Edição 148

Em discussão

A escola que ensina a pensar, mas esquece de sentir

Paty Fonte

As escolas nunca falaram tanto sobre desempenho, resultados e aprendizagem. Ainda assim, nunca vimos tantos casos de bullying, violência, ansiedade e depressão entre crianças e jovens. Há algo que não fecha nessa equação.

Durante décadas, a educação foi construída sobre uma lógica que separa razão e emoção, como se pensar fosse um ato neutro e aprender não envolvesse corpo, afeto, história e experiência. O resultado é uma escola eficiente em transmitir conteúdos, mas, muitas vezes, incapaz de acolher sofrimentos, conflitos e silêncios.

O sociólogo colombiano Orlando Fals Borda já denunciava essa fragmentação ao propor o conceito de Sentipensar: uma forma de compreender o conhecimento como integração entre pensamento racional, emoção e experiência vivida. Conhecer, para ele, não é apenas acumular informações, mas envolver-se ética e afetivamente com o mundo.

Na educação contemporânea, essa ideia ressurge em propostas como o projeto Sentipensar, vinculado à Universidade de Barcelona e à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que defende uma formação humana integral, capaz de responder às profundas mudanças epistemológicas do século XXI.

Quando professores criam espaços de escuta, rodas de conversa, projetos com sentido, avaliações mais narrativas e relações menos punitivas, algo muda no ambiente escolar. Conflitos diminuem, vínculos se fortalecem, e os estudantes passam a se sentir vistos. Não se trata de “abrir mão do conteúdo”, mas de reconhecer que não há aprendizagem verdadeira onde há medo, indiferença ou sofrimento silenciado.

Os altos índices de bullying e o crescimento alarmante de quadros de ansiedade e depressão entre crianças e adolescentes não podem ser tratados como problemas individuais ou familiares. Eles revelam uma crise mais profunda: a de um modelo educativo que exige performance, mas ignora a subjetividade; que cobra resultados, mas não ensina a lidar com emoções.

Sentipensar não é uma metodologia pronta nem uma tendência pedagógica passageira. É uma escolha ética. Ou a escola aprende a integrar razão e afeto, conhecimento e humanidade, ou continuará formando sujeitos escolarizados, porém emocionalmente exaustos.

Para reencantar a educação, não é preciso reinventar a escola, mas ter coragem de devolver humanidade ao ato de aprender.

A AUTORA

Acervo da autora

Paty Fonte é pedagoga; consultora educacional; filósofa; palestrante; conferencista; Especialista em Pedagogia de Projetos, Pedagogia das Infâncias e Pedagogia do Brincar; pesquisadora das Competências Socioemocionais na Escola; escritora, autora de diversos livros, dentre eles: Competências Socioemocionais na escola e Práticas socioemocionais para dinamizar o ambiente escolar, publicados pela Wak Editora.

@professorapatyfonte

 

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