Edição 140
Construindo mais conhecimento
Retratos da leitura no Brasil
Pesquisa aponta que grande maioria dos leitores não leem mais por falta de tempo
Elto Koltz
Publicada em 19 de novembro de 2024, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, em sua 6ª edição, revela como está o hábito de leitura do brasileiro e faz uma dura constatação: desde 2019 (ano da pesquisa anterior) até 2024, houve uma redução de 6,7 milhões de leitores. A pesquisa aponta a falta de tempo como maior fator para que leitores leiam mais.
A 1ª edição da pesquisa ocorreu em 2001 e foi realizada pela Associação Brasileira de Livros e Conteúdos Educacionais (Abrelivros), pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel). A partir de 2007, a pesquisa, em sua 2ª edição, passou a ser realizada pelo Instituto Pró-Livro (IPL), órgão fundado e mantido pela Abrelivros, pela CBL e pelo Snel.
Um dos principais objetivos da pesquisa é conhecer o perfil do leitor e do não leitor brasileiro, identificando seu comportamento leitor quanto a intensidade, forma, limitações, motivação, representações e condições de leitura e de acesso ao livro — impresso e digital.
Desde que o IPL realiza a pesquisa, é a primeira vez que os números de não leitores superam os números de leitores, embora já tivessem ocupado o mesmo patamar, como ocorreu na pesquisa de 2011. Em 2007, primeiro ano da pesquisa, sob comando do IPL, foram registrados 55% de leitores para 45% de não leitores, em 2011 foram 50% de leitores e o mesmo percentual de não leitores. A diferença de 10% de 2007 zerou em 2011, que apresentou a primeira queda de leitores na pesquisa. Já em 2015, a surpresa foi positiva, com um aumento de 12% de leitores, ficando com a margem de 56% contra 44% de não leitores. Essa margem voltou a diminuir na pesquisa de 2019: a diferença passou a ser de 4% — com 52% de leitores e 48% de não leitores. Porém, agora, em 2024, a pesquisa surpreende negativamente. O percentual de leitores ficou em 47%, e o de não leitores ficou em 53%. De acordo com a pesquisa, isso representa uma perda de 6,7 milhões de leitores.

Entre os critérios da pesquisa estão a idade mínima de cinco anos de idade sem idade máxima. Considera-se leitor a pessoa que leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro de qualquer gênero, impresso ou digital, nos três meses anteriores à pesquisa. Não leitor é aquele que declara não ter lido nenhum livro ou parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa, independentemente de ter lido um livro em meses. Segundo dados do IPL, foram entrevistadas 5.504 pessoas, alfabetizadas ou não, residentes em 208 municípios. Cada pessoa respondeu a um questionário com 147 questões. A coleta de dados aconteceu entre 30 de abril e 31 de julho de 2024.
Entre as principais novidades com relação às pesquisas anteriores, estão o levantamento de dados sobre práticas e avaliação de leituras digitais X leitura impressa, a inclusão de questões para compreender a literatura sob a perspectiva das crianças e perguntas para investigar se o leitor tem preferência por livros digitais ou impressos.
A pesquisa também considera leitores que se utilizam de outros meios que não sejam livros impressos e livros digitais. O público-alvo também foi questionado sobre a leitura em redes sociais, aplicativos de mensagens, blogs, sites, revistas e jornais on-line.
Entre os motivos para a leitura, foram considerados gosto, distração, atualização cultural ou conhecimento geral, crescimento pessoal, aprender algo novo ou desenvolver alguma habilidade, motivos religiosos, atualização profissional ou exigência do trabalho e exigência escolar ou da faculdade.
Barreiras para a leitura
Entre os aspectos que chamam a atenção (Tabela 2) entre os 2.547 leitores para não terem lido mais foi a falta de tempo, com 47% das respostas. Em segundo lugar, vem a preferência por outras atividades, com 9% das respostas. A falta de paciência para ler ocupa o terceiro lugar, com 8% dos votos. A quarta posição, com 7% das respostas, está dividida entre leitores que se sentem muito cansados para ler e leitores que não têm biblioteca perto de sua residência. Em quinto lugar, com 5%, estão os leitores que acham o preço do livro muito caro e os que não gostam de ler. Os leitores que não têm dinheiro para comprar livros dividem a sexta posição com os leitores que não encontram um lugar apropriado para ler, com um percentual de 4%. A sétima posição é dividida por dois tipos de leitor: os que têm dificuldade para ler e os que não encontram um local para comprar livros. Cada um com um percentual de 3% das respostas; e, por fim, com apenas 1% das respostas, os leitores que possuem algum problema de saúde ou visão.
O que se destaca nesse aspecto da pesquisa é que praticamente metade das pessoas reclamaram da falta de tempo para ler, e questões como preço do livro, falta de dinheiro e problemas de visão ocupam uma margem relativamente pequena diante das respostas obtidas pela pesquisa. Outro dado importante é que 75% dos leitores gostariam de ter lido mais.
Entre os 2.957 não leitores, também se destaca a falta de tempo, com um percentual de 33%. Já o segundo lugar, com 32%, está ocupado por não leitores que não gostam de ler. Em terceiro, com 13%, os não leitores que não têm paciência para ler. Seguindo em quarto lugar, estão os que preferem fazer outra atividade, com 12%. Em quinto lugar, com 6%, estão os não leitores que têm dificuldade para ler. Não leitores que se sentem muito cansados para ler correspondem a 4% desse grupo entrevistado, ocupando a sexta posição. Em sétima posição, com 2%, os não leitores responderam que não leem por não haver bibliotecas por perto. Seis questões dividem o oitavo lugar, com 1% cada. São elas: problemas de saúde/visão, porque acham o preço do livro muito caro, por não terem dinheiro para comprar, por não terem um local onde comprar livros onde moram, por não terem um lugar apropriado para ler e, por fim, não terem o hábito de ler.

Um dado que chama a atenção entre os não leitores é que 14% não sabem ler.

Novamente, nesta parte da pesquisa, evidencia-se a falta de tempo como motivo mais relevante, embora o questionamento aqui difira do grupo dos leitores, que foram questionados sobre a razão de eles não lerem mais, enquanto o grupo dos não leitores foram questionados sobre a razão de não terem lido. Nesse segundo agrupamento, a falta de tempo também é um dado que ocupa uma posição de destaque, mesmo numa diferença de apenas 1% a mais sobre os que responderam que não leram por, realmente, não gostarem mesmo de ler. De certa forma, esse quesito fortalece a importância do tempo como fator para as pessoas lerem.
Influências na formação leitora
Quando questionadas se houve influência de alguém para gostar de ler, 34% dos 5.504 entrevistados responderam que sim, e 66% responderam que não. Desse grupo de pessoas que sofreram a influência, uma fatia de 8% foi influenciada pela mãe ou responsável do sexo feminino; 11% por algum professor; 4% por outro parente; 4% pelo pai ou responsável do sexo masculino; 1% pelo marido, esposa ou companheiro(a); 1% pelo padre, pastor ou outro líder religioso; e, por fim, 2% por outras pessoas.

Média de livros lidos
Outra informação levantada pela pesquisa é que, em 2007, a média de livros lidos por ano entre todos os entrevistados foi de 2,4 livros e, em 2024, caiu para 2,04 livros lidos (veja a Tabela 5).
Quando separados por grupos não leitores e leitores, a média entre os leitores sobe para 4,36 livros em 2024, enquanto em 2011 (primeiro ano deste comparativo) a média foi de 3,74 livros lidos.

Já no indicador Livros lidos por ano (entre todos os entrevistados), encontrado na Tabela 6, a média foi de 4,7 em 2007; com uma queda para 4 livros lidos no ano de 2011; subindo, em 2015, para 4,96; com uma pequena queda, em 2019, para 4,95; e, agora, em 2024, uma queda para 3,96 livros lidos por ano. Pela primeira vez, a pesquisa revela um número inferior a 4 livros lidos por ano.

Representações, livros e autores marcantes
A título de curiosidade, a Tabela 7 trata das representações sobre a literatura, ou seja, o que a literatura significa tanto para o leitor como para o não leitor.
A Tabela 8 revela os 20 livros que mais marcaram os leitores. O que mais chama a atenção são os dados das tabelas 9, 10 e 11, nesta sequência: 15 autores mais conhecidos, 15 autores que mais gostam e 14 autores de literatura que mais gostam em todas as situações; Machado de Assis e Monteiro Lobato, nessa ordem, aparecem com expressiva votação. De autores contemporâneos, Mauricio de Souza, Augusto Cury, Paulo Coelho e Zíbia Gasparetto ocupam posições de destaque. Mas fica evidente a força de Machado de Assis, considerado um dos maiores expoentes da literatura brasileira, e de Monteiro Lobato, que também deixou um forte legado na literatura brasileira.



Livro didático
Também incluído como objeto de estudo na pesquisa, o livro didático tem significativo papel na formação de leitores. Do público-alvo, 1.304 integrantes são estudantes do 1º ano do Ensino Fundamental ao nível superior. A tabela 12 mostra a frequência de leitura pelos alunos de livros didáticos indicados pela escola, independentemente do suporte. A tabela 13 já revela a frequência de leitura de livros de literatura indicados pela escola como contos, crônicas, romances e poesias.

Onde está meu tempo?
Recentemente, na edição 138 da revista Construir Notícias, o tema central trabalhado foi: Cadê meu tempo? Agenda lotada. Nessa edição, foi debatida a sobrecarga dos filhos, dos pais e dos professores. A sobrecarga dos filhos que vêm a partir de um desejo dos pais com relação ao futuro deles. Os pais que já vêm de uma carga excessiva de trabalho ou de outras atividades e que se tornam “[…] ausentes devido a exigências do mercado de disponibilidade total dos funcionários” (Albuquerque, p. 10). Por sua vez, os filhos que têm a sua educação terceirizada sofrem com um excesso de atividades e compromissos. Os pais “[…] passam a estimular a criança a realizar uma série de atividades, uma verdadeira maratona de compromissos, isto é, estudo de línguas (inglês), balé, judô, natação, estudo de música, teatro, kumon, etc.” (Albuquerque, p. 11). Na educação, faz tempo já se discute a grande carga de atividades extracurriculares sobre alunos e também a ausência dos pais, que alegam não ter tempo, por estarem focados no trabalho ou em outras atividades nas quais não podem envolver os filhos.
Mas outro aspecto é o quanto desse tempo também é tomado pelas redes sociais ou jogos em celulares, algo que provoca muitos debates; e o mais recente foi a proibição, pela Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, dos celulares em sala de aula.
A falta de tempo nos faz refletir muito quando voltamos à pesquisa: tanto em 2019 quanto em 2024, constatou-se que, assim como os leitores, os não leitores apontam esse fator como primordial para não lerem mais ou não terem lido absolutamente nada.
Se a falta de tempo é um fator primordial, o questionamento “Cadê meu tempo?” é válido, mas também vale questionar: “Para qual atividade eu destino o meu tempo livre?”.
Numa proposta de desaceleração em prol da criatividade e saúde mental, o tempo ocioso não deveria envolver telas de TV, tablet ou celular.
Pelo contrário: quanto mais aprendemos sobre o efeito das telas em nosso cérebro, especialmente no cérebro das crianças, que ainda está em plena formação, mais evidente fica a importância de reduzir o tempo diante desses dispositivos ao mínimo necessário, priorizando a vida offline
(ZVEITER, p. 8).
Tudo bem, já sabemos que a pesquisa também considera leitor os indivíduos que usam os meios digitais para tal finalidade, mas, mesmo assim, Zveiter ainda sugere “Que tal, então, abrir um livro?”. Pois sabemos que os meios digitais também podem ser grandes “ladrões” de nosso tempo. Então, por que nesse tempo de ociosidade não usamos para ler um livro?
O tema central desta edição da revista Construir Notícias não está diretamente ligado à pesquisa, mas o destaque da falta de tempo para leitura é um trabalho pessoal de revisão sobre o seu modo de lidar com as situações e de se relacionar com o mundo e as pessoas. E, nesse sentido, vale a pena nos questionarmos o quanto de tempo investimos em coisas que nos deixam cansados e nos afastam do hábito da leitura. O quanto de tempo investimos em telas e não paramos para ler um livro para nossos filhos, criando neles o hábito da leitura. Para que se apropriem da ideia de que ler traz uma riqueza não somente para o leitor, mas para qualquer pessoa que estiver em contato com esse leitor.
Embora a pesquisa vá além da sala de aula, não deixa de incluir o livro didático e fazer questionamentos sobre o ambiente escolar. A pesquisa revela uma mudança no percentual de leitores do universo educacional, que, ao longo dos anos, foi deixando de usar o ambiente escolar como espaço para a leitura. Segundo levantamento feito pelos pesquisadores em 2024, foi constatado que 85% desse perfil de leitores leram em casa; e 19%, em sala de aula. Esse percentual de leitores de sala de aula foi de 35% em 2007. Em 2011, foi de 33%. Na edição seguinte, de 2015, as menções apareceram em 25% dos entrevistados. Em 2019, foram 23%; ou seja, em 2024 foi registrado o menor índice. E, aqui, vale a reflexão: “Quanto representa para a escola deixar de ser um espaço para a leitura e por que ocorre essa mudança?”.
A pesquisa é um bom instrumento para a criação de políticas ou ações públicas que incentivem o hábito da leitura e até provocar a reflexão das escolas para recuperarem dentro delas esse ambiente de leitura.
O relatório é amplo e aborda vários aspectos da leitura no Brasil. Este texto contempla uma pequena fração dos resultados, mas, logo abaixo, você encontra o link de acesso ao site do Instituto Pró-Livro, onde se encontram os resultados disponíveis para o público em geral, ou, melhor dizendo, para quem tiver interesse em mudar essa realidade.
O importante é não somente a reflexão, mas tomar um posicionamento de mudança com relação aos hábitos de leitura para que esse número se inverta. Ler para os filhos, presentear com livros, usar o tempo ocioso para leitura, fazer passeios a livrarias, incluir a leitura como momento de lazer e compreender que a leitura pode transformar a sua vida e a das pessoas ao seu redor.
Links úteis
http://plataforma.prolivro.org.br/retratos.php
https://abrelivros.org.br/site/
https://snel.org.br
Referências
RETRATOS DA LEITURA NO BRASIL, 2024. 6ª edição – Disponível em: https://www.prolivro.org.br/pesquisas-retratos-da-leitura/as-pesquisas/. Acesso em: 16 nov. 2024.
ALBUQUERQUE, Rosângela Nieto de. Cadê meu tempo? Agenda lotada! pais e filhos sem tempo… Revista Construir Notícias. ed. 138, p. 9-14, 2024.
ZVEITER, Fabiana. Como fica o tempo para ser criança. Revista Construir Notícias. ed. 138, p. 9-14, 2024.
Elto Koltz é formado em Psicologia pela Faculdade Integrada do Recife/Estácio, atua, há vinte anos, como diretor de Arte na produção de livros didáticos na Multi Marcas Editoriais e, há doze anos, como psicólogo clínico, atendendo adolescentes e jovens adultos.
