Edição 100 Anos de Paulo Freire – Em defesa da vida

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Paulo Freire: uma história de vida

Targelia de Souza Albuquerque

Caros(as) leitores(as), professores e professoras de todos os brasis dentro deste nosso complexo e contraditório Brasil, nós estamos rumo ao centenário de Paulo Freire, que acontecerá no dia 19 de setembro de 2021, data em que se comemora o seu nascimento. Vamos caminhar juntos(as), pois “O caminho se faz caminhando” (FREIRE e HORTON, 2002), festejando a luta e na luta pela produção da existência humana. Podemos, assim, constituir um coletivo forte para, com Paulo Freire, ocupar as escolas e tantas salas de aula em diferentes lugares do País, transformando-as em espaços socioeducativos de produção da vida, de aprendizagem e construção de um “conhecimento-emancipação”, conhecimento prudente para uma vida decente, como explica Santos (2000).

A bela tessitura da Pedagogia Paulo Freire se consubstancia em um projeto de educação substantivamente democrática em uma sociedade digna, fraterna e justa, que se concretiza como síntese de múltiplas relações sociais dentro e fora da escola.

A assunção da Pedagogia Paulo Freire pela escola pode afirmá-la como um território social de relações dialógicas, de participação, de protagonismo crítico, de criatividade, de curiosidade epistemológica, do pensar certo, da pesquisa e da problematização constantes, da alegria, da generosidade e da amizade.

Uma escola de questionamentos; de perguntas sobre o que somos no mundo e em que mundo vivemos; quais as nossas opções éticas; de que currículo estamos falando, no qual ciência, tecnologia, política, ética e estética caminhem de mãos dadas em defesa da vida. Nessa escola, vida e liberdade são prioridades; o sujeito humano é de responsabilidade de todos e todas; não se permitindo jamais a opressão e a expropriação de sua vida e/ou de seus direitos de cidadania.

A Pedagogia Paulo Freire é co-laborativa (FREIRE, 1987); ela se funda na existência humana e se destina à sua emancipação. Nela não há lugar para a arrogância ou competição destrutiva. A simplicidade e a humildade como atos de coragem se integram às competências política, técnica, ética e estética (Rios, 1995). Se, de fato, for assumida por nós, com certeza trará mudanças não só locais, mas fortalecerá a participação, a formação política de docentes e discentes, garantindo o direito à educação para a qualidade social, como prática de liberdade.

A educação é um ato político, e política tem uma dimensão educativa: ambas são históricas e realizadas sob a responsabilidade de sujeitos éticos — seres de opção (FREIRE, 2000 a). O compromisso maior da pedagogia freiriana é com a Ética Universal do Ser Humano (FREIRE, 2007) e, nos dizeres de Dussel (2000), com a Ética da Libertação na idade da globalização e da exclusão.

Estamos rumo ao centenário de Paulo Freire. É um momento político-pedagógico de reconhecimento justo à vida e à obra desse grande educador, professor, gestor, escritor, assessor, cidadão do mundo e andarilho da esperança. Muitas organizações nacionais e internacionais estão (re)unidas para homenageá-lo, tornando cada vez mais visível o seu legado como estratégia fundamental à transformação da educação e da própria sociedade, em uma concepção democrática emancipatória.

pessoas_aula_minimalista_shutterstock_698241139__OneLineStock_[Convertido]A Editora Construir, comprometida com a formação dos professores e das professoras do Brasil, também se integra a esse movimento coletivo de celebração da vida, rumo ao centenário de Paulo Freire. Com uma publicação bimestral, que alcança mais de 150 mil professores(as), estará garantindo, em 2021, a presença de Paulo Freire na escola. Através de artigos e textos fundamentados na sua vida e sua obra, estimulará a criação de espaços dialógicos que podem mudar “a cara da escola”. Será uma “belezura”! (FREIRE, 2007).

Os olhos do mundo, em 2021, estarão voltados para o Recife/Pernambuco, cidade natal de Paulo Freire, pois, o seu centenário significa renascimento, produção de vida, resistência, denúncias e anúncios, em especial é um centenário de esperança.

Paulo Freire: Patrono da Educação Brasileira

Na primeira década do século XXI, Paulo Freire já tinha um vasto reconhecimento em mais de 150 países do mundo, através de inúmeras homenagens e honrarias públicas e privadas, a exemplo da Medalha Comenius (Genebra, Suíça, 1994) e do Prêmio Educação para a Paz (Unesco, Paris, 1986). A este lhe foram outorgados mais de 50 títulos de Doutor Honoris Causa pelas universidades mais creditadas e valorizadas no mundo inteiro. Seu livro Pedagogia do oprimido (originais em 1968, publicação nos Estados Unidos em 1969 e no Brasil em 1970) tem sido traduzido em mais de 36 idiomas, entre várias de suas obras (FREIRE, 2006). Isso o coloca como o autor brasileiro mais lido no mundo e o terceiro entre os internacionais.

No Brasil, esse reconhecimento ainda era tímido. Porém, em 2012, a conjuntura política do Brasil em favor da democracia social (re)colocou a educação como parte integrante desse projeto emancipatório de sociedade. Nesse contexto, o Congresso Nacional reconheceu a dívida histórica com Paulo Freire e lhe outorgou o título de Patrono da Educação Brasileira, pela Lei nº 12.612, de 16 de abril de 2012, um compromisso do País com milhões de trabalhadores e trabalhadoras que labutam pelo direito de ser respeitados(as) como educadores e educadoras, dentro e fora da escola, e construírem uma educação substantivamente democrática.

A biobibliografia de Paulo Freire é fascinante e educativa, como demonstra Gadotti (1996). Vamos (re)memorar alguns passos desse caminho que se faz caminhando e abrir novas trilhas com o apoio da revista Construir Notícias, Recife

O sonho de um mundo melhor nasce das entranhas de seu contrário.

Paulo Freire

Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.

Paulo Freire

Eu gostaria de ser lembrado como um sujeito que amou profundamente o mundo e as pessoas, os bichos, as árvores, as águas, a vida.

Paulo Freire

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Paulo Freire – um menino que aprendeu a ler o mundo

Paulo Freire nasceu no Recife, cidade litorânea do Estado de Pernambuco, na Região Nordeste do Brasil, no dia 19 de setembro de 1921, na Estrada do Encanamento nº 724, no bairro de Casa Amarela.

Recife cidade lendária, cidade do frevo e do maracatu [...]. Recife teus lindos jardins recebem a brisa que vem do alto-mar. Recife teu céu tão bonito tem noites de lua pra gente cantar. Recife de velhos casarões [...] Recife de cantadores [...]

Capiba, 1950

Capiba (Lourenço Barbosa), no seu samba-canção, lançado em 1950 por Paulo Molin, apresenta um Recife com uma beleza típica; cidade repleta de manguezais, frondosas mangueiras, jaqueiras, pitangueiras, de uma natureza verde que atravessa ruas e cerca antigos casarões; lampiões e acendedores são inseparáveis da poesia do entardecer recifense que vai se fazendo noite; Recife de rios que se encontram para formar o mar com suas pontes e sua arquitetura de beleza sem igual; e a deliciosa brisa que vem do mar, que acaricia cabelos e corpos apaixonados; Recife Veneza Brasileira!

Paulo Freire vai tornar visíveis as contradições da cidade que tanto ama, mas, quer torná-la eticamente bela. Ele desvela a pobreza extrema, alojada nos mocambos, nas palafitas e nos casebres que se equilibravam nas encostas dos morros, correndo frequentes riscos de barreiras desabarem no período de chuvas. Seres desumanizados que, em sua maioria, vivem em espaços com esgoto a céu aberto, sofrendo todos os tipos de privação. Sujeitos humanos invisibilizados pelo poder público e/ou explorados pelas elites dominantes, que carregam no corpo e na alma cicatrizes físicas e psicológicas por causa de tamanha opressão e expropriação de cidadania. É nessa linda “cidade lendária” que Paulo Freire, jovem, com um pouco mais de 20 anos, opta por lutar pelos oprimidos, articulando cultura, educação e liberdade. Como Paulo Freire chegou a essa decisão ética?

Ele nasceu em uma família de classe média; morava em uma casa confortável com um grande e belo quintal repleto de árvores frondosas, com boas condições de vida, graças também à ajuda financeira que a família recebia de seu padrinho (que tinha um comércio sólido e bem-sucedido no Rio de Janeiro). Seu pai, Joaquim Temístocles Freire (Tenente da Polícia Militar), era um pai amoroso e, sempre que podia, lia histórias, tocava violão e cantava para ele na hora de dormir. Sua mãe, Edeltrudes Neves Freire, dona Trudinha, cuidava da casa e de toda a família. Paulo Freire aprendeu a ler o mundo, antes da leitura das palavras, com a ajuda de seus pais, especialmente de sua mãe, com gravetos, à sombra das belas mangueiras do quintal. A observação de seu mundo de criança, a investigação do seu universo vocabular, o diálogo sobre a natureza e a alegria de aprender brincando foram as bases de seu processo de alfabetização. Com a leitura e a escrita das palavras, ele aprendeu o gosto pelo conhecimento e pelo estudo, pela família e pela vida! Paulo Freire, aos quatro anos, aprendeu a ler e, quando entrou na escola particular, aos seis, já sabia escrever.

Eunice de Vasconcelos, sua jovem e inesquecível professora! (GADOTTI, 1996). Ela foi considerada por Paulo Freire como a mais importante da sua vida, ensinou-lhe a formar sentenças, a brincar com as palavras, a interpretar as situações, colocando-se nelas e as compreendendo. A professora Eunice, na visão de Freire, despertou a sua curiosidade epistemológica para as diferentes manifestações da Língua Portuguesa e suas origens culturais, e o fez dar importância ao diálogo da linguagem erudita com a popular. Essas memórias o acompanharam durante toda a vida e se expressaram em várias de suas obras.

O menino que se descobre, descobre o mundo social e se faz homem ético

A conjuntura política e econômica nacional e internacional, com a quebra da Bolsa de Nova York, a depressão mundial, a Crise do Café, em 1929, atingiram, em profundidade, o Brasil. O padrinho de Paulo Freire não podia mais colaborar com a família, e esta, por questões de sobrevivência, encontrou na cidade de Jaboatão dos Guararapes, a 18 km do Recife, a sua nova morada. Uma casa simples; pouco espaço para a família toda; e muita dificuldade para sobreviverem. Em Jaboatão, Paulo Freire viveu uma segunda fase da sua vida. Ele sofreu em e com sua família; viveu a fome; a precariedade da habitação; e as dificuldades financeiras, que se acumularam e geraram novas preocupações. Aos treze anos, também, enfrentou a dor da perda, o luto pela morte do pai; acompanhou a viuvez precoce da mãe, que, sozinha, precisava sustentar quatro filhos com uma pensão baixíssima e lutava para conseguir escola para os filhos, em especial para Paulo Freire, que precisava entrar no curso secundário e que só o fez aos dezesseis anos (FREIRE, 2006).

Porém, foi em Jaboatão que Paulo Freire entrou em contato consigo, com novas pessoas e com a cultura popular. Lá, ele se reconheceu no mundo e com o mundo. De menino se fez homem. Paulo Freire foi menino de verdade; jogou futebol; sujou-se na terra molhada (antes, não admitia se sujar); fez amigos; e aprendeu a conversar, a ouvir, a problematizar, a argumentar, a dialogar, deixar aflorar a sua sexualidade, namorar e a ter determinação para alcançar seus objetivos. Ao observar as mulheres “lavadeiras da beira do rio”, descobriu a beleza do corpo das mulheres, mas as enxergou também como trabalhadoras em luta por sobrevivência e aprendeu a respeitá-las como ser humano. Foi também “Em Jaboatão que aprendeu a tomar para si, com paixão, os estudos das sintaxes popular e erudita da Língua Portuguesa” (FREIRE, 1999, p. 222).

A observação de seu mundo de criança, a investigação do seu universo vocabular, o diálogo sobre a natureza e a alegria de aprender brincando foram as bases de seu processo de alfabetização.

Escolarização secundária, universitária e formação profissional

Outro grande desafio para Paulo Freire foi cursar os estudos secundários no Recife. Depois de muitas dificuldades e longas peregrinações, dona Trudinha conseguiu uma bolsa de estudos em um dos melhores colégios do Recife à época, o Colégio Oswaldo Cruz, onde ele concluiu os estudos secundários (FREIRE, 1994). Nesse momento, a história de Paulo Freire foi se redesenhando e ampliando sua visão de mundo e de si mesmo: estudante, auxiliar de disciplina e professor de Língua Portuguesa no Colégio Oswaldo Cruz e ingresso na Faculdade de Direito do Recife foram os primeiros passos de sua caminhada profissional. A síntese feita por Beisiegel (2001, p. 79) descreve as trilhas desse percurso:

Em 1946, diplomou-se em Direito, mas não chegou a afirmar-se na advocacia. Foi professor de Português do Colégio Oswaldo Cruz e, em 1947, ingressou no recém-criado Sesi de Pernambuco, na diretoria do Setor de Educação e Cultura (SEC). Entre 1954 e 1957, assumiu a Superintendência da Instituição. Lecionou Filosofia da Educação na Escola de Serviço Social do Recife. Em 1959, candidatou-se ao concurso para provimento da cadeira de História e Filosofia da Educação da Escola de Belas Artes de Pernambuco. Apresentou a tese intitulada Educação e Atualidade Brasileira. [...] possibilitou a sua nomeação em caráter efetivo, no ano seguinte, para o magistério de Filosofia e História da Educação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Recife.

Segundo Albuquerque (2013), o período de 1960 a 1963 foi marcante na vida do jovem Paulo Freire. Lembrando aqui que, aos 23 anos (1944), ele já era casado com a professora Elza Maia Costa Oliveira. Eles tiveram cinco filhos: três filhas e dois filhos. Na visão de seu filho Lutgardes Costa Freire (2001), a família sempre foi essencial na sua vida. Ela era um espaço de diálogo e decisões coletivas, respeitando-se as singularidades.

Paulo Freire teve intensa participação em vários movimentos sociais com vistas à emancipação política do povo nordestino, articulando educação e cultura popular. Em maio de 1960, foi um dos intelectuais orgânicos com importante participação na constituição e nas atividades do Movimento de Cultura Popular (MCP), no Recife. A criação dos Círculos de Cultura e os Centros de Cultura do movimento foram ações realizadas, quando, em 1962, participou da criação e assumiu a Direção do Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife (SEC). As experiências educacionais vivenciadas nesses coletivos, em especial a dos Círculos de Cultura, possibilitaram a construção de projetos de alfabetização de adultos, a exemplo de Angicos, no Rio Grande do Norte (BEISIEGUEL, 2001).

Paulo Freire, em vida e através do registro em suas obras, reconheceu as contribuições da professora Alfabetizadora com larga experiência na área Elza Freire, sua esposa. Ela foi sua colaboradora nesse projeto de emancipação popular: a alfabetização política. Seu trabalho com o universo vocabular das crianças e leitura de mundo e com o método de palavração, lançava as primeiras sementes do Método de Alfabetização de Adultos. (Depoimento de Elza Freire, in: SOUZA, 2006.)

A experiência de Angicos/RN, pela sua pedagogia coletiva, inovadora e emancipadora, teve grande repercussão política e alcançou outras regiões do Brasil, sendo conhecida no mundo. As primeiras ações/aulas mais sistemáticas aconteceram no período de 24 de janeiro de 1963 a 02 de abril do mesmo ano; com a presença do presidente João Goulart, a sua quadragésima aula foi vivenciada. O método de alfabetização política em ação abrangia três

movimentos coletivos que abrageram o trabalho de acadêmicos, professores, monitores, entre outros: investigação do universo vocabular, tematização e problematização, que envolviam: imersão na realidade, compreensão crítica e emersão com tomada de decisão, construção de propostas de intervenção. Os 300 adultos alfabetizados em 40 horas pelo “Método Paulo” podiam ocupar seu lugar de cidadania pelo voto e ter ingerência nas decisões dos rumos do Brasil. Em meados de 1963, Paulo Freire foi convidado pelo Governo de João Goulart a coordenar a Campanha Nacional de Alfabetização de Adultos, que foi abortada pelo golpe militar, no Brasil, em 31 de março de 1964 (GADOTTI, 1996, FREIRE, 2006).

A prisão, o exílio e o retorno ao Brasil

Paulo Freire foi considerado, à época da ditadura militar, inimigo do Brasil. Após 72 dias na prisão, ao sair, sofreu graves ameaças a si e a sua família. Foi aconselhado a se exilar na Bolívia. Por motivos de golpe nesse país, foi para o Chile. No Chile, trabalhou em projetos de educação popular e produziu uma vasta literatura, articulando suas experiências no Brasil e no exílio. Uma de suas obras teve repercussão internacional, o livro Pedagogia do oprimido, cujos manuscritos datam de 1968. Posteriormente, foi traduzido e publicado nos Estados Unidos, em 1969; no Brasil, em 1970; e em mais de 150 países do mundo, com respectivas traduções (mais de 50 idiomas).

Como a repressão também atingia o Chile, Paulo Freire se mudou para os Estados Unidos a convite da Universidade Harvard; depois, foi para Genebra, na Suíça, integrando o Conselho Mundial de Igrejas. De Genebra, seus passos percorreram trilhas em diferentes países que ousaram conquistar a liberdade. Participou de processos revolucionários e assessorou a construção de projetos de educação como prática de liberdade, a exemplo de Guiné-Bissau e Cabo Verde, na África; transformou-se assim em Cidadão do Mundo, Andarilho da Esperança. A sua opção ética pelos “oprimidos e condenados da Terra” está presente na sua vida e obra e torna singular o seu legado (FREIRE, 2007).

O exílio foi um período muito doloroso para Paulo Freire e sua família, mas possibilitou também um renascimento cotidiano, molhado de resistência, amorosidade, memórias afetivas movedoras de vida e de um desejo imenso de voltar e transformar o Brasil em uma democracia radical, junto aos companheiros e às companheiras de luta (FREIRE, 1994). A conjuntura política do Brasil no final da década de 1970 anunciava a possibilidade do retorno ao seu país após quase 18 anos de exílio. Porém, a cidadania brasileira só lhe foi oficialmente restituída em 24 de setembro de 1980. Ao chegar ao Brasil, declarou: “Preciso reaprender a conhecer o Brasil”. (Depoimento de seu filho Lutgardes Freire, in: SOUZA, 2006 e FREIRE, 2006.)

Paulo Freire teve intensa participação em vários movimentos sociais com vistas à emancipação política do povo nordestino, articulando educação e cultura popular.

No Brasil, de 1980 a 1997, enfrentou situações paradoxais: o desejo de colocar em prática os projetos tecidos e/ou experienciados no exílio e a dilacerante dor do luto — sua esposa, companheira de lutas e verdadeiro amor de sua vida, a mulher determinada e amorosa Elza, faleceu em 24 de outubro de 1986. Foram anos muito difíceis na vida do homem e educador Paulo Freire.

Mas a vida segue o seu rumo e, para quem tem ideais fortes, o “mesmo” sofrimento que debilita pode tornar o ser humano mais forte. Foi assim que Paulo, com o companheirismo e o amor de Ana Maria de Araújo, sua nova esposa (núpcias em 27 de março de 1988), o apoio de sua família, dos(as) companheiros(as) de trabalho e sonhos, se revigora e, impulsionado pela esperança, retoma as rédeas da sua visceral coragem em defesa da sua vida e de muitos(as) brasileiros(as).

Nesse período, ele lecionou na Universidade de Campinas, integrou como docente o Programa de Pós-graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), foi secretário Municipal de Educação da cidade de São Paulo (1989–1991) e construiu um legado biobibliográfico a ser comemorado no seu centenário que, com certeza, continuará educando vidas geradoras de vida. Paulo Freire com apenas um olhar, um gesto com as mãos, poucas palavras e sua autenticidade e singularidade tocava vidas. Por essa razão, ele reafirma que o simples gesto de um(a) professor(a) pode transformar a vida de um(a) estudante, colaborando com a sua formação plena (ALBUQUERQUE, 2001).

A presença de Paulo Freire na escola e em diferentes espaços educativos: caminhos para a liberdade

A produção escrita de Paulo Freire, além de vasta, tem a capacidade de abrir o diálogo com diferentes culturas e diversidade dos povos. Sua vida e obra são inseparáveis. Entre várias obras publicadas no Brasil, destacamos algumas: Educação e atualidade brasileira; Educação como prática de liberdade; Pedagogia do oprimido; Extensão ou comunicação?; Ação cultural para a liberdade e outros escritos; Cartas à Cristina; Cartas à Guiné-Bissau; Educação e mudança; A importância do ato de ler em três artigos que se completam; Educação na cidade; Pedagogia da esperança: uma releitura da Pedagogia do oprimido; Política e educação; Professora sim, tia não; Conscientização; À sombra desta mangueira; Pedagogia da autonomia; Pedagogia da indignação. O conjunto da obra de Paulo Freire traz produções de sua autoria e obras que se constituíram com e em diálogo com vários(as) autores(as). Isso abriu inúmeras trilhas de releituras, interpretações, críticas e atualidade do pensamento de Freire, gerando inúmeros outros trabalhos nacionais e internacionais, intensificando pesquisas teóricas e de campo na área da educação, entre outras.

O legado de Paulo Freire em vida se prolonga para além de sua morte física, que ocorreu em 02 de maio de 1997, pois, ele continua vivendo entre nós, iluminando caminhos, em nome da liberdade, da vida livre, da democracia, do diálogo amoroso entre homens e mulheres.

Dialogar é ato de liberdade. Liberdade é movimento em defesa da vida de sujeitos humanos e não humanos, da natureza, da mãe Terra; liberdade é práxis; é olhar o ser humano como irmão em sua singularidade, como igual; é respeitar, jamais discriminar. Liberdade é compreender as contradições sociais, os condicionamentos, e se reconhecer como sujeito no e do mundo em relação com as outras pessoas e, por isso mesmo, factível à transgressão ética. Liberdade é opção, é saber de que lado eu vou ficar para resistir, intervir, lutar e defender uma sociedade substantivamente democrática. Liberdade é jamais permitir a fome, desonra, discriminação seja lá de qual tipo for, pois, enquanto houver alguém infeliz, sofrendo por tentativa de extermínio da sua identidade de sujeito humano, não haverá condições de paz. Liberdade é ser capaz de amar e receber amor, através do diálogo crítico, aberto, franco e generoso. Liberdade é exercer a humildade de sonhar e de reconhecer o sonho do outro como algo tão importante como o seu; é sonhar junto, e este sonho ganha status de utopia porque passa a pertencer a todos(as).

Targelia de Souza Albuquerque é Doutora em Educação: currículo pela PUC/SP; Mestre em Educação Brasileira e Formação de Professor, PUC/RJ; membro da Cátedra Paulo Freire da UFPE; professora formadora e coordenadora de projetos solidários do Centro Paulo Freire Estudos e Pesquisas (UFPE); professora aposentada da UFPE; e escritora de livros infantojuvenis à luz dos princípios freirianos.

E-mail: targeliaalbuquerque@gmail.com

Zeneide Silva é coordenadora da revista Construir Notícias

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