Edição 140
Professor Construir
Fraternidade e ecologia integral
O planeta chora… Mas há esperança
Rosangela Nieto de Albuquerque
Deus viu que tudo era muito bom.
Gn 1,31
Todos nós sonhamos com uma sociedade mais justa, fraterna, com a expressão do respeito da dignidade da pessoa humana e com a possibilidade de uma Casa-Terra segura. Nossa Casa-Terra chora… Ela sofre pelos maus-tratos e pela falta de cuidado.
Vivenciamos uma crise antropocêntrica da vida, na qual se evidencia uma visão utilitarista perpassando um ser humano insaciável, sem limites, sem pensar em nossa sobrevivência enquanto espécie. O planeta tem sinalizado seu sofrimento, os desastres naturais demonstram que o planeta chora… sofre… assim, a Campanha da Fraternidade 2025 traz o chamamento da necessidade do cuidado com a Terra, nossa casa, e o Papa Francisco cunhou o termo que é urgente: Ecologia Integral.
Ecologia Integral é um termo cunhado pelo Papa Francisco na encíclica Laudato Si’, que, em seu parágrafo 139, estabelece: “Quando falamos de meio ambiente, fazemos referência também a uma particular relação: a relação entre a natureza e a sociedade que a habita. Isto impede-nos de considerar a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida”, isto é, tudo está interligado e é interdependente, e as dimensões humana, social, cultural, econômica e ambiental da vida e das crises que vivemos não estão separadas.
O planeta chora… ele sofre… e, neste ano, a Campanha da Fraternidade aborda a temática ambiental, com o objetivo de “Promover, em espírito quaresmal e em tempos de urgente crise socioambiental, um processo de conversão integral, ouvindo o grito dos pobres e da Terra” (Objetivo Geral da CF 2025).
Estamos no decênio decisivo para o planeta! Ou mudamos, convertemo-nos, ou provocaremos, com nossas atitudes individuais e coletivas, um colapso planetário. Já estamos experimentando seu prenúncio nas grandes catástrofes que assolam o nosso país. E não existe planeta reserva! Só temos este! E, embora ele viva sem nós, nós não vivemos sem ele. Ainda há tempo, mas o tempo é agora! É preciso urgente conversão ecológica: passar da lógica extrativista, que contempla a Terra como um reservatório sem fim de recursos, donde podemos retirar tudo aquilo que quisermos, como quisermos e quanto quisermos, para uma lógica do cuidado
(CF, 2025).
O planeta chora… ele sofre… E, devido à amplitude da crise, não é fácil buscar soluções individuais e para os sistemas sociais, pois não há crises separadas, todos e tudo do planeta estará em colapso. No entanto, há esperança de uma mudança imediata, urgente, com uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza.
O planeta chora… ele sofre com a falta de cuidado… a poluição da água, do ar e do solo, o consumo desenfreado e o descarte irracional resultam em perda da biodiversidade, extinção de espécies e consequências climáticas cada vez mais significativas.
Após a Revolução Industrial no Ocidente, os estilos de vida adotados pelas sociedades humanas têm ocasionado o desequilíbrio e a destruição, que podem ser observados em diferentes ecossistemas.
Ao longo das últimas décadas, e de forma acelerada, todos os ecossistemas/biomas mundiais têm sofrido degradação, isto é, desde os anos 50 do século passado, com o grande crescimento econômico, que não considerou os limites dos recursos naturais do planeta nem os aspectos ambientais, há um descaso com o meio ambiente.
A questão do descarte, que despeja bilhões de toneladas de resíduos sólidos, incluindo lixo, o desperdício e a obsolescência vertiginosa, tem contribuído para a aceleração da poluição do ar, dos solos e dos cursos de águas, desde os pequenos córregos a rios, lagos/lagoas, baias, áreas costeiras e oceanos. E, certamente, são ações que vêm alterando radicalmente a natureza com as mudanças climáticas, o aquecimento global e a degradação ambiental.
O Papa Francisco enfatiza que todo esse desequilíbrio nos leva a lamentar pela perda e pelo risco que essa destruição representa para toda a humanidade. Ele também aponta para a importância que cada elemento da Criação tem para o próprio Deus. “A humanidade não tinha o direito de fazer isso” (FRANCISCO, 2015, p. 3).
Assim, o Papa Francisco nos convida a uma reflexão sobre a questão ambiental numa perspectiva ampliada e integral. Trata-se de um convite para que se perceba a urgência de comprometimento com a transformação do nosso modo de vida e de nossas relações com a casa comum — nosso planeta.
Ecologia Integral é um conceito que considera a relação entre a natureza e a sociedade e que busca soluções integrais para os problemas socioambientais.
Indiscutivelmente, todos(as) nós — enfatizando: TODOS(AS) — temos o compromisso de trabalhar por um mundo mais justo — mais equânime e fraterno. É urgente ser cuidadoso(a) com a nossa Casa-Terra.
A partir do conceito de Ecologia Integral, é importante uma visão sistêmica acerca da proposta, que considera que tudo está interligado e que a dignidade de cada pessoa está relacionada com as outras pessoas e com o mundo. Assim, é importante enfatizar que Ecologia Integral:
• Envolve pequenos gestos cotidianos que quebrem a lógica da violência, da exploração e do egoísmo.
• Não separa a natureza da sociedade, mas considera a relação entre as duas.
• Considera a família como um lugar educativo privilegiado, em que se aprende a respeitar o ser humano e a Criação.
• Não considera a natureza como uma moldura da vida, mas como algo com o qual nos relacionamos.
• Busca soluções integrais para os problemas socioambientais, considerando a interação entre os sistemas naturais e sociais.
• Entende que não adianta preservar matas e rios se houver extrema desigualdade.
• Considera que a harmonia entre o ser humano e a natureza é importante, assim como o cuidado com o próximo e com a própria saúde.
Segundo o Monsenhor Duffé (2019), o sentido da Ecologia Integral é amplo, não é só ambiental, mas diz respeito à essência do ser humano; não é somente algo espiritual, social e ambiental e também não se restringe a alguma ideologia política ou social ou a categorias meramente biológicas ou naturais, mas perpassa uma harmonia do ser humano com os ritmos da natureza e do corpo, certamente é uma chamada para o cuidado com o próximo e com a própria saúde.
Viver ecologicamente significa viver em um estado de contemplação da natureza, em paz com a Criação e com o Criador.
O Monsenhor Duffé (2019) enfatiza a importância dos limites e da vida que faz sentido, para isso é fundamental que a memória das comunidades sejam preservadas através da esperança do futuro, que, certamente, é cultivada no presente através da maneira de viver.
Quando falamos em presente e futuro, é importante enfatizar que as dimensões do tempo passado (memória) e futuro (esperança) precisam ser preservadas para o pleno desenvolvimento humano. Portanto, a integralidade de uma vida harmônica, estar bem e em paz, perpassa o paradigma ambiental, social e humano.
Mudar de comportamento requer a mobilização de todos(as). Diversos países se reúnem e firmam acordos internacionais com o meio ambiente, o clima, as florestas, os oceanos, etc. No entanto, somente a adesão pública por parte dos países e dos setores empresariais não é suficiente, são necessárias práticas individuais e sociais.
Reconhecer que precisamos mudar radicalmente esse modelo destruidor da natureza é o maior desafio. É necessária a conscientização de que precisamos passar a utilizar fontes alternativas de energia, reduzir drasticamente a emissão diária de bilhões de novas toneladas de gases que promovem o efeito estufa, compreender que haverá a inviabilização de produção de alimentos, pois a degradação de todos os ecossistemas será maior e pior nas próximas décadas; certamente, teremos o agronegócio e a agricultura familiar inviáveis, elevando os custos de produção e gerando mais fome e miséria.
Sabemos que há uma grande crise global presente em todos os países; no Brasil, estamos vivenciando a década da restauração dos ecossistemas (degradados), conforme aprovado recentemente pela Assembleia Geral da ONU, com o objetivo de envidar esforços em todos os níveis — global/mundial, nacional, regional, estadual, local e individual — para superar esses desafios. O planeta chora… e é agora o momento de mudança.
Considerações Finais
O planeta chora, mas há esperança de vivermos a Ecologia Integral, que é, portanto, indissociável do desenvolvimento humano integral. Faz-se URGENTE e é fundamental construir um paradigma cultural diferente, baseado no diálogo e na colaboração entre as pessoas e na contemplação da natureza e da espiritualidade. A Terra grita, e é URGENTE que a humanidade desperte para a importância das mudanças que devem ser feitas, levando em conta a dignidade de cada um e a solidariedade. O Monsenhor Duffé (2019) apresenta, em sua palestra, a contribuição do Papa Francisco (2015) e a importância do diálogo inter-religioso para essa construção dialogal contínua e necessária.
Cada um de nós precisa mudar o comportamento, cuidar da natureza e do planeta, cuidar de si, do outro e do futuro, que já se faz presente nas catástrofes que eclodem a cada momento.
Muitas pessoas já perceberam o problema e não conseguem vislumbrar um futuro de esperança, mas também não estão dispostas a renunciar ao conforto que o mundo contemporâneo oferece. É preciso desenvolvimento humano… E o desenvolvimento humano integral permeia a sensibilidade para com o vulnerável: resolver o problema do pobre e da terra; significa que, quando uma pessoa não é respeitada em seu corpo e em sua dimensão espiritual ou política ou quando uma comunidade não é respeitada em sua cultura, a violência e a injustiça são fatores de sofrimento (PAULO VI, 1967, n. 30). Por outro lado, quando uma pessoa cuida de outra, as suas possibilidades são amplificadas e sua dignidade é reconhecida.
O cuidado mútuo é necessário para o desenvolvimento humano e para a Ecologia Integral. Nesse sentido, precisamos estimular a conversão ecológica, reconhecer nossos pecados ecológicos; afinal, destruir a natureza, degradar o meio ambiente, destruir a biodiversidade, não zelar pelo bem comum são pecados cometidos pelo ser humano contra as obras do Criador.
Precisamos avançar de forma mais decisiva nessa caminhada, com várias ações, sabemos que já existem inúmeras pastorais da Ecologia Integral atuando em nosso país; portanto, é fundamental a conscientização de todos.
É URGENTE estimular o despertar da consciência quanto a importância da Ecologia Integral, pois o planeta chora, e a esperança é a mudança necessária para vivermos em harmonia.
Referências
DUFFÉ, B.-M. O que quer dizer viver uma Ecologia Integral? Campinas: PUC-Campinas, 2019. Publicado pelo canal da PUC-Campinas. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lTCgyM8vxK8. Acesso em: 27 out. 2024.
FRANCISCO, Papa. Evangelii Gaudium. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2013. Disponível em: https://www.vatican.va/ content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium. html#I.__Alegria_que_se_renova_e_comunica. Acesso em: 27 out. 2024.
______ . Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2015. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudatosi.html#_ftnref123. Acesso em: 9 ago. 2021.
______. Viver uma Ecologia Integral 3. https://doi.org/10.24220/2525-9180v6e2021a5439 Cad. Fé e Cultura | Campinas | 6 | e215439 | 2021.
PAULO VI, Papa. Populorum Progressio: sobre o desenvolvimento dos povos. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1967. Disponível em: https://www.vatican.va/content/paul-vi/pt/encyclicals/documents/hf_p-vi_enc_26031967_populorum. html. Acesso em: 27 out. 2024.
Rosangela Nieto de Albuquerque é Ph.D. em Educação (Universidad Tres de Febrero), pós-doutoranda em Psicologia, Doutora em Psicologia Social, Mestre em Ciências da Linguagem, psicanalista clínica, neuropsicopedagoga, neuropsicóloga clínica, pedagoga, psicopedagoga clínica e institucional, professora universitária de cursos de graduação e pós-graduação, licenciada em Letras (Português/Espanhol), autora de projetos em Educação e da implantação de uma clínica-escola de Psicopedagogia Clínica como projeto social e autora e organizadora de treze livros nas áreas da Educação e da Psicologia.
E-mail: rosangela.nieto@gmail.com
