Edição 144
Prazer de ler
Apresentamos, nesta edição, o autor Tião Souza, publicado pela editora Prazer de Ler
A ALEGRIA DE ESCREVER VEM DO PRAZER DE LER

Arquivo pessoal
É bem provável que todo bom leitor, se assim desejar, tenha maior chance de ser um escritor do que alguém que não aprecia a leitura. E digo isso porque existe em quem escreve uma alegria imensa em externar as muitas ideias que povoam sua cabeça, também, a partir das leituras feitas. As boas leituras podem ser feitas de muitas formas, inclusive nos livros. Mas ler o mundo, as relações, os olhares, os gestos, os sentimentos… vai ajudando a construir o prazer de escrever. A interpretação que é feita nessas infinitas maneiras de ler vai inspirando o leitor a construir ideias que sonham em ganhar o mundo. Aprender a fazer boas leituras é semear conhecimento nesse terreno fértil que é o intelecto humano.

Reprodução
Muito antes de aprender a ler as primeiras palavras, eu aprendi a ouvir muitas histórias que eram contadas por minha mãe na porta de casa. Éramos dez irmãos. Fazíamos uma roda em torno da contadora de histórias, ouvindo as narrativas e criando, a partir da imaginação, os cenários descritos. A imaginação tem esse poder mágico de ajudar a fantasiar. Uma boa contação de história é capaz de criar outros bons contadores de histórias.
Muito antes de aprender a ler as primeiras palavras, eu aprendi a
ouvir muitas histórias que eram contadas por minha mãe na porta de casa.
Ah! Os livros, muito mais do que as imagens projetadas numa tela, aguçam-nos a imaginação. Lembro que, nos primeiros anos de escola, conhecidos como alfabetização, as professoras, também, nos contavam histórias a partir de leituras dos livros. As ilustrações, que nem sempre eram comuns nas páginas dos livros, ajudavam na memorização das narrativas, mas, diferentemente das fábulas narradas na porta de casa, limitavam a imaginação do ouvinte.
Quando fui me apropriando das palavras escritas, criei gosto pela leitura. Além das cartilhas que levávamos e trazíamos da escola, tínhamos acesso aos almanaques, que eram distribuídos gratuitamente nas farmácias. Eles traziam, além do calendário, nomes de remédios, anedotas, curiosidades e pequenos trechos de livros.
Tenho clara a memória de uma enciclopédia, Barsa, que enfeitava a estante de muitas casas, inclusive a da minha. Ali, eu estava dando um grande salto na busca do conhecimento.
A primeira contadora de história, minha mãe, não sabia ler livros, lia a vida a partir do alcance da sua imaginação. As suas narrativas apontavam para os riscos que a vida apresenta, para os mistérios que a razão não sabe explicar, para o respeito ao que era sagrado e às pessoas mais velhas.
A escola, minha segunda professora, narrava a partir da ciência apresentada através dos livros. Coube-me a tarefa de ir juntando os diversos saberes. A vivência e a leitura nos estimulam a querer dizer, com a vida e as palavras, o que aprendemos. Então quem escreve é uma espécie de guardião do conhecimento e da sabedoria. Ele sabe que não construiu sozinho aquilo que escreve. Tem consciência de que o saber, inclusive a leitura, é uma construção coletiva. Como numa grande colcha de retalhos da vida, o escritor sai ajuntando palavra por palavra e cosendo com os fios invisíveis da imaginação carregada de saberes, afetos e sonhos que ajudem na construção de leitores/construtores de um mundo melhor.
Quando tomei posse da leitura a partir dos livros, passei a ler para minha mãe o que os livros diziam. Ela adorava ouvir as narrativas dos almanaques e das fotonovelas, em preto e branco, que apareciam lá por casa.
O segundo passo como leitor foi ajudar a minha primeira contadora de histórias a assinar o seu próprio nome. Nunca é tarde para rabiscar uma nova página de vida com a própria mão.
Saber ouvir e ler histórias vão construindo em mim o escritor que busco ser. As personagens das minhas narrativas se parecem muito com as pessoas com quem vivi, com o lugar de onde vim, por onde passei e passo, dos livros que li e leio, dos ideais coletivos e pessoais que quero alcançar. Reescrevo palavras que já foram escritas e reconto o que ouvi dizer. O que narro não tem ponto-final, e é isso um desejo: que continuem a narrativa.
As personagens das minhas narrativas se parecem muito com as pessoas com quem vivi…
