Edição 137
Projeto Didático
Projeto de integração entre gramática e literatura clássica ensino fundamental – Anos iniciais
Josefa Jaqueline Silvestre de Lima
INSTITUTO EBENÉZER
Diamante/PB
Projeto de Língua Portuguesa aplicado na turma do 3° ano do Ensino Fundamental, no ano de 2023, do Instituto Ebenézer, escola da rede privada de ensino de Diamante/PB.
Resumo
Ser professor de Língua Portuguesa é um desafio diário, pois, além da responsabilidade de ensinar sobre a nossa língua nativa, constantemente somos surpreendidos com o medo de alguns alunos ao terem de lidar com regras e padrões de “certo e errado”. O primeiro contato de uma criança com a língua portuguesa jamais deveria causar medo e recusa ao aprender; como diz o ditado, “A primeira impressão é a que fica”, e, como na maioria das vezes esse primeiro contato já é por meio de infinitas regras, as chances de essa criança ter medo de aprender língua portuguesa são extremamente altas. Então, nós professores de Língua Portuguesa precisamos e devemos procurar meios de conquistar o aluno à aprendizagem da língua sem que ela pareça apenas um emaranhado de regras que, possivelmente, não será utilizado em outro momento a não ser nas atividades de sala de aula. Foi a partir desse pensamento que houve a integração do ensino da gramática com a literatura clássica, partindo do gênero textual poema. O que gerou não somente a aprendizagem de regras gramaticais, mas também conhecimento de um clássico, Navio negreiro; enriquecimento do vocabulário dos alunos; compreensão e interpretação do poema; conhecimento da estrutura poética; entendimento do contexto histórico da obra e da biografia do escritor; conhecimento da estrutura de textos teatrais; melhora da oratória, dicção e memória dos alunos; e, uma vez que o trabalho teve como tema Consciência Negra, conhecimento da história e contextualização do assunto.
Introdução
A língua portuguesa é formada por uma imensidão de particularidades, regras, exceções, variações. E todas essas características contribuem para que ideias negativas acerca da aprendizagem dela se fixem em nossa mente, principalmente se estivermos na fase estudantil. Como professora de Língua Portuguesa, uma das falas que mais escuto dos meus alunos é “Português é muito difícil” ou “Nunca vou aprender isso, professora”. E, diante desse cenário, senti-me na obrigação de estudar formas de ensinar Língua Portuguesa de um modo que não se torne apenas um fardo, mas que seja algo que contribua significativamente para o crescimento intelectual e até pessoal de cada aluno, já que não se trata apenas do ensino de uma disciplina escolar, mas da língua que rege nossa interação e convivência social.
A partir das considerações sobre o tema, iniciei uma observação mais assídua sobre como meus alunos mantinham contato com diferentes partes do estudo da Língua Portuguesa em sala de aula, como agiam e interagiam nas aulas de Gramática e nas aulas de Literatura. Por meio das falas críticas sobre o estudo da língua e das observações que realizei, dei início a uma pesquisa mais profunda sobre a recusa ao estudo da Língua Portuguesa, e foi a partir dessa pesquisa que me veio a pergunta-chave que desencadeou este rico projeto que aqui descrevo: “Por que separamos o ensino da Gramática do ensino da Literatura se podemos unificá-los, gerando mais conhecimento e aceitação por parte dos alunos?”.
A observação e a parte inicial da prática
Ao explicar determinado conteúdo gramatical aos meus alunos, observava que, além da dificuldade de fixação, antes mesmo da avaliação para nota boa parte do que tinha sido explicado era completamente esquecido, pois muitas frases que eram utilizadas como exemplos nas explicações eram pensadas exclusivamente para aquele contexto da regra, mas dificilmente eram encontradas nos textos lidos e no dia a dia. Então, comecei a trabalhar de forma diferente: antes de explicar determinado assunto gramatical, um texto literário clássico era escolhido, trabalhado, compreendido e interpretado, e, após isso, o estudo da gramática era aplicado. O resultado foi notável já nas primeiras aulas. Ressalto que a escolha de textos clássicos contribui ainda mais, principalmente se forem poemas com linguagem formal, sendo necessário um bom planejamento para a escolha do texto, com atendimento a toda e qualquer dúvida dos discentes, pois, se conseguirem compreender “o difícil”, todo e qualquer texto de linguagem mais simples será imediatamente dominado.
O projeto na prática
O projeto foi iniciado no começo do mês de novembro de 2023, quando a escola já se preparava para as apresentações sobre a Consciência Negra. Nas duas primeiras aulas direcionadas ao projeto, introduzi, à turma do 3° ano, o tema Consciência Negra comentando sobre a criação divina e o respeito a todos, abrindo espaço para debate e questionamentos.
Nas duas aulas seguintes, levei o poema Navio negreiro, de Castro Alves, e pedi que os alunos o lessem. Em seguida, recitei-o e fiz os seguintes questionamentos, esperando respostas orais:
Já ouviram esse poema? Conheciam o título ou o escritor?
Conseguiram compreender algo do que foi lido?
Acham que esse poema fala de quê?
Obtive algumas respostas: “Entendi pouca coisa, mas acho que fala dos negros”; “Não entendi nada”; “Não conheço esse escritor”. Também fiz algumas perguntas sobre a estrutura do texto, e os estudantes responderam que se tratava de um poema, pois havia estrofes, mas que não compreenderam algumas palavras. Pedi que destacassem essas palavras não compreendidas e que, em seguida, fossem lendo cada uma. A partir disso, fui explicando as palavras de acordo com o contexto do poema.
Continuando o projeto nas seguintes aulas, fizemos uma análise minuciosa do poema, interligamos com o tema Consciência Negra e falamos sobre o contexto histórico da obra e sobre o escritor. A essa altura, os alunos já estavam familiarizados com o texto, compreendendo termos morfológicos, tais como substantivos, adjetivos, verbos, pronomes, mesmo a linguagem sendo rebuscada.
Após todas as aulas em que trabalhamos o contexto e fizemos a análise do texto, apresentei-lhes a ideia de encenarem para todo o público da escola, no dia da culminância das demais apresentações em alusão ao Dia da Consciência Negra.
A encenação
A encenação teve a seguinte estrutura: um professor de Língua Portuguesa havia passado um trabalho sobre o poema Navio negreiro, de Castro Alves, para a sua turma do 3° ano. O suposto trabalho consistia na recitação do poema e, em seguida, num breve debate sobre o que foi declamado. Desse debate, desenvolveram-se questionamentos, desencadeados pelo professor, sobre como devemos tratar os outros, independentemente da cor da pele, pois somos filhos de um só Deus. Nas referências deste texto, segue o link para acesso ao roteiro da peça.
Nas demais aulas, foram feitos vários ensaios e adaptações até chegarmos ao perfeito trabalho. Na segunda semana de ensaios, os alunos já sabiam suas falas, recitações, posições e gestos. Nos primeiros ensaios, todos tinham em mãos suas falas, para que pudessem decorar e saber o momento de falar, mas logo começamos os ensaios sem o papel e tivemos um bom desempenho, pois, em casa, também ensaiaram com seus pais.
No dia da apresentação, antes de a encenação ser iniciada, alguns alunos da turma do 3° ano entraram com plaquinhas com frases escritas que descreviam parte do que seria encenado e pedindo o silêncio do público. A seguir, seguem as imagens das plaquinhas na mesma ordem em que foram apresentadas.


Após os alunos com as plaquinhas entrarem, os que faziam parte da encenação foram se posicionando um após o outro. Por último, entrou o aluno representando o professor de Língua Portuguesa, que deu início à apresentação. Nas referências deste texto, segue o link para acesso ao vídeo da apresentação, postado no Instagram da escola.
Nesta parte do projeto, que envolveu a encenação, tivemos um excelente desempenho nas falas, inclusive as palavras que antes pareciam difíceis e desconhecidas passaram a ser pronunciadas com naturalidade, até porque, na própria peça, os alunos explicaram sobre do que se tratava a obra de Castro Alves Navio negreiro, além de explicarem também parte do poema.
O trabalho foi muito bem aclamado por todos da escola, principalmente por causa do excepcional desempenho da turma.
Considerações finais
Na semana após a culminância, vimos os notáveis resultados. Com a análise que realizamos do poema, os alunos conseguiram facilmente identificar substantivos, verbos, pronomes, apesar de a ordem direta das frases estar alterada. Identificaram algumas ações e logo relacionaram a verbos; notaram que parte do texto descrevia certas situações e características, que concluíram que se tratava de adjetivos. Quando não conseguiam identificar determinados termos, sabiam formular perguntas para que eu respondesse. Então, com um único plano, o êxito veio em diversas partes do ensino da Língua Portuguesa, bastou planejamento, observação e pesquisa.
Muitas vezes, nosso fracasso como professores de Língua Portuguesa ocorre porque não procuramos boas maneiras de ensinar. Com esse projeto, conseguimos unir o tema Consciência Negra; estrutura poética; literatura; história e gramática, nas subdivisões de morfologia e sintaxe, além da ótima performance na recitação do poema e do aperfeiçoamento na oratória e na memória.
Portanto, a forma mais eficaz de ensinar Língua Portuguesa é não isolar suas partes, mas uni-las a fim de alcançar um conjunto de aprendizagem.
Links para o acesso de arquivos
Link do roteiro da encenação:
https://drive.google.com/file/d/1zWWvxXptg5oOCfgjmM85G3yKltiIZZjK/view?usp=drivesdk
Link do vídeo da encenação:
https://www.instagram.com/reel/CzyrBt2uxlL/?igsh=amdla21hYnZrbXQ5
Josefa Jaqueline Silvestre de Lima é professora de Língua Portuguesa do Instituto Ebenézer, em Diamante, na Paraíba.
E-mail: jaqueline.silvestre09@gmail.com
