Edição 148
IAprendizagem
Professor, é hora de falar da educação midiática
Isadora Bandeira de Melo Altoé
Mariana Vieira de Araújo

Ilustrações: PureSolution – stock.adobe.com
Em um mundo cada vez mais conectado, o uso das tecnologias digitais já faz parte da rotina dos nossos estudantes — e da nossa também, como professores! A todo momento, recebemos mensagens no WhatsApp, assistimos a vídeos curtos, acompanhamos notícias no telejornal ou nos deparamos com declarações polêmicas nas redes sociais. Ou seja, vivemos mergulhados em diferentes fluxos de informação que influenciam diretamente a forma como lemos, escrevemos, falamos e nos posicionamos.
Essa realidade traz impactos diretos para o trabalho pedagógico. No cenário pós-pandêmico, por exemplo, muitas interações passaram a acontecer mediadas por telas, plataformas e aplicativos. Com isso, surgiram novas formas de comunicação, de participação e de consumo de informações. Essas mudanças chegaram com força à sala de aula e ampliaram as demandas sobre o campo linguístico e comunicacional, exigindo dos estudantes, e de nós, docentes, maior domínio crítico e uso responsável das mídias.
É nesse contexto que a Educação Midiática ganha destaque. Trata-se do desenvolvimento intencional de competências e habilidades voltadas à cidadania digital. Em termos práticos, significa ensinar os estudantes a lerem criticamente o que circula na Internet, a verificarem informações, a compreenderem intenções comunicativas e também a produzirem conteúdos de forma ética e segura. A Educação Midiática vai além do incentivo ao uso frequente e constante da tecnologia: ela propõe formar sujeitos capazes de participar de maneira consciente e responsável da cultura digital.
Quer saber mais sobre a definição de Educação Midiática? Acesse o link e ouça o podcast POD20 Brasil #26 – Educação Midiática, organizado por Carlos Alberto Jr., com a participação de Fábio Meirelles, diretor de Direitos na Rede e Educação Midiática da Secretaria de Políticas Digitais.
Como objetivos principais da implementação da Educação Midiática na escola, o Educamídia, programa brasileiro de capacitação de educadores, elenca os seguintes pontos benéficos para a comunidade interna escolar:
Para o estudante
• Analisar de forma crítica, e habitualmente, os textos de mídia em qualquer formato, desde impressos aos disponibilizados na Internet.
• Compreender os mecanismos de busca, curadoria e produção de conhecimento.
• Acessar ampla gama de ferramentas digitais e ter flexibilidade para encontrar e adaptar-se a novas ferramentas.
• Aplicar o conhecimento do ambiente informacional e midiático a fim de solucionar problemas para o exercício da cidadania e autoexpressão.
• Criar peças de mídia fundamentadas em escrita técnica ou criativa bem desenvolvida, de forma ética e responsável.
Para o professor
• Explorar novas abordagens pedagógicas proporcionadas pelas tecnologias de informação e comunicação.
• Promover uma cultura de aprendizagem que estimule a curiosidade e o aprendizado contínuo.
• Facilitar a aprendizagem significativa, fazendo uso de recursos de mídia.
• Guiar os estudantes para práticas éticas, legais e seguras no ambiente digital e fora dele.
• Criar experiências engajadoras que levem os estudantes a participarem da sociedade e, com ela, contribuírem de maneira crítica, ética e responsável.
Dessa forma, incorporar a Educação Midiática ao cotidiano escolar, como propõe o Educamídia, significa oferecer ao professor caminhos práticos para tornar suas aulas mais significativas e conectadas à realidade dos estudantes. Ao trabalhar a leitura crítica da mídia, uso ético das tecnologias e produção de conteúdos em sala de aula, o docente contribui para formar estudantes mais autônomos, participativos e preparados para lidar de forma responsável com as informações que circulam na sociedade.
O que a lei e os documentos falam sobre a Educação Midiática?

Ilustrações: PureSolution – stock.adobe.com
O Governo Federal publicou o Decreto nº 12.385/2025, que regulamenta a Lei nº 15.100/2025 e estabelece diretrizes para o uso de celulares e dispositivos eletrônicos nas escolas de Educação Básica.
Além de organizar a utilização desses aparelhos no ambiente escolar, o decreto reforça a importância da Educação Midiática e Digital como parte do processo formativo, incentivando práticas pedagógicas intencionais e alinhadas ao desenvolvimento de competências críticas.
Com a regulamentação, as instituições passam a contar com diretrizes mais claras para integrar tecnologia, aprendizagem e cidadania digital em suas rotinas.
É importante frisar que a regulamentação institui não apenas novas diretrizes, mas também oferece medidas de capacitação aos professores. Assim, será possível aplicá-las de maneira produtiva, priorizando o foco pedagógico, o bem-estar dos estudantes e o uso responsável da tecnologia.
Quer saber mais? Acesse pelo site o decreto na íntegra, disponível no portal oficial do Ministério da Educação
A Educação Midiática na prática
Antes do trabalho com atividades que envolvam mídias digitais, é importante que você, professor, reconheça que a Educação Midiática não se resume ao uso de tecnologias. Ela é uma abordagem pedagógica que integra análise crítica, produção autoral e reflexão sobre os modos como a informação circula na sociedade. Nesse processo, o seu papel é central: você cria as mediações necessárias para que os estudantes deixem de ser apenas consumidores de conteúdos e passem a atuar de forma mais consciente e ética no ambiente digital.
No contexto escolar, a Educação Midiática pode ser incorporada por meio de estratégias didáticas viáveis e alinhadas à realidade de cada turma. O mais importante nisto é planejar situações em que os estudantes coloquem a mão na massa, isto é, analisem mensagens, identifiquem intencionalidades, produzam seus próprios conteúdos e reflitam sobre os impactos sociais das tecnologias. A seguir, você encontrará exemplos práticos que podem inspirar e apoiar a implementação dessa abordagem em sala de aula.
Produção de podcasts
A produção de podcast pelos alunos é uma prática potente de Educação Midiática porque envolve pesquisa, planejamento e autoria.
Na prática, os estudantes:
1. Pesquisam o tema.
2. Escrevem o roteiro.
3. Gravam episódios.
4. Compartilham os resultados com toda a comunidade escolar.
Ao longo do processo, desenvolvem a oralidade, a curadoria de informações e o pensamento crítico, além de compreenderem como se constrói um produto midiático.
Checagem de fake news
A checagem de fake news coloca os estudantes em contato direto com um dos maiores desafios do ecossistema informacional contemporâneo.
Na prática:
1. O professor apresenta uma notícia viral.
2. Os estudantes investigam fonte, data, autoria.
3. Utilizam sites de fact-checking.
4. Produzem relatório ou vídeo explicativo.
Ao longo do processo, desenvolvem a leitura crítica, o letramento informacional e o senso de cidadania digital. Para validação das informações, há ferramentas úteis, como o Google Fact Check, Lupa e Aos Fatos.
Análise crítica de posts de redes sociais
A análise crítica de posts de redes sociais ajuda os estudantes a compreenderem que toda publicação tem intencionalidade. Nessa prática, a turma examina conteúdos de plataformas digitais para identificar quem produziu a mensagem, para qual público ela se dirige e com qual objetivo foi criada.
Na prática:
1. Os estudantes analisam quem produziu o post.
2. Verificam a intenção do post (Vender? Persuadir? Informar?).
3. Discutem uso de imagem, música, edição e refletem sobre algoritmos.
Perguntas-guia para estudantes:
1. Quem fala?
2. Para quem fala?
3. Com qual objetivo?
4. O que está em destaque?
5. O que ficou de fora?
Esse exercício amplia a consciência dos estudantes sobre consumo midiático e desenvolve a leitura crítica e o letramento informacional.
Criação de jornal digital ou mural informativo
A criação de jornal digital ou mural informativo transforma a turma em uma pequena redação.
Na prática:
1. Os estudantes dividem as funções (repórter, editor, designer).
2. Publicam em blog ou mural.
3. Discutem sobre critérios de noticiabilidade.
Durante o processo, os estudantes discutem os critérios de noticiabilidade, a responsabilidade informativa e a ética na comunicação, compreendendo melhor o funcionamento do campo jornalístico. Além disso, revisam os gêneros jornalísticos.
Uso crítico da inteligência artificial

Ilustrações: PureSolution – stock.adobe.com
O uso crítico da inteligência artificial propõe que os estudantes não apenas utilizem ferramentas de IA, mas reflitam sobre elas.
Na prática:
1. Comparar texto humano versus texto produzido por IA.
2. Discutir vieses.
3. Refletir sobre autoria.
4. Revisar respostas da IA.
Durante a realização da atividade, é importante frisar que se deve questionar a tecnologia, não apenas utilizá-la abertamente. Dessa forma, ela deixa de ser vista como neutra e passa a ser objeto de análise consciente.
Investigação sobre algoritmos
A investigação sobre algoritmos permite que os estudantes compreendam como as plataformas digitais organizam e recomendam conteúdos.
Na prática:
1. Os estudantes observam feed por alguns dias.
2. Registram padrões.
3. Discutem bolhas informacionais.
4. Produzem relatório.
Ao longo do processo, desenvolvem a leitura crítica e compreendem como o algoritmo recebe dados de entrada a partir de pesquisas do usuário, processa essas informações e gera um resultado.
Conclusão
É inegável o quanto a Educação Digital e Midiática se faz necessária no contexto em que vivemos. Muitos de nós, educadores, fomos inseridos nesse novo cenário tecnológico de maneira abrupta, sem tempo para compreender, com profundidade, os impactos dessas transformações no processo de ensino-aprendizagem.
Por isso, investir em formação continuada nessa área torna-se ainda mais urgente. A Educação Midiática não é uma pauta passageira, mas uma demanda permanente da sociedade contemporânea. Todos nós precisamos aprender de maneira contínua a lidar com os desafios, as possibilidades e as responsabilidades que as tecnologias nos impõem diariamente.
Formar um estudante crítico, capaz de analisar o que vê, questionar o que lê e utilizar as ferramentas digitais de forma ética e consciente, é uma missão coletiva. E é também um processo de construção conjunta. Professor, na mesma medida em que você ensina, você também aprende.
Ao aprofundarmos práticas concretas e intencionais de Educação Midiática, vamos desvendando as nuances desse novo território digital. Assim, poderemos usufruir das tecnologias com um olhar investigativo, crítico e produtivo, formando sujeitos preparados não apenas para consumir informações, mas para participar ativamente da sociedade de maneira responsável e transformadora.
BRASIL. Decreto nº 12.385, de 18 de fevereiro de 2025. Regulamenta a Lei nº 15.100/2025 e dispõe sobre o uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais nas escolas de Educação Básica. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/celular-escola/legislacao. Acesso em: 27 fev. 2026.
BRASIL. Ministério da Educação. Guia para o planejamento da adoção de dispositivos tecnológicos nas escolas. Brasília: MEC, 2025.
BRASIL. Ministério da Educação. Guia para o uso de celulares na escola: guia para as escolas. Brasília: MEC, 2025.
BRASIL. Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. POD20 Brasil #26 – Educação Midiática. Brasília: G20 Brasil, 10 set. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/g20/pt-br/noticias/pod20-brasil/pod20-brasil-26-educao-miditica. Acesso em: 27 fev. 2026.
Isadora Bandeira de Melo Altoé atua como assessora de editoria digital no Grupo Editorial Construir e é licenciada em Letras (Português) pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Mariana Vieira de Araújo atua como assessora de editoria digital no Grupo Editorial Construir e é licencianda em Letras (Português) pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
