Edição 140

Profissionalismo

Fraternidade e ecologia integral

Nildo Lage

A cadência de tragédias provocadas por fenômenos naturais conserva o planeta em estado de alerta máximo. O interessante é que os sinais são desfechados, todavia não captados pelos radares de uma humanidade que não se desconecta; o seu contemporâneo sistema não se acopla à rede da vida para que essa conexão acione o ícone que dispara o alarme e redireciona olhares para principiar o processo de recuperação.

Como começar as mudanças? O que fazer para atenuar os impactos instigados por fenômenos que devastam e sobrevêm numa velocidade tão célere que acende convulsão? Obstruir a destruição dos biomas, por meio de medidas que contenham o avanço dos vilões desmatamento, grilagem, poluição e exploração industrial, que devastam regiões inteiras!

Consciência é o dispositivo que ativa a partida de um procedimento que estabelece transformações imediatas, como retorno do chamado à humanidade para refletir no viver sem tantos percalços, para que tais ponderações incentivem ações que resguardem a essência do humano como fórmula única para assegurar a vida. Se agirmos conscientes de que cuidar do lugar comum é proteger o que “Deus viu que era muito bom”, pouparemos tragédias.

Esse proteger vai além de cumprir encargos para recuperar áreas degradadas, despoluir rios e mares. É preciso respeitar as fronteiras da natureza para afiançar que a vida das novas gerações não padeça num planeta que se alterca para sustentar uma humanidade que abocanha o hoje sem discorrer no amanhã.

Em meio às procelas, acatar Ecologia Integral como norte é permitir que a dignidade humana seja resgatada para reintegrar o indivíduo ao meio social, pois seus preceitos operam como força de retaguarda para ostentar o conviver na sua plenitude.

A Ecologia Integral atenua o clima de tensão nas relações interpessoais por desativar as ferramentas do capitalismo que incitam uma competição desigual, em que a imposição do mais forte prevalece na quebra de braços para reprimir, salientando que, na atual conjuntura, reciprocidade é, no contra-ataque, cooperação somente quando atende aos interesses dos dominadores.

Se ambicionarmos transformações, principalmente, sociais, é preciso atendermos aos gritos dos biomas e admitirmos ser doutrinados por aquele que pode oferecer um novo padrão de vida sem tantas perdas e agressões instigadas pelas reações da natureza, que não poupa nem mesmo vida de animais e vegetais, quando suas ações inundam cidades e propriedades rurais ou mantém longos períodos de estiagem.

[…] mesmo ciente de que nenhuma expressão é concluída, estabelece que é
preciso recorrer à redundância, que admite inserir integral
para reumanizar o humano e, de tal modo, acender os olhos da
humanidade para entrever que respeitar a natureza é reverenciar os limites da vida!

Por que Ecologia Integral?

Para compreender o sentido e sua importância na ostentação da vida, é preciso uma excursão pelo universo das ciências, desvendar o que é ecologia e onde o integral se acrescenta nessa junção e, por que não?, ingressar pelo planeta das linguagens, onde algoritmos explanam dicções por meio de expressões que contextualizam definições antes inexpressivas.

Na era das linguagens diretas, o colóquio exprime, na essência, o significado almejado pelo speaker. Pois, em meio às variações, expressar-se com clareza é o mínimo ante o poder de disseminação das ferramentas digitais, que se alastram em todas as camadas da sociedade, redefinem condutas, deturpam termos e, como o alvo é o máximo, a linguagem neutra, inexistente na nossa gramática, salientam sua força para proclamar o grito daqueles que são asfixiados pela minoria. Todavia, auxiliam no processo de ilustração.

Sendo assim, como inserir compreensão e fraternidade para redirecionar vidas a um porto seguro, para que a humanidade não padeça em tão alto grau? Simples! Ecologia é a inclusão do espaço de um conjunto de seres vivos de determinado ambiente comum, cuja natureza agrega vidas que formam um bioma!

Partindo desse pressuposto, aborda-se um dos pontos que permite visualizar que ecologia é, meramente, a ciência que estuda as relações dos seres vivos entre si; e, mesmo ciente de que nenhuma expressão é concluída, estabelece que é preciso recorrer à redundância, que admite inserir integral para reumanizar o humano e, de tal modo, acender os olhos da humanidade para entrever que respeitar a natureza é reverenciar os limites da vida!

Ficou claro? Sabemos que não! É tudo confuso, porque a busca não pode ser interrompida, pois respostas é o que nos instiga! Todavia, a realidade reflete uma destruição generalizada. De tão agressiva, restringe os horizontes da vida, e não é preciso irmos tão longe para compreendermos um cenário que se sente na pele — com a elevação das temperaturas — e no bolso — devido ao alto custo na produção de alimentos.

Ante o aniquilamento dos nossos biomas, suprimidos desde a chegada dos europeus, ainda há o que discutir? Sim! Se não integrarmos vida com desenvolvimento, a natureza não resistirá às compressões de um humano que busca o existir no agora sem refletir no amanhã tão somente para satisfazer um progresso predador, que é impulsionado por uma geração sedenta do novo.

O despertar sobrevém pelo toque do entendimento para refrear o extermínio e reiniciar, cadenciando o ritmo da vida, para que consciência ecológica reordene ações num espaço que assegura o viver e se aliar ao integral, que adota o essencial para ostentar a vida: alimento, oxigênio e água!

Quem assume o compromisso de proteger a vida?

O que bloqueia o avanço é que Fraternidade e Ecologia Integral são banidas dos cenários social e educacional porque empresas e governo almejam o financeiro, e, assim, obrigações com o desenvolvimento integral não sobrevêm. De tal modo, consciência e responsabilidade resvalam pelo ralo de um sistema de ensino sem estrutura de formar para a vida, impedindo que a interdependência das espécies resguarde a essência dos biomas.

O desgoverno é de tal grandeza que até os que creem que “Tudo que Deus criou é muito bom!” asfixiam o próprio grito, ignoram a pluralidade e a diversidade da vida e sua relevância na regência da vida humana.

A ficha só cai quando catástrofes devastam cidades, regiões inteiras! O que é isso? Reações climáticas! De quem é a responsabilidade? Da criação responsável em preservar! Todavia, é preciso que empresas, governo e sociedade assumam responsabilidades para conter as ações predatórias que aniquilam os biomas, para atender a um progresso que impele a arrombar limites, poluir, aniquilar e extinguir!

Os impactos são desastrosos. Contudo, o interesse econômico sobressai com tanto poder que controverter questões climáticas provoca altercações entre as nações; e como não atuam a favor da vida, o clima não suaviza, e sem punições que forcem ações corretivas não interrompem o desmatamento, tampouco recuperam áreas degradadas, nem recicla o lixo, que contamina, além de rios e mares, os lençóis freáticos.

Todos somos culpados! No processo de devastação, ninguém é inocente, porque os brados de socorro provenientes dos biomas ecoam por ruas, bairros e cidades, que são destruídos por inundações e deslizamentos, além de regiões inteiras que são perseguidas por secas intermináveis; e o admirável: ninguém se atreve a se manifestar!

Contudo, as nossas ações traduzem o que somos: exímios predadores! O agir irresponsável com o próprio existir e a indiferença ao futuro do planeta refletem o desrespeito às vidas que asseguram a vida humana!

Como até os órgãos fiscalizadores cerram os olhos, os ceifeiros avançam sem se importar com quem sofrerá as consequências. Nessa ininterrupta caminhada rumo ao fim, poucos refletem na centralidade da vida e visualizam a Ecologia Integral no horizonte do planeta como alarme para despertar a consciência de uma humanidade indiferente aos problemas ambientais.

De que adianta alardearmos a produção, ser um dos maiores produtores de grãos e carne, e não ter nossos recursos naturais protegidos? Ostentar florestas dantescas, rios e mares e exibir uma desigualdade social que choca o planeta?

O agir irresponsável com o próprio existir
e a indiferença ao futuro do planeta
refletem o desrespeito às vidas que
asseguram a vida humana!

Gestores precisam compreender que a Ecologia Integral desintegra os desníveis entre as classes sociais, pois harmoniza o desenvolvimento com a dignidade humana. Essa desintegração entre abastança e miséria restringe as distâncias das camadas sociais, por cunhar a conexão entre as quatro ecologias: ambiental, política e social, mental e integral, que constituem o tripé: justiça, desenvolvimento humano e social.

Se essa junção não sobrevir num procedimento ininterrupto, os aspectos ambientais, sociais, culturais e até religiosos prosseguirão fragmentados e dissolvidos no seio de uma sociedade que exclui os dependentes de justiça, principalmente social, para fortalecer a base dominadora.

A distância é o reflexo de um sistema tecnocrático que não permite que o progresso econômico ascenda paralelamente ao social para projetar, nessa transição, padrões culturais que reconstruam memórias e, assim, restaurarem uma sociedade esfacelada pelo preconceito, desrespeito ao humano e aos limites da natureza para que sobressaia a solidariedade.

É a partir desse aprendizado que a Ecologia Integral aufere sentido, porque a essência humana será emanada para proporcionar o equilíbrio numa sociedade descompactada pelas ferramentas digitais, que, mesmo rompendo a distância entre as pessoas, não descarta ideologias vãs, como racismo e preconceitos social, cultural e religioso.

A ausência de atitudes institucionais e
individuais intensifica o processo de destruição,
que é incitado pela ambição humana, que
entra em cena com ferramentas letais […]

A ausência de atitudes institucionais e individuais intensifica o processo de destruição, que é incitado pela ambição humana, que entra em cena com ferramentas letais: indústrias, principalmente de celulose, que devastam e poluem, impelidas pela estuação de ganhar cada vez mais e, assim, atender à bulimia de uma sociedade que abocanha o futuro das novas gerações sem refletir sobre os impactos negativos. Para agravar, o governo ignora o desenvolvimento sustentável e investe no agro, injeta recursos na indústria e estimula o crescimento das cidades, excitando ações humanas que restringem, cada vez mais, as reservas naturais.

Em um país onde a vontade dos dominadores prevalece, os beneficiados economicamente debelam e, como não se importam com meio ambiente, não adotam programas que restrinjam as desigualdades entre os seres vivos da própria raça humana, porque, se ressaltar a dignidade do outro, potenciais despontarão e asfixiarão a minoria autocrata.

A quem importa se a vida é agora? Porque ecologia não se harmoniza com desenvolvimento humano, pois, aos olhos de lince do capitalismo, que vislumbram além do amanhã, delineia-se, num futuro próximo, o quadro que se agravará, mesmo consciente de que a vida não se adapta a um planeta com restrição de água e alimento.

Se é por essas coordenadas que trilha a humanidade, para que falarmos de Ecologia Integral num cenário pervertido pela vontade de grupos minoritários? É arremessarmos palavras ao vento, porque o humano que acredita plantar o futuro hoje não entrevê, no presente, o desenvolvimento integral da geração que devasta sem pensar no amanhã.

Entre os entraves, o maior desafio: arrebatar do humano, que ostenta, como arma de defesa, o orgulho! E este é alimentado pelo altruísmo, que impele o homem a acreditar que pode tudo e faz tudo, a ponto de se tornar o maior gerador dos problemas ambientais! Porque agora é todo o tempo que lhe resta para alçar os lucros, extrair proveito de tudo, e, sem refletir no futuro, intensifica as atividades para se elevar a produção industrial e acelerar a urbanização.

Como não atenta em estreitar a relação humano-ambiental, por cobiçar o melhor prontamente, não reflete ao devastar biomas com queimadas, desmatamentos, hidrelétricas, poluição do ar, do solo, contaminação de rios e oceanos, porque o alvo é, tão somente, saciar a fome no agora, que assinala uma única regra: “Quem vir depois de mim e ambicionar viver que se adapte com o que deixei para trás!”.

Consciência? Para quê? O que tenho a ver com as novas gerações? Nada! O superego é minha trincheira de defesa! Por isso, vou abocanhar a minha fatia do planeta para satisfazer a gula incitada por um capitalismo que asfixia a consciência ambiental.

Pois, mesmo sendo vítima dos impactos incitados pela degradação da terra, que provoca o extermínio das biodiversidades e altera o clima do planeta, não se preocupa com os efeitos das ações que provocam perdas irreversíveis ao meio ambiente, o que, consequentemente, reflete na saúde humana!

Entre os entraves, o maior desafio: arrebatar do humano,
que ostenta, como arma de defesa, o orgulho!

O papel da educação

A educação tem papel crucial nesse processo, porque a ponta do iceberg está encravada na extremidade da ínsula escola. Se Ecologia Integral não for inserida no currículo escolar como incitadora da consciência de uma geração que é educada para não refletir no amanhã, para que o conhecimento desperte a consciência ecológica, prosseguiremos com projetos sem objetivos alcançados.

Precisamos de espaço para moradias? Claro! Necessitamos de áreas para produção de alimentos? É inevitável! Todavia, a Ecologia Integral, estreita a relação entre os desenvolvimentos urbano, agrícola e social com a natureza, interligando humano a outras vidas que formam a sua cadeia alimentar, pois suas características, mesmo tão distintas, interligam todas as vidas no extraordinário espaço denominado Terra.

Sua ótica, meramente sistêmica, é a garantia do viver, por assegurar a dignidade humana com o básico e ter como preceito os princípios do cuidado pelo outro, despertando em cada eu a necessidade de uma sintonia por meio da prática da cooperação e promovendo o desenvolvimento da beneficência.

Se o progresso não aliar a integridade ambiental, o que esperar das gerações que estão na carteira da escola, abocanhando ideias dos predadores-mor? Lhufas! Pois o progresso prosseguirá instigado pelo modelo tecnocrático, imperando o interesse econômico, e não o desenvolvimento voltado para atender à dignidade humana.

O que fazer?

Atrair os preceitos da Ecologia Integral para a sala de aula para satisfazer a ambição coletiva, para que a educação dilate olhares através da consciência ecológica, formando indivíduos que assumam o encargo social com ações que promovam o progresso sem agredir o lugar comum, por meio de atitudes que permitam que a empatia aproxime homem de natureza para que ética e autonomia fortaleçam um eu que não se orienta no próprio meio.

Tais ações despertam as comunidades para encarar as causas ambientais como hastes de sustentação social, porque lixo não é um problema tão somente dos gestores públicos. É primordial integrar práticas conscientes, como a reciclagem e a reutilização, para atingir o objetivo de proteger o meio ambiente e proporcionar qualidade de vida.

Nesse processo, a escola, é um instrumento importante para atrair famílias, empresas e a própria comunidade para adotarem práticas ambientais em casa e no bairro. O desafio é implantar, na escola do futuro, programas de consciência ecológica para despertar a consciência maior. Ambiente virtual é só para aprendizagem, porque a vida não necessita de ferramentas tecnológicas. Tais instrumentos facilitam o viver, contudo não ostentam a vida.

O que fazer para descauterizar mentes para compreenderem que a Ecologia Integral é o caminho a ser trilhado e, na sequência, alfabetizá-las para lerem, nas entrelinhas do horizonte, que ciências exatas e biológicas são linguagens que traduzem o grito dos biomas? É preciso educar aqueles que estão na carteira da escola para o despertar da consciência ecológica.

Para tal, a escola tem que remodelar seu processo de ensinar para formar para a vida. Porque viver é uma trajetória sequenciada por estações. O existir está agregado ao meio em que se vive, e este deve ser preservado para assegurar a subsistência das novas gerações.

Se não interligarmos tais estações, que asseguram a sustentação da vida à casa comum, o existir será uma trajetória de angústias e perdas, por meio de vidas interrompidas pelas ações de uma natureza revolta.

Nessa corrida pela vida, só há uma regra: preservar, para ostentar a própria vida humana, estabelecendo harmonia entre desenvolvimento econômico e meio ambiente, para que Criador e criatura se reconciliem para adaptar a vida com um viver pleno.

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