Edição 150
Matéria Âncora
O QUE A ESCOLA EMPREENDEDORA FAZ
Hamilton Werneck
“Entre a linearidade e a complexidade, a Escola Empreendedora fica com a segunda opção, sabendo que o mundo é complexo, caótico, estruturado por vezes, recorrente, intenso, dialético e muito parecido com os resultados das experiências de Ilya Prigogine, que redundaram na Lei da Precessão”
(Yus, 2003).
Isso tanto serve para constatar que as pessoas podem deixar de ser as mesmas depois de uma conferência ou curso devido ao choque de ideia ali verificado como também vale a afirmação da Madre Teresa de Calcutá: “Ninguém tem o direito de sair de perto do outro sem deixá-lo melhor”.
A suposição básica de uma Escola Empreendedora é a de que esse ato educacional com vistas às transformações muda a pessoa, muda o meio e está aberto às diferenças imprevisíveis que se apresentarem durante o processo. Uma escola assim estará mais fixada no processo do que, propriamente, no produto.
Outro pensamento importante é o de Buda: “Aprender é mudar”.
Uma Escola Empreendedora sabe de suas obrigações legais, diante da legislação de ensino, porém tem certeza de que precisa abrir espaços para a criatividade. Ela precisa agir como a empresa que oferecia aos seus empregados 20% do tempo da semana para inventar. Nesse tempo, não se produzia, pensava-se no futuro, era tempo para a criatividade e para esse ócio criativo de que tanto nos fala Domenico de Masi no livro O futuro do trabalho. O resultado nós conhecemos. Um dos funcionários, o turco Orkut, iniciou um site de relacionamento conhecido pelo seu nome no mundo inteiro. Essa empresa fez o que as escolas deveriam fazer: ensinar a ser criativo no ócio e a ser especializado no que não existe. Portanto, uma Escola Empreendedora deve trabalhar além das matérias lecionadas. O que mais interessa é ser capaz de entender a metadisciplina.
Empreender dentro das escolas inclui duas coisas importantes em nossa consideração: ser capaz de atender às exigências curriculares fazendo constantes adaptações e ultrapassando-as para garantir a preparação ante o futuro desafiador.
Há dois anos, Bill Gates fez uma conferência e “profetizou”, diante da plateia, que nos próximos dez anos estavam por surgir oito das mais importantes carreiras com as quais a humanidade conviverá. Como já se passaram dois, teremos pela frente apenas oito anos.
O que as Escolas Empreendedoras ensinam em relação ao futuro é muito pouco. Precisam investir nesse campo. Ele é atraente e desafiador. Isso é mais importante que incutir medo nos alunos em relação às provas que serão aplicadas.
Com a ideia de que o conhecimento é riqueza e que os alunos devem estar preparados para ultrapassar situações ainda desconhecidas, essa escola estará segura quando trocar a certeza pela ambiguidade. Por sua vez, essa ambiguidade parte do indivíduo, de suas características próprias, suas diferenças em relação aos outros, sua capacidade de inventar.
Os erros nas Escolas Empreendedoras são fonte de conhecimento. Na cidade de Cajazeiras (PB), reuni-me com 150 educadores por uma semana. Todas as tardes eles escreviam uma síntese sobre o que aprenderam durante o dia e faziam comentários visando a aplicação à realidade. Dava-me a leitura após o jantar. Anotava em folha à parte todos os erros encontrados e analisava suas origens dentro daquele contexto, e, no dia seguinte, escrevíamos numa grande folha os textos corretos. Um sinal discreto nas sínteses escritas indicava as imprecisões. Todos viam durante a semana como seria o modo correto de escrever. Foi sensível a diminuição dos erros. Eles serviram para nosso aprimoramento sem alardes, sem rabiscos gigantes e sem a retirada de pontos, caso as sínteses tivessem notas. A síntese era um pequeno empreendimento a cada dia.
Todas as escolas têm os seus laboratórios. Se eles não existem em salas especiais, encontram-se na vida e no ambiente das pessoas. Explore isso e dê ênfase aos anseios dos alunos.
WERNECK, Hamilton. O que é a Escola
Empreendedora. Petrópolis: DP et Alii,
2007.
