Edição 150

IAprendizagem

Escola Empreendedora: formando alunos para transformar o mundo

Isadora Bandeira de Melo Altoé
Mariana Vieira de Araújo

Para qual futuro estamos preparando os estudantes?

Em uma terça-feira qualquer, antes mesmo de o professor terminar de explicar as causas da Revolução Industrial, um braço se ergueu no fundo da sala. Mas não era para tirar uma dúvida. “Professor, o Chat GPT disse que houve uma quarta fase que o senhor ainda não mencionou”, apontou o estudante com os olhos fixos na tela do celular.

Essa cena, que se repete em milhares de salas de aula pelo Brasil, ilustra uma mudança sísmica na educação: o monopólio do saber agora é dividido com as ferramentas de inteligência artificial.

Historicamente, o professor era a autoridade máxima, o detentor do “fogo” do conhecimento que era passado aos estudantes em doses homeopáticas. Hoje, esse fogo está em todo lugar. Dados da pesquisa TIC Educação, realizada em 2024, revelaram que 70% dos estudantes do Ensino Médio buscaram informações para pesquisas escolares por meio de uma ferramenta de IA generativa. O movimento é instintivo: professor, antes de recorrer ao livro didático ou esperar pelo conteúdo da próxima aula, o estudante busca a resposta imediata no algoritmo.

Entre os alunos de Ensino Médio que buscaram informações para pesquisas escolares…

› 89% utilizaram canais e aplicativos de vídeo.
› 88% usaram sites de busca.
› 72% buscaram informações em sites na Internet.
› 70% adotaram ferramentas de IA generativa.

Fonte: TIC Educação

Essa multiplicidade de ferramentas de inteligência artificial transformou o ato de aprender em uma jornada onipresente. O conhecimento, agora, circula por redes sociais, vídeos curtos, fóruns de discussão e, de forma cada vez mais central, pela IA. A escola, que antes era o destino final para quem buscava respostas, tornou-se um dos muitos nós de uma rede vasta.

Nesse cenário, o desafio da escola não é mais unicamente entregar o conteúdo, mas ensinar o estudante a navegar nesse oceano de informações. Afinal, em um mundo onde a resposta está a um clique de distância, o valor real não está mais em quem sabe fazer a pergunta certa, mas, sim, principalmente, em quem consegue discernir a verdade em meio ao fluxo incessante de informações no mundo digital.

“Os algoritmos analisam comportamentos, interesses e interações para criar uma experiência personalizada para cada usuário.”

O mundo que os estudantes encontram ao sair da escola

Muitas vezes, quando pensamos em inteligência artificial, imaginamos um cenário futurístico com tecnologias sofisticadas e robôs. No entanto, a realidade é bem mais próxima. Ao sair da escola, os estudantes entram em um mundo no qual a inteligência artificial já está presente em decisões, informações e experiências que fazem parte da rotina.

Ela está no vídeo que aparece primeiro na rede social, na música sugerida pelo aplicativo, na resposta automática de um atendimento on-line e até nos processos seletivos para estágios e empregos. Em muitos casos, os jovens interagem com sistemas inteligentes sem sequer perceber que estão fazendo isso. Essa constatação traz uma reflexão importante para nós, educadores: estamos preparando os estudantes para compreender e atuar nesse contexto? Afinal, eles não encontrarão a inteligência artificial em um futuro distante, eles já convivem com ela todos os dias. Por isso, discutir tecnologia na escola não significa apenas ensinar a usar ferramentas digitais, mas ajudar os alunos a entenderem como essas tecnologias influenciam suas escolhas, suas oportunidades e sua participação na sociedade.

Imagine um estudante concluindo o Ensino Médio e enviando currículos para conseguir sua primeira oportunidade profissional. Antes mesmo que o recrutador leia suas informações, existe uma grande chance de que um sistema automatizado faça uma triagem inicial. Hoje, muitas empresas utilizam algoritmos para selecionar candidatos com base em critérios previamente definidos. Essa realidade nos leva a refletir sobre a importância de desenvolver, ainda na escola, habilidades que vão além do conteúdo curricular. Saber comunicar competências, construir um currículo adequado e compreender o funcionamento dos ambientes digitais passa a fazer parte da formação necessária para a inserção profissional dos jovens.

No meio digital, por exemplo, especialmente nas redes sociais, os estudantes não veem as mesmas plataformas que nós vemos; muitas vezes, nem veem as mesmas redes sociais que seus próprios colegas. Os algoritmos analisam comportamentos, interesses e interações para criar uma experiência personalizada para cada usuário. Como consequência dessa personalização, cada estudante pode receber informações diferentes sobre um mesmo assunto. Diante desse cenário, o trabalho da escola em promover o diálogo, a diversidade de perspectivas e a leitura crítica da informação torna-se relevante.

Sobre a personalização, a IA opera seguindo alguns pilares para atender às necessidades de cada usuário como um indivíduo único. Observe a tabela a seguir, que ilustra como o usuário recebe a personalização no ambiente digital.

NÚCLEO DE INFORMAÇÃO E COORDENAÇÃO DO PONTO BR (NIC.br). Pesquisa TIC Educação 2024: livro completo. São Paulo: NIC.br, 2025. Disponível em: https://www.cetic.br/media/docs/publicacoes/2/pt-br/20251217165522/tic_educacao_2024_livro_completo.pdf. Acesso em: 18 jun. 2026.

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