Edição 145

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Entre a ancestralidade e o afeto: um olhar sobre a literatura infantil negra de Rodrigo França

“Para toda a minha ancestralidade, com respeito e gratidão.” É com essa dedicatória que o autor Rodrigo França inicia o livro O pequeno príncipe preto. Essa frase opera como chave de leitura para entender o projeto literário que permeia suas obras infantis: escrever não apenas histórias com personagens negros, mas narrativas que emanem uma filosofia de mundo afrocentrada, na qual a infância é território sensível de reconstrução de imaginários.

Artista multifacetado — professor, ator, dramaturgo, cineasta, sociólogo e escritor —, França traz para as suas obras o vigor de uma trajetória marcada pela luta e pela arte no teatro negro brasileiro, onde, desde os anos 1990, vem construindo espaços para vozes negras se afirmarem sem concessões.
Em 2020, lançou seu primeiro livro infantil, O pequeno príncipe preto, que, inicialmente, era um espetáculo teatral infantojuvenil e foi adaptado para o formato literário, ilustrado por Juliana Barbosa Pereira.
Pouco tempo depois, a narrativa foi adaptada para o público ainda mais novo, dando surgimento à obra O pequeno príncipe preto para pequenos. Quatro anos depois, em 2024, é lançado O menino e sua árvore, livro que o autor dedica à sua avó Bené, com ilustrações de Preta Ilustra.

Além de sua atuação artística, França também é idealizador e cofundador do Segunda Black, movimento que tem como missão articular trabalhos artísticos de coletivos de teatro negro do Rio de Janeiro. Sua jornada é marcada por um compromisso com a valorização da cultura negra e a promoção da representatividade em diversas esferas da sociedade.

França traz para as suas obras o vigor de uma trajetória
marcada pela luta e pela arte no teatro negro brasileiro.

 

Em O pequeno príncipe preto para pequenos, o autor ressignifica o clássico com um gesto tão simples quanto revolucionário: troca o deserto pela ancestralidade africana e o menino loiro por um menino preto, da cor da terra molhada, do café quentinho. O protagonista não precisa buscar um lugar no mundo — ele já tem uma origem, uma árvore Baobá que o ancora e o nutre, uma linhagem de reis e rainhas que o acompanham mesmo a distância.
Sua viagem pelo Universo não é busca, é semeadura. A cada planeta que visita, deposita ali uma semente de Baobá, deixando rastros de esperança, afeto e transformação por onde passa. Em seu encontro com a Terra, um lugar estranho, onde crianças brigam, zombam e se ferem com palavras, o menino grita UBUNTU para lembrar que o viver coletivo é força, não fraqueza.

A sabedoria de Iansã e Xangô, o conselho da Raposa sobre afeto e o retorno ao lar completam a narrativa, que exprime outro modo de imaginar a infância negra: potente, poética, real e simbólica ao mesmo tempo. A jornada do pequeno príncipe não é apenas espacial, mas identitária.
Ele percorre mundos para aprender com as diferenças, mas retorna à sua origem com orgulho redobrado.

Se nesse livro a ancestralidade aparece como força espiritual, em O me
nino e sua árvore ela encarna como vínculo afetivo. Somos apresentados ao pequeno menino Sol, que, constantemente, conversa com sua bisavó, que é uma árvore lá no seu quintal. A ideia de ter uma bisa-árvore soa absurda para os colegas do menino, mas ela é, na verdade, centro de uma simbologia mais profunda: a bisavó Bené é memória viva, tronco afetivo, raiz que sustenta e nutre a existência.
Ao longo das páginas, visitamos, com carinho, o dia a dia da senhora e a mãe do protagonista, que ensina sua vó Bené a ler e escrever seu próprio nome e faz questão de sempre dividir com ela os conhecimentos que aprende na escola. A sabedoria que a bisavó compartilha não está nos livros, mas nas palavras ditas com amor, nas histórias contadas oralmente, na escuta e no afeto que nutrem a alma. E Sol aprende, com sua mãe, a sustentar esse elo ancestral.

Nós, leitores, aprendemos com o menino que ancestralidade é mais do que passado: é também o que permanece de pé, o que nos faz firmes, o que nos conecta com quem fomos e com quem seremos.

O pequeno príncipe preto altera o eixo do clássico europeu ao reivindicar para crianças negras a representatividade e o direito à fantasia, ao protagonismo e à realeza simbólica, e O menino e sua árvore aprofunda essa perspectiva, apresentando a ancestralidade não como algo distante no tempo, mas como princípio vital do presente e futuro.

Quando apreciamos essas duas histórias à luz do Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra (celebrado em 20 de novembro), percebemos que as narrativas de Rodrigo França nos oferecem caminhos para além da reparação: elas nos convocam a imaginar futuros. Zumbi dos Palmares representa o passado de luta e insurreição, necessário para que hoje possamos afirmar identidades negras com seu devido orgulho; entretanto, é na reinvenção das infâncias que reside a chance de quebrar ciclos de opressão.

Suas obras nos lembram que celebrar a consciência negra não se restringe a evocar feitos históricos do passado, mas a semear futuros nos quais as crianças negras se vejam — e sejam vistas — como referência, espelho e horizonte. Cria narrativas que recalibram o centro, reposicionando o protagonismo e reivindicando o direito de ser, sentir e sonhar como dimensões constitutivas da humanidade negra.
Em tempos em que ainda lutamos contra o racismo estrutural, autores como França pintam palavras-árvores, acreditando que, talvez, seja na literatura que adubaremos o solo para um mundo em que florescer não seja privilégio, mas direito.

Referências
FRANÇA, Rodrigo. Ilustrações: Juliana Barbosa Pereira. O pequeno príncipe preto para pequenos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2020.
FRANÇA, Rodrigo. Ilustrações: Preta Ilustra. O menino e sua árvore. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2024.
SANTOS, Beatriz Montes. Ancestralidades negras e ubuntu em O pequeno príncipe preto, de Rodrigo França. In: Anais do XI Seminário Internacional Literatura e Cultura. São Cristóvão, 03-07 de junho de 2024.
GOMES, C.; RAMALHO, C.; SANTOS, J. [Org.]. Aracaju: Criação, 2024. p. 190-199. Disponível em: https://editoracriacao.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Anais-XI-SILC-textos-completos-revisados_compressed.pdf#page=190. Acesso em: 3 ago. 2025.
TRILHA de Letras, com o diretor, artista plástico e escritor Rodrigo França 31.08.24. 1 vídeo (28min09s). Publicado pelo canal TV 247. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=r3aa0mzzttc. Acesso em: 2 ago. 2025.
RODRIGUES, Walter Hugo de Souza; PEREIRA, Ariovaldo Lopes. O pequeno príncipe preto: (re)descobrindo a ancestralidade na perspectiva da educação antirracista. Muiraquitã: Revista de Letras e Humanidades, [S. l.], v. 9, n. 2, 2021. Disponível em: https://periodicos.ufac.br/index.php/mui/article/view/5377. Acesso em: 2 ago. 2025.

Eduarda Queiroga é graduanda
de Letras (Bacharelado) e assistente de
edição.

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