formando para o futuro? Ensinar a reconhecer emoções, lidar com frustrações, respeitar o outro e valorizar a vida não é um conteúdo extra — é essencial.

E essa transformação começa, todos os dias, dentro da sala de aula.

Selecionei alguns trechos do livro Mulheres inteligentes, relações saudáveis, de Augusto Cury (desejo que vocês adquiram), para nós mulheres, que lutamos e acreditamos em um mundo melhor para nós, para nossas filhas e nossas netas.

Ao selecionar trechos desse livro, minha intenção não é apenas revisitar uma leitura, mas provocar um movimento: que possamos repensar nossas práticas, nossos discursos e nossa Responsabilidade Social. Porque educar vai muito além de ensinar a ler e escrever. Educar é formar seres humanos capazes de amar, respeitar e viver em sociedade com dignidade.

Tem um capítulo que achei muito interessante, acho que vão gostar: As relações sociais: uma fonte de prazer ou de dor?.

Toda mulher sabe que nada é tão belo quanto construir relações sociais saudáveis, fundamentadas em amor inteligente, elogio, apoio, diálogo.

Augusto Cury apresenta oito tipos de mente feminina, vou apresentar cinco.

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Mulheres analíticas

Possuem uma mente que avalia reações, elementos e eventos de maneira aberta e multilateral. Refletem sobre os comportamentos das pessoas que as rodeiam, considerando seu tom de voz, postura e conteúdo das palavras. Analisam atitudes agressivas contra elas e pensam antes de reagir; não dão respostas imediatas, preferem ponderar sobre as melhores respostas em cada situação. Não aceleram o sistema de recompensa, não querem resultados imediatos. Sabem esperar, pois curtem o processo para atingir seus objetivos. São estrategistas, planejam o futuro.

Aspectos positivos

 Mentes analíticas possuem uma plataforma de janelas no córtex cerebral que conduz o Eu a ser ponderado, dosado, equilibrado. São autoras de sua história. Amam a lei do esforço maior. Suas respostas costumam ser profundas, pois consideram múltiplas variáveis em sua elaboração. São admiráveis intelectualmente. Ainda que sejam bonitas pelos padrões de beleza sociais, cativam muito mais por sua inteligência do que pelas curvas do corpo. Têm possibilidades de ser excelentes profissionais, bem como vocação para liderança e trabalhar em equipe. Mulheres analíticas costumam ser autossuficientes. Não dependem excessivamente dos outros para executar seus sonhos nem traçar suas metas.

 

Aspectos negativos

Se forem excessivamente analíticas, perdem a espontaneidade, contraem a leveza da vida, diminuem o bom humor. Podem apresentar baixo nível de tolerância com as pessoas que consideram intelectualmente medianas ou superficiais. Correm o risco de se posicionar não como um ser humano, mas como psicóloga diante do comportamento de seu parceiro, seus filhos e os demais. Se não trabalharem sua autossuficiência e sua “superioridade” intelectual, poderão se isolar e ter dificuldade de construir romances e amizades. Possuem, portanto, riscos altos para a solidão. São encantadoras, mas não são poucos os homens que têm medo dessas mulheres.

Mulheres observadoras

Mulheres que possuem uma mente observadora equipam, ainda que inconscientemente, seu Eu para ter um olhar aguçado, felino, acurado. Captam tudo o que se passa ao seu redor. Realizam múltiplas atividades simultaneamente. São capazes de conversar, realizar tarefas e, ao mesmo tempo, reparar nas roupas, bolsas e sapatos de outras mulheres. Fotografam detalhes com incrível acuidade.

“ Toda mulher sabe que nada é tão belo quanto construir relações sociais saudáveis, fundamentadas em amor inteligente, elogio, apoio, diálogo.”

Aspectos positivos 

Mentes observadoras, se também forem analíticas, desenvolvem uma fascinante habilidade para produzir novas ideias. Seu Eu é flexível e aberto, enxergam os problemas por múltiplos ângulos. Possuem uma intuição intensa e imaginação livre. Mulheres com mentes observadoras enxergam mais longe do que a média das outras pessoas. Sua criatividade flui naturalmente, não é induzida ou provocada.

Aspectos negativos

 O Eu das mulheres observadoras abre tantas janelas na Matriz de Utilização Consciente (MUC) que pode se perder nos detalhes. Nesse caso, há o risco de não focarem os grandes objetivos. A falta de foco prejudica a realização dos sonhos. Podem dar atenção exagerada a críticas, rejeições, incompreensões, perdendo, assim, a proteção emocional.

Toda mulher sabe que nada é tão belo quanto construir relações sociais saudáveis, fundamentadas em amor inteligente, elogio, apoio, diálogo.

Mulheres casulo

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Mulheres com mente “casulo” se fecham em torno de si. São intimistas, interiorizadas, tímidas. Têm apreço por leitura e propensão à intelectualidade, ou seja, para o desenvolvimento de mente analítica. Podem ter dificuldades de dividir sentimentos e verbalizar seus conflitos, enfim, falar de si mesmas. Ao longo do processo de formação da personalidade, essas mulheres produziram janelas que as colocam com um pé atrás na relação. Apesar disso, nem sempre têm medo de se entregar e confiar nas pessoas.

Aspectos positivos

Costumam ser fechadas, mas humanas; tímidas, mas generosas, embora tenham dificuldades de demonstrar afeto. São sensíveis e preocupadas com a dor dos outros, embora raramente cuidem de si mesmas. Costumam se preocupar em manter a palavra e cumprir seus compromissos. São tão éticas que preferem se machucar a ferir os outros. Pensam antes de reagir e falar, às vezes excessivamente. São muito discretas.

Aspectos negativos 

Não se sentem confortáveis em novos ambientes sociais nem em ser o centro das atenções. Quando estão em festas e jantares, sentem-se, às vezes, observadas. Têm uma rede de relacionamentos contraída e, apesar de se fecharem em torno de seu “casulo”, não têm grande proteção emocional, por isso pequenos problemas, decepções, frustrações causam grande impacto. Em seus relacionamentos amorosos, essas mulheres correm o risco de se fechar em torno do casal e, portanto, se distanciar dos pais, outros parentes e amigos. Em alguns casos, as mulheres casulo se tornam o terror das sogras que desejam conquistá-las. O isolamento do casal não produz a estabilidade desejada, pois a privam de ter uma rede de amigos como fonte de apoio para dividir sentimentos e sofrimentos. Mulheres com mente “casulo”, quando se vinculam a algumas amigas, fazem isso com tanta intensidade que se machucam muitíssimo quando não correspondidas, rejeitadas ou incompreendidas.

Mulheres impulsivas

Reagem pelo fenômeno bateu-levou, ação-reação. Não levam desaforo para casa. Seu Eu não é gestor de seus pensamentos, muito menos de sua língua. Falam o que pensam. Devido à quantidade de janelas traumáticas na Matriz de Utilização Consciente (MUC) e na Matriz Existencial (ME) construída ao longo de sua história, tornam-se extremamente reativas: à mínima contrariedade de filhos, alunos, parceiro e amigos, rebatem com agressividade.

Aspectos positivos 

São mulheres determinadas, sabem o que querem, embora atropelem quem esteja em seu caminho. São produtivas, criativas e, às vezes, imaginativas e sonhadoras. São agradáveis desde que não sejam frustradas. Algumas mulheres impulsivas são conscientes de sua falta de controle e sofrem por isso. Deveriam equipar seu Eu para trabalhar as leis fundamentais das relações saudáveis para protegerem sua emoção e aprenderem a pensar antes de reagir.

Aspectos negativos 

Machucam com facilidade quem está a seu redor. Plantam janelas killer na cidade da memória de quem mais amam. Seu Eu tem baixo nível de tolerância à frustração. Deixam todos os íntimos pisando em ovos, pois não sabem como estará seu humor naquele dia. Ainda que sejam pessoas fascinantes, suas palavras e reações impensadas e impulsivas geram uma fonte de atrito com parceiro, filhos e amigos. Às vezes, têm necessidade neurótica de mudá-los. São fáceis de construir relações sociais e rápidas para destruí-las. Têm grande chance de contribuir para que seus filhos sejam ansiosos e intolerantes por não os ensinar a arte da paciência. Algumas mulheres impulsivas dizem que falam o que pensam, mas tal característica é mais reflexo de seu descontrole do que de sua maturidade. A impulsividade é um mecanismo vicioso do Eu que não aprendeu o alfabeto da arte de pensar antes de reagir e nem da oração dos sábios: o silêncio. Uma pessoa impulsiva não muda se apenas construir janelas light solitárias dessas funções da inteligência. Ela precisa exercitar a lei do maior esforço para construir, ao longo dos meses ou anos, bairros inteiros de paciência na cidade da memória.

 Mulheres autônomas/ transparentes

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Refletem socialmente o que elas mesmas são: verdadeiras, retas, transparentes com os outros e, em destaque, consigo mesmas. Não dissimulam seus sentimentos nem disfarçam seus conflitos. São emocionalmente protegidas, não esperam muito dos outros. Têm um Eu maduro e espontâneo. Não têm medo de falar de suas lágrimas, crises e dificuldades. São, acima de tudo, naturalmente belas. Têm autoestima elevada e autoimagem sólida. Não se sentem deusas nem divas, mas um ser humano consciente de que todos possuem qualidades e defeitos.

Aspectos positivos 

Mulheres autônomas possuem consciência plena de sua beleza exterior e interior, mesmo que estejam fora do padrão tirânico de beleza. Não sentem necessidade vital de procedimentos estéticos, mas se os fizerem não são para ficarem bonitas, mas para cristalizarem a beleza que têm certeza de que já possuem. Sua mente é o próprio espelho, não têm, portanto, medo do espelho físico. O tempo não é seu carrasco nem as cicatrizes seu algoz. Não têm medo de falar sua idade, porque são como o vinho, quanto mais envelhecem mais belas ficam. Seu Eu é um bom autor de sua história. Não são vítimas do passado, nem das mazelas do presente, nem muito menos das tormentas do futuro.

Aspectos negativos 

Apesar de possuírem uma mente inteligente e uma personalidade madura, as mulheres autônomas também têm seus defeitos, pois, em psiquiatria, psicologia e filosofia, todos somos produtos inacabados. Por serem transparentes, podem machucar quem amam, dizer palavras inadequadas em momentos inoportunos. Por se sentirem naturalmente belas, podem criticar excessivamente quem tem preocupação neurótica com a própria imagem social.

O livro ainda apresenta outras mulheres: Mulheres observadoras, Mulheres contemplativas, Mulheres stop-shop.

Enfim, quando uma escola ensina um menino a respeitar e uma menina a reconhecer seu valor, ela não apenas transforma vidas — ela transforma a sociedade. Porque toda educação que não humaniza falha em sua missão mais essencial: ensinar a amar, respeitar e proteger a dignidade humana. Padrão intelectual e emocional.

Abraço carinhoso, de mulher para mulher.

Zeneide Silva

CURY, Augusto. Mulheres inteligentes, relações saudáveis. 2. ed. Rio de Janeiro: Planeta,

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