Edição 144

Como mãe, como educadora, como cidadã

Ernesto, um pug possessivo

Zeneide Silva

Maria Clara, minha filha, desejava ter um cachorro, mas, antes de comprá-lo, fez uma pesquisa com amigos e na Internet sobre as características da raça pug.

Eric Isselée – stock.adobe.com

O pug é aquele cachorro que parece que já nasceu cansado. Anda dois metros, deita. Come, deita. Brinca por cinco minutos, cochila por cinquenta. Mas cuidado: ele vai roubar sua cama, seu sofá e, claro, seu coração. E isso foi uma das coisas que a fez comprar o cachorro.

O pug é adorável, mas sua aparência fofa vem com um custo. Por causa da seleção genética exagerada, muitos sofrem com problemas respiratórios e de pele. Mesmo tendo essa consciência, ela resolveu comprá-lo.
Comprou e deu o nome de Ernesto. No início, ficava o tempo todo com ela. Aos poucos ele foi se aproximando de mim, e nos tornamos amigos. Hoje, fica sempre do meu lado. Ele me segue pela casa como uma sombra, rosna para quem se aproxima, até mesmo amigos e familiares. Se estou no sofá com alguém, ele se enfia no meio. Se dou carinho para outro animal, ele late, exige atenção, faz birra.
Ernesto é pequeno, fofo, carinhoso — como um bichinho de pelúcia que respira (e ronca alto). Mas não se deixe enganar pela carinha amassada e o olhar pidão.
Ele é ciumento, possessivo e controlador.
No começo, achava fofo. Hoje, vejo o quanto isso se parece com algo mais sério. Quando saio para trabalhar, vai comigo até a porta; quando estou chegando, escuta o elevador e corre para me receber.
Em uma das vezes que Ernesto estava agressivo quando uma pessoa se aproximou de mim, pensei nas mulheres que sofrem com homens ciumentos, possessivos e violentos.
Ultimamente, venho passando por muita dificuldade em controlar a possessividade de Ernesto: ele estranha qualquer pessoa, quer exclusividade. Não sei ainda como resolver esse problema, mas vou conseguir, tenho certeza.
Com seu comportamento, Ernesto me mostrou como relações possessivas — até mesmo as que parecem inocentes — podem ser sufocantes. E como, às vezes, demoramos para perceber que aquilo que parece afeto pode, na verdade, ser controle disfarçado.
Fiquei pensando que existe gente agindo igual a Ernesto: sufocando, vigiando, querendo o outro só pra si em nome do amor.
Com seu comportamento, Ernesto me mostrou como relações possessivas — até mesmo as que parecem inocentes — podem ser sufocantes.
A diferença é que o ciúme do meu cachorro vem do instinto, da carência, da dependência emocional que só os bichos sentem. Já o do homem vem do desejo de controle. Quantas mulheres sofrem, são violentadas, humilhadas, abusadas e até mortas? Percebi que o comportamento dele espelha o de uma relação abusiva: onde o outro quer ser o centro da vida de sua companheira, controla tudo o que pode, sem deixar a pessoa livre em suas ações, e consegue transformar carinho em território. Assim como em relações tóxicas, o ciúme vem disfarçado de amor, o apego virá a sufocar seu companheiro ou companheira.
A diferença é que eu posso ensinar Ernesto a confiar, posso impor limites com carinho. Já numa relação abusiva, a pessoa que sofre muitas vezes não consegue sequer enxergar que está sendo controlada, machucada, apagada. E como é difícil sair quando o medo é maior que a coragem.
Ao pensar em escrever um artigo sobre o comportamento possessivo de Ernesto, nunca imaginei que poderia trazer uma temática tão sofrida quase corriqueira em nossa sociedade, os telejornais quase que diariamente trazem denúncia sobre casos de relação abusiva.
Algumas pessoas acham bonito quando o outro diz “Você é minha”, quando o ciúme vira prova de amor, quando o controle parece zelo. Amor de verdade não isola, não prende, não cala. Amor de verdade acompanha, mas não encarcera. Pessoas que vivem relacionamentos possessivos e abusivos, em que o ciúme se disfarça de cuidado e o controle se apresenta como proteção, sofrem.
Ernesto late. Ele não quer me perder. Mas eu sei que ele vai aprender. Com gente, às vezes, não é tão simples; em nome do amor possessivo, muitas mulheres morrem.
Enfim, concluo com um trecho do livro de Iandê Albuquerque Quero me pedir desculpas por todas as vezes que me culpei quando não era minha culpa:
É sua responsabilidade se fazer bem, por mais que você queira alguém que faça isso por você. É sua prioridade se priorizar, por mais que você queira estar com alguém. É você quem deve cuidar dos seus planos, correr atrás dos seus sonhos, cuidar de você por inteiro. É você e mais ninguém!.
Iandê Albuquerque

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

HOMICÍDIO DE MULHERES

» 2.655 vítimas em 2023
» 2.422 vítimas em 2024
» Taxa: 2,22 vítimas por 100 mil mulheres

7 mulheres assassinadas por dia
Redução de 8,78%

FEMINICÍDIO

» 1.449 vítimas em 2023
» 1.459 vítimas em 2024
» Taxa: 1,33 vítimas por 100 mil mulheres

4 mulheres vítimas por dia
Aumento de 0,69%

ESTUPRO DE MULHERES

» 71.759 vítimas em 2023
» 71.834 vítimas em 2024
» Taxa: 66 vítimas por 100 mil mulheres

196 mulheres vítimas por dia
Aumento de 0,10%

https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/noticias/mapa-da-seguranca-publica-2025-brasil-reduz-homicidios-dolosos-e-bate-recorde-em-apreensoes-de-drogas/mjsp-mapa-da-seguranca-publica-2025.pdf


Canais de ajuda (Brasil)

» Ligue 180
(Central de Atendimento à Mulher – 24 horas).

» Ligue 190 (em caso de emergência).

» Cras, Creas, Delegacia da Mulher, Defensoria Pública — são portas de entrada para apoio psicológico, jurídico e social.

cubos