Edição 117

Professor Construir

Ludicidade e Afetividade

Isabel Viviane Lima

Introdução

O brincar começou a ser trabalhado na Educação Infantil associado ao carinho, à atenção e ao amor, como uma metodologia didática e pedagógica no século XXI; pois, antes, a criança era considerada uma tábula rasa, um adulto em miniatura. Ressaltar, na Educação Infantil, a importância das práticas pedagógicas que utilizam o lúdico e o afeto para a aprendizagem e o desenvolvimento com qualidade é primordial, pois essa dicotomia proporciona uma forma prazerosa de aprender.

Segundo as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil (DCNEI, BRASIL, Resolução CNE/CBE nº 5/2009), criança é um “sujeito histórico e de direitos, que interage, brinca, imagina, fantasia, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre a natureza e a sociedade, produzindo cultura”. Sendo assim, o educador, através da ludicidade e do afeto, deve, diariamente, cultivar a esperança, a alegria e a perseverança em suas aulas, mostrando-se atencioso com os seus alunos, levando em consideração a sua história, sua cultura, suas conquistas e as suas dificuldades — para que, assim, possam construir sua aprendizagem e apropriar-se de novos conhecimentos — e reconhecendo cada um como ser ativo, histórico e social. criancas_brincadeiras_brinquedos_ludico_shutterstock_1617599548_Rogerio_Shindi_Tanaka_[Convertido]-03

CONTEXTO HISTÓRICO DA LUCIDADE

A palavra ludus é de origem latina, traduzida para o português significa lúdico, sendo sinônimo de brincadeiradiversão e jogo. O ensino lúdico tem passado por uma longa jornada e quebrado preconceitos e barreiras do tradicionalismo.

• No século XV, a escola se transformou em uma instituição de ensino com o objetivo de instruir e formar crianças e jovens, levando em consideração as descobertas.

• No século XVI, iniciaram-se as tentativas de relacionar jogos e brincadeiras com a criança, isso graças ao surgimento do sentimento de infância.

• Já no século XVII, o pensamento educativo se renova, os currículos são modernizados, as classes são organizadas por idade, e os programas e métodos são socializados.

• No século XVIII, foi consolidada a perspectiva do jogo para a educação da criança.

• No século XIX, com a influência da organização da política econômica e social vinculada à Abolição da Escravatura, à Proclamação da República e à migração da população para a zona urbana, o Brasil começa a se preocupar com o cuidado e a educação da criança pequena.

• No início do século XX, a ludicidade gerou uma confusão, pois os professores achavam que o lúdico era apenas utilizar materiais concretos.

• A partir de 1930, no Brasil, os professores usavam os jogos dirigidos e articulados para transmitir os conteúdos escolares, podando a ação lúdica.

• Na década de 1940, foi criada, para atender crianças carentes, a recreação em parques infantis, juntamente com o cuidado e a educação das crianças.

• Na década de 1970, acreditava-se que as crianças pobres tinham carências devido à privação cultural e que elas deveriam ser compensadas pela escola.

• Na década de 1980, as creches e pré-escolas ficaram com a função de cuidar e educar, elaborando uma nova ação pedagógica, destacando o desenvolvimento cognitivo e linguístico das crianças.

• A tendência cognitiva na década de 1990 foi baseada nos trabalhos de Jean Piaget, que foi grandemente divulgado nos cursos de formação de professores e que enfatizava a construção do pensamento infantil no desenvolvimento da inteligência e da autonomia. Tanto na década de 1980 quanto na de 1990, buscava-se a alfabetização trabalhando o desenvolvimento cognitivo.

O lúdico vem conquistando o seu espaço, e atualmente o profissional de educação que é atualizado, criativo e inovador é o que mais desperta o interesse dos seus alunos.

Consoante na Base Nacional Comum Curricular (2017) apud Portal Ministério da Educação (2017):criancas_brincadeiras_brinquedos_ludico_shutterstock_1617599548_Rogerio_Shindi_Tanaka_[Convertido]-04

Na primeira etapa da Educação Básica, e de acordo com os eixos estruturantes da Educação Infantil (interações e brincadeira), devem ser assegurados seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento, para que as crianças tenham condições de aprender e se desenvolver: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se. Considerando os direitos de aprendizagem e desenvolvimento, a BNCC estabelece cinco campos de experiências, nos quais as crianças podem aprender a se desenvolver: o eu, o outro e o nós; corpo, gestos e movimentos; traços, sons, cores e formas; escuta, fala, pensamento e imaginação; espaços, tempos, quantidades, relações e transformações. Em cada campo de experiências, são definidos objetivos de aprendizagem e desenvolvimento organizados em três níveis: bebês: de zero a um ano e seis meses; crianças bem pequenas: um ano e sete meses a três anos e onze meses; crianças: de quatro anos a cinco anos e onze meses (PORTAL MEC, 2017, págs. 22 e 23).

O educador, ao fazer o seu planejamento embasado nesses direitos de aprendizagem e desenvolvimento e nos respectivos campos de experiências, com um plano flexível e trabalhando a ludicidade, respeita o espaço, a rotina, a cultura, as tradições, enfim, a região que as crianças habitam, valorizando a singularidade e a criatividade de cada discente.

AFETIVIDADE E COGNIÇÃO

educar é sinônimo de tolerânciaacolhimento afeto com o próximo, e é através desses sentimentos que são construídos valores. Praticar a generosidade em sala de aula é ensinar o educando a amar, cuidar e compartilhar com o outro. Provocar a criança para a socialização é oferecer desafios, estimular a pensar, desenvolver habilidades múltiplas. Piaget defende a dicotomia inteligência
e afetividade como uno no desenvolvimento psicológico, destacando que as construções cognitivas e afetivas são indissociáveis, pois, se não tem afeto, não existe interesse nem motivação para aprender. Os aspectos afetivos estão associados às pessoas; enquanto os aspectos cognitivos, aos objetos; e, em ambos, a afetividade e a inteligência estão presentes.

De acordo com Vygotsky (1993), quem separa, desde o começo, o pensamento do afeto fecha para sempre a possibilidade de explicar as causas do pensamento, porque numa análise se pressupõe descobrir motivos, necessidades, interesses, impulsos e tendências que regem o movimento do pensamento em um ou outro sentido. Vygotsky reconhece que os aspectos cognitivos e afetivos estão desde o princípio dialeticamente relacionados e integrados, pois a sua psicologia histórico-cultural estuda e explora a história anterior do indivíduo, e são levados em consideração o seu desenvolvimento mental, físico, cognitivo e afetivo — que é o processo interno — e as situações sociais, quando o indivíduo se envolve — que é o processo externo —, tornando, assim, a singularidade de cada sujeito. criancas_brincadeiras_brinquedos_ludico_shutterstock_1617599548_Rogerio_Shindi_Tanaka_[Convertido]-01

O brincar com objetivos emocionais e sociais 

O educador tem o desafio de transformar a sala de aula em um ambiente onde se pratiquem o afeto, o bem-estar e os valores culturais e sociais e que abra um espaço para exercitar a generosidade. Sendo assim, para Friedman (2006, p. 38), o brincar é um meio para estimular o desenvolvimento cognitivo, afetivo, social, moral, linguístico e físico-motor da criança, propiciando aprendizagens específicas. Com base no pensamento de Friedman, serão citadas atividades que poderão ser trabalhadas objetivando o desenvolvimento das crianças de forma integral, focando o social e o emocional.

• Histórias: O soldadinho de chumbo e A ovelha negra: essas histórias podem ser trabalhadas ressaltando a importância da inclusão, do respeito e da amizade, através de fantoches e dramatizações das crianças.

 Trem da Amizade: os valores podem ser trabalhados na roda de conversa; em seguida, distribui-se ingressos para entrar no Trenzinho da Amizade (feito de bambolês ou caixas); em cada ingresso distribuído está escrita uma qualidade; e será cantada a música O meu amigo eu vou respeitar.

 Dado das Emoções: trabalha os diferentes sentimentos: alegria, tristeza, raiva, medo, preocupação, agradecimento. Cada criança joga o dado e imita a carinha do dado manifestando a sua emoção.

A ludicidade e a afetividade são propostas que valorizam o talento, os sentimentos e o processo de aprendizagem de cada discente. O docente não pode apenas transmitir conhecimentos, deve ser educador, para despertar sonhos, desenvolver novos conhecimentos e construir caminhos que levem os seus alunos a terem êxito na vida.

Considerações finais

O lúdico e o afeto trabalhados concomitantemente na Educação Infantil são instrumentos facilitadores para uma aprendizagem de qualidade e um desenvolvimento integral satisfatório. Para uma Educação Infantil ter êxito, o discente tem que ser o protagonista. As Diretrizes Curriculares da Educação Infantil (2009) ressaltam que a criança é um ser histórico e cultural, e a BNCC de 2017 assegura os seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento, estabelecendo os objetivos por nível. Cabe destacar que, na escola, não são só trabalhados conteúdos e habilidades, é trabalhado o emocional das crianças, fazendo com que tenham sua autoestima elevada, de forma equilibrada, pois o desenvolvimento intelectual está interligado com o emocional. Deve-se sempre buscar a parceria família e escola, levando em consideração que cada criança é única. criancas_brincadeiras_brinquedos_ludico_shutterstock_1617599548_Rogerio_Shindi_Tanaka_[Convertido]-05

 

ANDRADE, Fabiana. A Pedagogia do afeto na sala de aula. Recife: Prazer de Ler, 2014.
ANDRADE, Rosamaria Marcos. Construir Notícias: o desafio da interdisciplinaridade. Recife: Construir, 2018. BNCC – Portal do MEC http://portal.mec.gov.br/indx.php?option=com_docman&view=download&alias_79601-anexo- texto-bncc-reexportado–pdf-2&category_slug=dezembro–pdf&Itemid=30192. Acessado em 22 de setembro de 2018.
FONSECA, Edi. Interações: com olhos de ler (apontamentos sobre a leitura para a prática do professor de Educação Infantil). São Paulo: Blucher, 2013.
FRIEDMANN, Adriana. O brincar na Educação Infantil: observação, adequação e inclusão. São Paulo: Moderna, 2012.
WENDELL, Ney. Praticando a generosidade em sala de aula. Recife: Prazer de Ler, 2013.Isabel Viviane Lima é professora da Educação Infantil no Colégio Paulo Freire, Santa Quitéria/Ceará.E-mail: isabelvivianelima@gmail.com

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