Edição 85

É dia...

Dia Mundial da Filosofia

Mauro Sérgio Santos

quebra_cabeca_1Em 2002, a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Tecnologia) instituiu o Dia Mundial da Filosofia, comemorado sempre na terceira quinta-feira do mês de novembro; em 2015, dia 19.

A data é um convite para pensarmos como uma educação (filosófica) poderia iluminar as sombrias experiências educacionais de nosso tempo, assim como refletir sobre maneiras de tentar superar o obscurantismo intelectual, a alienação, a massificação da cultura, a ignorância, a insensibilidade, as intolerâncias e as amarras de uma sociedade do espetáculo que sobrepõe o ter em relação ao ser.

O sábio grego Aristóteles nos ensina que “A Filosofia começa com o assombro”, ou seja, com o espanto, a admiração. Filosofar é, pois, nesta perspectiva, perceber o mundo com os olhos de uma criança que acaba de ver um coelho saindo da cartola. Trata-se de notar o extraordinário e encantador de tudo que nos cerca; invisível à tagarelice consuetudinária.

Platão, discípulo de Aristóteles, por sua vez, propõe que a aventura da existência humana consiste em “sair da caverna”, superar, por meio da reflexão racional, a mera opinião (doxa), um conjunto de visões superficiais e medíocres a que estamos acorrentados no cotidiano.

A verdadeira filosofia consiste em reaprender a ver o mundo

Merleau-Ponty

Para René Descartes, pensador francês considerado um dos pais da modernidade, filosofar e duvidar são atividades correlatas. Para o filósofo racionalista, a dúvida é método, isto é, caminho para a verdade.

quebra_cabeca_2Na esteira da proposta cartesiana, inúmeros outros pensadores contemporâneos também nos convidam a desconfiar da superficialidade das percepções que temos do mundo, dos seres, das coisas que nos circundam. Marx, Nietzsche e Freud, pensadores conhecidos como “mestres da suspeita”, seguidos por outros nomes como Sartre e Foucault, demonstram que o mundo em que vivemos, no mínimo, não vai bem e que notadamente não pode prescindir do fogo abrasador da reflexão filosófica.

Faz-se mister suspeitar, desconfiar, questionar, investigar, buscar causas, refletir com profundidade, caminhar com “uma pulga atrás da orelha” em face de verdades aparentemente irrefutáveis e certezas absolutas; aprender com as incertezas… Atitudes filosóficas são extremamente salutares à prática educativa e à aventura da existência humana.

É evidente, no entanto, que nem a Filosofia, tampouco a Educação, se apresenta como a panaceia do mundo, como solução para todos os males. Como demonstra Paulo Freire, a Educação sozinha não pode transformar a sociedade. Entretanto, sem ela, defende Freire, a sociedade certamente também não muda.

Com o paradigmático Sócrates, aprendemos que uma verdadeira Educação não pode deixar de ser filosófica ao mesmo tempo que uma verdadeira Filosofia não pode deixar de ser educativa.

Nesse sentido, compreendemos que uma Educação efetivamente filosófica seguramente forneceria enorme contributo para a transformação desse dantesco cenário em que vivemos. “Da caverna à luz do Sol”, o caminho é árduo, mas belo e gratificante.

Mauro Sérgio Santos é autor do livro Camaleão: metapoesia, professor de Filosofia, mestrando em Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e membro da Academia de Letras e Artes de Araguari – MG.

Contato: mauro.filos@hotmail.com.

cubos