Edição 147

Como mãe, como educadora, como cidadã

VIOLÊNCIA NO FUTEBOL:

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Zeneide Silva

Sempre procuro escrever a respeito do que vivi ou presenciei, mas o tema desta edição é algo sobre o qual nunca pensei em abordar: o futebol. Nunca gostei de futebol, não assisto nem jogo. Brinco dizendo que, para evitar problemas, fanatismo, violência, morte e prisão, daria uma bola para cada jogador para que eles pudessem brincar com ela em vez de estarem brigando por uma.
A violência no futebol não é um fenômeno isolado do estádio: muitas vezes seus traços mais visíveis têm raízes que começam em casa.
Este texto propõe refletir sobre como práticas educativas, discursos e exemplos domésticos podem tanto alimentar comportamentos agressivos quanto ser instrumentos poderosos para preveni-los, oferecendo caminhos concretos.
A violência entre torcedores de futebol é um problema social sério que vai muito além do esporte. Ela nasce, muitas vezes, da intolerância, do fanatismo e da dificuldade de lidar com a diferença, transformando a paixão pelo time em rivalidade extrema e agressiva.
Em vez de ser um espaço de convivência, alegria e identidade cultural, o futebol acaba, em alguns casos, tornando-se palco de brigas, ofensas, depredações e até mortes. Crianças e famílias deixam de frequentar estádios por medo, e o que deveria unir pessoas acaba dividindo ainda mais.
Esse tipo de violência também reflete questões profundas da sociedade, como desigualdade, exclusão, falta de diálogo, ausência de políticas públicas eficazes e a normalização do ódio nas relações cotidianas. O estádio vira apenas o cenário onde conflitos mal resolvidos explodem.

A violência das torcidas não nasce nos estádios, ela é cultivada nas relações cotidianas, quando o outro não é reconhecido como legítimo em suas escolhas.

Vou agora relatar o caso que presenciei.

Em uma loja de artigos escolares, uma mãe discutia com seu filho sobre a compra de uma caneta. O menino queria uma caneta do time pelo qual torcia, mas a mãe se opunha, alegando que seu time era diferente. Com raiva, ela insistiu que não compraria a caneta que ele havia pedido, mas que compraria a do seu time, colocando-a dentro da cesta de compras, e ainda disse que, se ele quisesse, pedisse ao pai para voltar e comprar a caneta, já que torcem pelo mesmo time. A insistência da criança apenas aumentava a tensão, enquanto a mãe mantinha sua decisão firme.
Fiquei observando e, ao mesmo tempo, triste em ver uma cena tão desagradável em que uma mãe e um filho discutiam por causa de uma caneta.
Aquela situação revelava algo muito maior do que um objeto ou uma escolha banal. Ali, naquele pequeno gesto, estava sendo ensinada uma lição silenciosa: a de que o desejo do adulto se sobrepõe ao da criança, mesmo quando não há necessidade alguma de disputa.
A criança aparentava ter uns seis anos, expressava sua identidade nascente, seu gosto, sua alegria inocente ao querer a caneta do time que ama. A resposta que recebeu, porém, foi a imposição do gosto da mãe. Não houve diálogo, escuta ou concessão. Houve poder. E é exatamente assim que a intolerância começa: dentro de casa, em pequenas violências disfarçadas de autoridade.
Esse tipo de briga, tão comum em temas como futebol, religião ou política, carrega uma violência simbólica profunda. Não é o grito que machuca mais, mas a mensagem transmitida: “O que você sente não importa”. Quando adultos não cedem por egoísmo ou necessidade de controle, ensinam às crianças que vencer é mais importante do que respeitar, que impor é melhor do que compreender.
A violência das torcidas não nasce nos estádios, ela é cultivada nas relações cotidianas, quando o outro não é reconhecido como legítimo em suas escolhas. Um time passa a ser mais importante do que o vínculo, do que o afeto, do que o exemplo. E assim, sem perceber, vamos formando adultos intolerantes, incapazes de conviver com a diferença.
Educar não é vencer disputas, é formar consciências. Ceder não é perder, é ensinar empatia. O lar deveria ser o primeiro espaço de respeito — não o primeiro campo de batalha.
Selecionei alguns trechos sobre a agressividade nos estádios de futebol, é impressionante como, em todo o Brasil, o futebol se tornou símbolo de violência.

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Violência entre torcidas de futebol ganha mais um capítulo a cada fim de semana em todo o Brasil, sempre a incerteza se todos voltarão para casa em paz.

 

A insegurança em dia de jogo, entretanto, não é de agora. Há anos que os estados vêm presenciando episódios recorrentes de violência envolvendo torcidas organizadas dos times.

 

Um torcedor morreu em confronto entre torcidas.

 

Um clássico foi marcado por violência e vandalismo nas ruas. Antes da partida, confrontos entre torcedores ocorreram em diversos bairros.

 

Após membros de torcidas organizadas de dois clubes se enfrentarem nas ruas da capital, 12 pessoas vítimas de agressões físicas deram entrada na unida de de emergência.

 

Chegou ao extremo, né? Nunca tinha acontecido isso de eles virem fazer isso na rua, soltar fogos, abaixar o nível a ponto de machucar outras pessoas. É muito triste. Eu acho que isso mancha o futebol. Eu acho que não tem que ter essa violência. Inclusive, a rua está toda ensanguentada. Com certeza alguém se machucou.

Que tenhamos força, fé e coragem para mudarmos essa realidade.

Grande abraço,
Zeneide Silva

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