Edição 144
Sob um novo olhar
Quem cuida de quem cuida?
Apolinário da Cunha

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Alongamento e meditação como cuidados físico e mental do professor
RESUMO
Os efeitos das condições de trabalho vão além do trabalhador, determinando, muitas vezes, prejuízo à saúde física e mental do profissional do magistério. Dessa forma, é evidente o aparecimento cada vez maior de doenças relacionadas ao trabalho, afetando tanto a saúde física quanto mental do profissional. Nas escolas brasileiras, são observáveis deficiências de natureza ergonômica, organizacional e de fatores de cuidados psicossociais. Pesquisas recentes apontam um aumento do adoecimento tanto físico quanto mental dos professores brasileiros de forma geral. Dessa forma, fazem-se necessários a intervenção e o desenvolvimento de ações voltadas para a saúde integral do professor de todas as áreas nas escolas, no intuito de reduzir e/ou eliminar fatores produzidos pela atividade docente que podem trazer repercussões negativas sobre a saúde dos referidos profissionais, tão importantes para o desenvolvimento de nossa nação. Nesse sentido, destaca-se a importância de se promover ações que atendam às necessidades de promoção e cultivo de saúde física e mental dos nossos professores brasileiros. Responder à questão “Quem cuida de quem cuida?”, sobretudo no aspecto emocional/mental, é uma urgência premente.
Palavras-chave
Professor, cuidado, saúde.
INTRODUÇÃO
O alongamento é um elemento promotor de saúde importante. Ele desacelera o corpo e diminui a tensão nos músculos, prepara cartilagens, articulações e músculos. O alongamento também traz benefícios para a saúde de quem não pratica exercícios. A prática de exercícios de alongamento, assim como a realização de atividades físicas regulares, promove ganhos significativos na promoção de saúde e no bem-estar físico e mental.
São múltiplos os benefícios do alongamento:
» Melhora a postura.
» Relaxa a musculatura.
» Diminui as cãibras.
» Previne lesões.
» Aumenta a flexibilidade.
» Alivia dores.
» Melhora o bem-estar geral.
O relaxamento é uma técnica física que auxilia nos estados de estresse e tensão muscular e ainda atua como meio revigorante que beneficia sua saúde física, mental e emocional. Para fazer relaxamento, o ideal é estar num ambiente confortável, aquecido, à meia-luz e silencioso.

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Os benefícios do relaxamento
1. Melhora a saúde do coração
Segundo a American Heart Association, vários estudos demonstram que o estresse, à semelhança da má alimentação e do sedentarismo, é um fator de risco para a hipertensão e doenças cardiovasculares. Para prevenir e combater os efeitos do estresse, é importante ter momentos de relaxamento, que ajudam a baixar os valores de tensão arterial e de colesterol e regularizam o ritmo dos batimentos cardíacos, preservando a saúde do coração.
2. Melhora a disposição
O relaxamento, tal como o exercício físico e outras atividades que proporcionem prazer, evita e contraria os efeitos do estresse, pois promove a libertação de endorfinas — neurotransmissores que provocam a sensação de bem-estar.
3. Melhora a memória
Um estudo realizado em ratos de laboratório e publicado no jornal científico Neuron demonstrou que o estresse crônico danificava áreas do cérebro associadas ao pensamento abstrato, à aprendizagem e à memória. Em simultâneo, está já comprovado cientificamente que o estresse aumenta a produção de proteínas do cérebro associadas à doença de Alzheimer, podendo acelerar o desenvolvimento desta.
4. Reduz o risco de depressão
A presença prolongada de cortisol (hormônio do estresse) no nosso organismo pode reduzir os níveis de serotonina e dopamina — níveis baixos desses neurotransmissores estão associados à depressão. Uma revisão científica a vários estudos que se debruçaram sobre o comportamento do cortisol em diversas situações permitiu apurar que as massagens de relaxamento provocam o aumento dos níveis de serotonina e de dopamina.
5. Reduz a tensão muscular e alivia a dor crônica
O estresse aumenta a tensão muscular. Por sua vez, segundo a American Chronic Pain Association (ACPA), a tensão muscular aumenta a dor crônica.
O relaxamento é eficaz para reduzir a tensão muscular ao diminuir os níveis de cortisol, descontraindo os músculos e aumentando a sensação de bem-estar.
Quem cuida de quem cuida? Esta é a problemática principal que motivou o presente artigo. Para Assunção (2005), Vianello (2008); Gama (2008), Bastos (2009), Campos (2009), Carlotto, Pizzinato (2013), dentre outros, a “saúde do professor” é um fenômeno novo. Pesquisas recentes têm apontado que a saúde do trabalhador docente é cada vez mais delineada a partir de situações e estilo de vida associados a motivos variados de saúde, do cansaço físico de ficar em pé por várias horas ministrando aula, do uso excessivo da fala, da extrapolação e do esforço mental, dentre outros.
O cotidiano escolar, da maneira atual em que se apresenta, tem atingido de forma preocupante os profissionais do magistério, favorecendo o adoecimento físico e mental dos mencionados profissionais, considerando-se as tensões em sua prática diária.
Os fatores apresentados são diversos, vão do excesso de trabalho à desvalorização do profissional, de poucos recursos didáticos à superlotação nas salas de aula, dentre outros. Encontrar estratégias que amenizem as situações expostas em vista da promoção de saúde dos docentes do Brasil é o motivo deste artigo, que apresenta em seu bojo o alongamento corporal e a meditação como fatores promotores da saúde física e corporal a serem desenvolvidos no ambiente escolar como práticas regulares. Professores motivados tendem a motivar seus alunos, além de tornar o ambiente escolar mais agradável e melhor de conviver em todos os aspectos. O professor de Educação Física, valendo-se de seus conhecimentos fisiológicos, anatômicos e de elementos diversos, pode e deve favorecer de forma prática atividades como o alongamento e a meditação, promovendo e mantendo a saúde integral de todos aqueles que cuidam — os professores.

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REFERENCIAL TEÓRICO
Necessário se faz no contexto atual repensar e criar momentos de alongamento, relaxamento e desaceleração no ambiente escolar, de modo especial na sala dos professores, com enfoque em suas tensões mentais e físicas, criando diversos momentos para o uso de técnicas de relaxamento e alongamento corporal. Embora sejam poucas as pesquisas que abordem a referida temática, este é um campo a ser considerado, pois, enquanto os professores cuidam de tantos alunos, faltam-lhes cuidados necessários para sua prática diária. Seja por parte da própria escola, por não conseguir enxergá-lo como necessitado também de cuidados, seja pelo excesso de exigência de resultados a serem apresentados. Oportuno se faz abordar tal assunto, verificando-se as necessidades docentes, referentes ao quesito saúde física e mental, com o objetivo de compreender o sentido das estratégias de alongamento e relaxamento a serem utilizadas, havendo comprovação das reais necessidades devidamente pesquisadas. Segundo Gil (2008, p. 26a), “O objetivo fundamental da pesquisa é descobrir respostas para problemas mediante o emprego de procedimentos específicos”. Os procedimentos metodológicos científicos que serão utilizados nesta pesquisa social serão de abordagem qualitativa. Em Gil (2008, p. 26b), observamos que “A realidade social é entendida aqui em sentido bastante amplo, envolvendo todos os aspectos relativos ao homem em seus múltiplos relacionamentos com outros homens e instituições sociais”. O referencial teórico foi desenvolvido com base em pesquisa bibliográfica que, compreendida por Severino (2010), realiza-se a partir do registro disponível, decorrente de pesquisas anteriores, em documentos impressos, como livros, artigos, teses, etc.
O método de intensificação do trabalho vivido pelos docentes, especialmente das escolas públicas municipais e estaduais brasileiras na atualidade, além de comprometer a saúde mental e física dos professores de forma geral, pode pôr em risco a qualidade da educação, considerando-se que tais profissionais se encontram em constante situação de sobrecarga no seu agir profissionalmente, sendo, portanto, urgente uma atuação externa que vise também a qualidade de vida dos professores, pois são eles os cuidadores por excelência dos alunos de todas as escolas brasileiras.
Referências
ASSUNÇÃO, A. A. Saúde e condições de trabalho nas escolas públicas. In: OLIVEIRA, D. A. (Org.). Reformas educacionais na América Latina e os trabalhadores docentes. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. p. 87-102.
ASSUNÇÃO, A. A. Ensinar em condições precárias: efeitos sobre a saúde; relatório de estudo exploratório. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2005.
ASSUNÇÃO, A. A. et al. Prevalence of common mental disorders in basic education teachers in Belo Horizonte, Brazil (no prelo).
GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2008.
SEVERINO, Antonio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 23. ed. São Paulo, Cortez, 2010.
VIANELLO, L.; ASSUNÇÃO, A. A.; GAMA, A. C. C. Estratégias implementadas para enfrentar as exigências vocais da sala de aula: o caso das professoras readaptadas por disfonia. Revista Distúrbios da Comunicação. São Paulo, v. 20, n. 2, p. 163-170, 2008.
Sobre o autor
Apolinário da Cunha é filósofo, profissional de Educação Física, pós-graduado em Docência do Ensino Superior, Atividade Física e Saúde.
E-mail: apolinariodacunha@hotmail.com
