Edição 149

Socioemocional

POR QUE MESMO AS CRIANÇAS VÃO PARA A ESCOLA?

Claudia Werneck

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“Para ter uma profissão”; “Para entrar na faculdade”; “Para aprender Matemática, Física e Português”. Tudo isso pode ser verdade, mas é muito pouco se quantificarmos quantas horas de um dia — e quanto tempo de uma vida — são totalmente dedicadas à escola e às suas tarefas em casa. Por que razão as crianças vão pra escola? Para estudar — essa é uma resposta bastante precária. Tão rasa quanto acreditar que bebemos água porque temos sede.

Escola é o espaço onde as gerações se encontram, se entendem e se reconhecem como parte de uma geração indivisível, única e temporal. É na escola que crianças e adolescentes de idade próxima desenvolvem e testam a técnica, a intuição, a sensibilidade, a criatividade, a flexibilidade e a arte de formar entre si parcerias indispensáveis para o futuro da nação. Quem não vai para a escola fica fora da memória afetiva de sua geração, e pra sempre.

Sou contra a prática do homeschooling¹.

Desejo que toda criança se perceba empática e sinapticamente enredada às demais crianças, cúmplices pelo simples fato de terem nascido na mesma época; morarem naquele bairro ou passarem juntas pela pandemia de covid-19, entre outras similitudes.

Embora ainda não alcancemos que tipo de marcas o isolamento social e o sofrimento generalizado provocado pela pandemia irão deixar para quem está na infância ou na adolescência, é certo que impactarão fortemente quem está em fases tão sensíveis de desenvolvimento¹.

Na escola, nem tudo são — nem serão — flores. Natural que seja assim. Dói para a criança, em alguma medida, construir a sua autoestima social. Mais ainda se, até então, seu único espaço de interação era com a família em um lar cuidador, protetor e amoroso, como idealmente todos deveriam ser.

A formação da autoestima social envolve riscos, desafios, descobertas e experiências — para o “bem” e para o “mal”.

Qual será a sensação que uma criança tem ao ficar tantas horas com pessoas de corpos tão vulneráveis e pequenos como o dela? Deve ser de muita emoção e felicidade, mesmo que envolva disputa de atenção e brinquedos. Mas, no decorrer da vida, a gente se esquece de tudo isso que viveu e sentiu. Documentados eternamente só ficam mesmo o currículo escolar, as notas e os conceitos. Boletins com avaliações que, depois, serão motivo de orgulho, frustração ou piada.

É nossa autoestima social sendo moldada a partir da avaliação das pessoas de corpos grandes que cuidavam de nós naquele espaço.

Cada pessoa adulta é responsável pela escola que temos no Brasil e também por transformá-la em algo menos excludente sob qualquer perspectiva: a educação inclusiva. Conversar sobre qual é o motivo de as crianças irem para a escola deveria ser assunto em família ou em bar, com amigos e amigas, tema de interesse público para qualquer idade. Daí, amadurecendo reflexões e desenvolvendo uma visão mais crítica sobre o sentido e o valor de se frequentar diariamente uma sala de aula desde a infância, e por toda a vida, imagino que teríamos na ponta da língua respostas mais consistentes, livres de jargões e pieguismos. Ao contrário, é comum que as famílias comecem a pensar sobre educação e, principalmente, educação inclusiva “no susto”, sob ameaças, urgências e necessidades pessoais. Tudo sem terem acumulado conteúdo crítico que dê conta da complexidade da demanda.

1 Este trecho foi mantido em sua redação original, no contexto da pandemia de covid-19.

 

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Podemos até argumentar que nosso desinteresse vem da rotina doméstica e laboral estafante — e do trabalho que dá sobreviver e manter a saúde da prole em dia. Mas não é por isso que somos tão naives quando se trata de conversar sobre a vida escolar. Falta veracidade nessa argumentação. A história é outra: preferimos seguir no automático, como se ir para a creche ou a escola fosse uma decorrência natural — quase biológica — na vida de alguém que acabou de nascer. Assim como andar vem depois de engatinhar. Mas não é. Existe um futuro individual e cidadão a ser pensado e decidido.

E voltando à Química, à História, à Geografia, às provas, às notas e à Literatura… Ah, sim. Isso a escola oferece — também.

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DIREITO À ACESSIBILIDADE 

Por favor, avise a pessoas cegas, com baixa visão, analfabetas, que precisam ou preferem acessar informação de diferentes modos, que o livro Tia Zilda: histórias de inclusão está publicado em nove formatos acessíveis: impresso, PDF, TXT, DOC, ebook acessível, vídeo com Libras e legenda, audio-book, audio-book com audiodescrição e vídeo em linguagem simples. O texto impresso está diagramado com mais espaço entre as linhas, em fonte Arial e em corpo maior.

Também como medida de acessibilidade, a encadernação é em wire-o (espiral). Acesse os formatos digitais no QR Code em relevo na capa ou pelo aplicativo VEM CA, da Escola de Gente. O formato impresso em tinta pode ser solicitado gratuitamente pelo email escoladegente@escoladegente.org.br. Link aqui!

As 50 primeiras instituições leitoras da revista Construir Notícias receberão gratuitamente um exemplar da segunda edição do livro Tia Zilda: histórias de inclusão, a partir do segundo semestre. Para participar, basta enviar um email para escoladegente@escoladegente.org.br com a frase: “Eu quero um exemplar para a minha instituição!”.

Podemos até argumentar que nosso desinteresse vem da rotina doméstica e laboral estafante — e do trabalho que dá sobreviver e manter a saúde da prole em dia. Mas não é por isso que somos tão naives quando se trata de conversar sobre a vida escolar. Falta veracidade nessa argumentação. A história é outra: preferimos seguir no automático, como se ir para a creche ou a escola fosse uma decorrência natural — quase biológica — na vida de alguém que acabou de nascer. Assim como andar vem depois de engatinhar. Mas não é. Existe um futuro individual e cidadão a ser pensado e decidido.

E voltando à Química, à História, à Geografia, às provas, às notas e à Literatura… Ah, sim. Isso a escola oferece — também.

A Autora

Claudia Werneck é jornalista com especialização em Comunicação e Saúde pela Fiocruz e referência nacional e internacional em acessibilidade e inclusão. Fundadora da ONG Escola de Gente – Comunicação em Inclusão, foi a primeira especialista nomeada pela ministra Margareth Menezes a ocupar a então recém-criada cadeira de acessibilidades artísticas na Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), órgão cogestor da Lei Rouanet, no ano de 2023. Em nome da Escola de Gente recebeu o Prêmio Direitos Humanos 2011 e a Ordem do Mérito Cultural 2014, ambos da Presidência da República. Autora de 15 livros sobre diversidade e inclusão, muitos publicados em português, inglês e espanhol, é a única escritora brasileira recomendada oficialmente pela Unesco e pelo Unicef. Empreendedora social da Rede Ashoka, foi a primeira ativista em direitos humanos a disseminar o conceito de sociedade inclusiva, segundo a ONU, na América Latina. Já palestrou sobre sua obra em 15 países.

Publicado na revista Pais&Filhos, em junho de 2021.

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