Edição 137
Construindo mais conhecimento
A ansiedade infantil e o livro Flora quer tudo agora
Trecho da introdução do livro Flora quer tudo agora, de autoria de Nanda Perim, editado para esta publicação.
A ansiedade tem se tornado um sentimento cada vez mais presente na nossa vida (de adultos e crianças), e saber como lidar com ela tem sido um dos focos dos estudos da psicóloga Nanda Perim como mãe, educadora emocional e especialista emocional. Ela é autora de livros sobre parentalidade e infantis, estes publicados pela editora Coleção Conto com Você.
A urgência, a sobrecarga e a velocidade de tudo que acontece à nossa volta podem trazer ansiedade para diversos momentos da nossa rotina se a gente não souber parar, respirar, avaliar e focar nas soluções. E o chamado para este aprendizado muitas vezes vem depois de vermos que nossas crianças estão se sentindo ansiosas e que podemos, de alguma forma, colaborar. Flora quer tudo agora é um livro de alfabetização emocional infantil, que apresenta a crianças (e adultos) o sentimento e a forma como lidar com ele. Uma criança ansiosa dificilmente vai dizer “Caramba, que ansiedade estou sentindo”, sem antes alguém ter dado nome a essa sensação, ter explicado o que fazer com ela.
A ansiedade na criança pode ter várias “caras”. Uma criança ansiosa pode ficar mais tristinha, mais agitada, mais agressiva ou, até mesmo, mais “mal comportada”. Isso porque as crianças não têm a mesma clareza com seus pensamentos e sentimentos que nós, adultos, temos. Elas dificilmente conseguem expressar quais são seus medos, suas angústias, suas ansiedades e suas dificuldades. Em geral, essas sensações transparecem através do comportamento.
Um ponto importante de alerta aos adultos é em relação aos rótulos, neste caso especialmente ao rótulo “ansiosa”. A criança pode mesmo estar ansiosa com frequência, mas nunca devemos dizer que uma criança “é ansiosa”. Ela só está! E, se está com muita frequência, então nós é que precisamos cuidar disso com carinho. Nesse sentido, a leitura do livro de condução de diálogo é um apoio fundamental. Se ela está ansiosa, isso diz que algo na vida dela precisa mudar. Provavelmente, ela precisa de ajuda para elaborar, superar e evoluir, sendo que, na maioria das vezes, a ajuda virá dos pais, que, por sua vez, também precisam cuidar de suas ansiedades. A leitura, nesse sentido, transforma em lúdico o que é desconhecido, até então, pela criança.
Quando a criança está ansiosa e seu comportamento expressa isso, essa reação é “corpo-mente”. Como quando tomamos um susto: primeiro, nosso corpo acelera os batimentos cardíacos e a frequência respiratória, para, depois, entendermos a situação. E, no processo de alfabetização emocional da ansiedade, queremos mudar isso para uma reação “mente-corpo”. Ou seja, a criança deve aprender as palavras, entender as sensações e conseguir expressar o que sente com clareza porque identificou e entendeu o que está se passando. Esse processo leva tempo e demanda maturidade emocional da criança, mas só será possível se, antes, ela aprender o que deve ser feito.
Conforme a criança aprende sobre suas emoções, dá nome a elas e exercita administrá-las devagar, ela começa a pensar e formar padrões neurais de resposta àqueles sentimentos e emoções. Ou seja, se, sempre que ela sente ansiedade, o adulto ensina a respirar fundo, se regular emocionalmente e focar em soluções, ao longo do tempo, quando ela se sentir ansiosa, a primeira coisa que seu corpo automaticamente fará é parar para respirar. Isso possibilita que o cérebro aja quando essas emoções aparecem, pensando e planejando antes de executar ações no corpo.
Quanto mais exercitamos compreender nossas emoções, melhor conhecemos nossos sinais corporais, gatilhos, contextos e motivações. Assim, cada vez vamos reagir melhor a cada nova experiência em que esses recursos são acionados. Precisamos assumir que, no processo de autodescoberta da criança, nós somos meros curiosos e apoiadores. Não somos guias, nem somos professores. Somos aprendizes e suporte.
Quando conseguimos assumir esse lugar, abrir mão do controle e da prepotência e, realmente, observar e apoiar, aí então estaremos sendo verdadeiramente úteis na evolução emocional de nossas crianças, tanto no ambiente familiar quanto em sala de aula.
8 possíveis formas de a ansiedade aparecer
1. Raiva: a raiva vem do medo. Ajude a criança a entender seus medos, a lidar com eles e a administrar a própria raiva.
2. Insônia: altos níveis de estressores elevam o cortisol, que deixam o adormecer e o permanecer dormindo mais difíceis. Faça um ritual de sono todos os dias pelo menos duas horas antes de dormir.
3. Comportamentos desafiadores: o cérebro da criança acaba agindo de forma agitada quando entra no modo “luta e fuga”, jogando adrenalina no corpo. Ajude a criança a se regular emocionalmente e fazer seu corpo se sentir seguro novamente.
4. Efeito vulcão: por não saber bem como se expressar ou por acúmulo de estresse, a criança pode explodir por algo aparentemente “pequeno”. Ajude-a a se acalmar para, depois, ajudá-la a se expressar. Reaja sempre de maneira a conquistar a confiança para que ela sempre conte como está se sentindo.
5. Falta de foco: é difícil se concentrar quando a mente está no que ainda vai vir. Faça exercícios que ajudem a criança a se regular e pensar em formas de resolver.
6. Fuga: o cérebro, quando ansioso, pode entrar no modo “luta” ou “fuga”. Isso é um mecanismo de defesa para evitar os gatilhos que deixam a criança ansiosa. Pode ser uma boa ferramenta de regulação, mas cuidado se isso se tornar fuga constante a ponto de atrapalhar a vida da criança, trazendo também ansiedade. Ao lidar e administrar sua ansiedade no dia a dia, não será preciso sempre enfrentar nem fugir. Equilíbrio é a chave.
7. Negatividade: uma mente ansiosa tem a tendência de não conseguir ver o lado bom das coisas. Com muito carinho, ouça a criança ativamente quando ela precisar elaborar e ajude a enxergar também o lado bom das coisas. Tenha só cuidado para não exagerar na “positividade tóxica”! Ajudar a ver o lado bom não é ignorar o que a criança enxerga.
8. Planejamento: planejar é bom, ter previsibilidade também. Mas não quando isso vira uma obsessão. Tente mostrar a importância de ter planos, mas também de relaxar e improvisar.
PERIM, Nanda. Flora quer tudo agora: história de apoio para lidar com a ansiedade. São Paulo: Coleção Conto com Você, 2022.
Disponível para venda em colecaocontocomvoce.com.br.
