Edição 147
Em discussão
O PODER DO BEM-ESTAR:
um guia para redesenhar o futuro do trabalho
Renata Rivetti

Felicidade é intenção
Felicidade é uma construção e dependede autoconhecimento, autorresponsabilidade e disciplina. Tem mais a ver com a jornada do que com um momento específico.
Mas é possível definir exatamente quais escolhas, hábitos e atitudes podem nos trazer mais felicidades? Foi para responder a essa pergunta que Seligman criou o Permah.
Positive emotions, ou Emoções positivas
São os sentimentos de alegria, prazer e satisfação com a vida. De fato, uma parte da nossa felicidade vem dessa busca pelo prazer. Diversos estudos científicos comprovam que experiências que nos trazem prazer, como passear, sair com amigos ou meditar, produzem um efeito positivo no cérebro, o que melhora o humor e a sensação de bem-estar.
Engagement, ou Engajamento
O segundo pilar é o estado de flow — quando realizamos ações em que nos sentimos engajados e não percebemos o tempo passar. É possível alcançar esse estado ao buscar atividades que nos desafiam, porém que estão dentro das nossas capacidades. Se não houver desafio, nos entediamos. Se são muito difíceis, ficamos ansiosos. Precisamos exercitar o autoconhecimento para entender no que somos bons. A recomendação de Seligman é focar nas paixões, nos talentos e no ser autêntico e encontrar o que lhe traz engajamento.
Relationships, ou Relacionamentos
Apesar de sermos uma sociedade hiperconectada, nunca nos sentimos tão solitários — e não são poucos os estudos que indicam isso. Temos milhares de seguidores nas redes sociais, e ninguém nos dá a mão quando precisamos. Busque construir relações positivas e, quando conquistá-las, valorize-as. Esse é o maior preditivo da felicidade.
Meaning, ou Significado/ Propósito
Todos precisamos de um chamado, uma missão, um propósito, o sentimento de que estamos conectados a algo maior que nós mesmos. Não caia na armadilha de achar que alcançará um propósito depois que parar de trabalhar, de se casar ou de alcançar alguma posição de destaque. Sentir que a vida tem significado está mais relacionado à jornada do que a uma grande e apoteótica chegada.
Accomplishment, ou Realizações
De nada adianta viver de sonhos e idealizações. Atingir metas, conquistar algo e progredir traz uma sensação de competência e sucesso.
Health, ou Saúde
O H foi adicionado mais tarde à sigla Permah e enfatiza a importância da saúde física no bem-estar mental.
Comer bem, praticar atividades físicas com regularidade e ter noites de sono de qualidade são fundamentais e influenciam de forma direta nosso desempenho e nossa satisfação.
Felicidade vem de experiências de prazer e propósito ao longo do tempo.
O que percebemos é que, ao integrar o modelo Permah nas práticas do local de trabalho, as organizações podem criar ambientes onde os colaboradores se destacam nas suas funções e desfrutam de um nível elevado de bem-estar e satisfação.
A verdade é que a felicidade é simples. Ela tem a ver com o dia a dia, com ser verdadeiro consigo mesmo e se conhecer. Está ligada a ter algo com o que sonhar, praticar boas ações, ser mais positivo e cuidar de si mesmo e das relações.
O mundo não é perfeito. A vida sempre apresenta desafios, as relações interpessoais não são fáceis, e nós, como seres humanos, ainda temos um viés negativo, que é a tendência natural do cérebro de dar mais peso às experiências e informações negativas do que às positivas ou neutras. Mas podemos buscar autoconhecimento e escolher a felicidade: viver o aqui e o agora, criar conexões mais profundas e abraçar as emoções positivas.
Hoje, trabalho com sustentabilidade humana e felicidade corporativa e levo esses conceitos e suas aplicações para organizações dos mais diversos setores.
Posso dizer que encontrei um propósito profissional, mas é importante ressaltar que nem sempre descobrir esse propósito exige uma mudança brusca na carreira, como aconteceu comigo. É um mito pensar que não se pode ter propósito trabalhando em uma grande empresa.
Quando relembro a época em que eu trabalhava em uma multinacional, reconheço que meu cargo de liderança impactava a vida de muitas pessoas, e eu sempre buscava construir algo que também fosse justo para os clientes.
Um propósito não precisa necessariamente ser nobre, disruptivo ou estar ligado a um empreendimento pessoal ou a organizações sem fins lucrativos. Essa crença leva muitas pessoas a abandonarem uma boa oportunidade.
No passado, eu acreditava que trabalhar com marketing traçando estratégias de venda para produtos não poderia ter um propósito elevado. Mas hoje, ao refletir sobre como eu impactava o meu entorno, percebo que havia um valor relevante e positivo em minhas ações. Qualquer um pode encontrar sentido no trabalho, sentir-se realizado e criar boas conexões.
Amy Wrzesniewski, psicóloga organizacional norte-americana, explica como podemos ver o trabalho de três formas: emprego, carreira ou missão.

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Em suas pesquisas, encontrou médicos totalmente comprometidos com sua ascensão profissional (carreira), outros que diziam trabalhar apenas para pagar as contas (emprego), e ainda no mesmo hospital havia aqueles que encaravam o trabalho como uma missão:
“Trabalho para curar vidas”, diziam.
Todos nós podemos encontrar nossa missão em atividades diárias. Eu acredito que a minha é ajudar as pessoas a criarem ambientes laborais e formatos de trabalho mais felizes, diversos e inclusivos, mesmo que, no dia a dia, eu tenha que resolver a contabilidade da minha empresa e fazer reuniões comerciais — tarefas que não me fazem, necessariamente, feliz. Porém, ao contrário do que as redes sociais podem demonstrar, felicidade não é sentir alegria 24 horas por dia. Na vida real, como seres complexos que somos, atravessaremos altos e baixos, experimentando emoções positivas e negativas o tempo todo.
Retomo aqui uma frase de Paul Dolan de que gosto muito e já citei neste livro: “Felicidade vem de experiências de prazer e propósito ao longo do tempo”.
Eu concordo totalmente com ele: são esses pilares que nos trazem felicidade.

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O trabalho pode ser uma das fontes para alcançar sentimentos de alegria e autorrealização, mas isso requer uma busca ativa de nossa parte.
REFERÊNCIAS
RIVETTI, Renata. O poder do bem-estar:
um guia para redesenhar o futuro do trabalho. Rio de Janeiro: Objetiva, 2025.
Renata Rivetti é fundadora da Reconnect Happiness at Work, que oferece consultoria e treinamento para organizações de diferentes setores e portes, como Unilever, Nestlé, Natura, Itaú e Vivo, e é parceira exclusiva da 4 Day Week Global no Brasil. É formada em Administração pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP) e tem pós-graduação em Psicologia Positiva, além de especialização em Estudo da Felicidade pela Happiness Studies Academy, liderada por Tal Ben-Shahar
