Edição 150
Professor Construir
Escola Empreendedora: o “laboratório de sonhos” para a transformação do mundo
Rosangela Nieto de Albuquerque

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As profundas mudanças que caracterizam a sociedade contemporânea têm produzido impactos significativos nas relações humanas, no mundo do trabalho e nos processos educativos. O avanço tecnológico, a globalização e as novas demandas sociais impõem à escola a necessidade de repensar suas práticas pedagógicas, de modo a formar indivíduos capazes de atuar de forma criativa, crítica e responsável diante das constantes transformações.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reforça essa perspectiva ao destacar competências gerais relacionadas ao pensamento científico, à criatividade, à responsabilidade, à argumentação e ao protagonismo dos estudantes (Brasil, 2018). Dessa maneira, a escola deixa de ser apenas um espaço de transmissão de conhecimentos para tornar-se um ambiente de formação integral e de transformação social. Assim, há uma questão para refletir: de que maneira a Escola Empreendedora contribui para a formação de alunos capazes de transformar o mundo?
A implementação da cultura empreendedora na Educação Básica como pilar fundamental para o desenvolvimento econômico e social sustentável é urgente diante de um cenário global em constante transformação, a escola é convidada a abandonar o modelo tradicional de ensino metódico e mensurável para assumir um papel de incubadora de cidadãos críticos, autônomos e protagonistas. Refletir acerca da Escola Empreendedora ancora-se nos conceitos de Destruição Criativa, de Schumpeter, aplicados à educação; na Pedagogia Empreendedora, de Fernando Dolabela; e na educação crítica e dialógica, de Paulo Freire. Utilizar a metáfora da escola como um laboratório de sonhos nos remete a suscitar estratégias, como o componente curricular Projeto de Vida e o framework EntreComp, evidenciando que o empreendedorismo na educação não se restringe à abertura de negócios, mas constitui-se como uma forma de ser e de intervir na realidade social para gerar valor e reduzir desigualdades.
Nesse cenário, a educação empreendedora surge como uma proposta pedagógica que busca desenvolver competências relacionadas à inovação, autonomia, liderança, cooperação e resolução de problemas, promovendo uma formação voltada para a construção de projetos de vida e para o exercício da cidadania.
“[…] o empreendedorismo
educacional ultrapassa a dimensão
econômica, assumindo também
uma perspectiva social.”
A metáfora do laboratório de existências
Imagine a escola… não como uma linha de montagem industrial, onde mentes têm moldes idênticos para atender às engrenagens de um mercado de trabalho estático, mas, sim, como um laboratório de sonhos. Nesse laboratório, cada aluno assume o papel de um cientista de sua própria existência. As salas de aula não são cercadas por muros impenetráveis, mas por membranas permeáveis, que permitem ao mundo exterior entrar e ao aprendizado interno transbordar para a comunidade.
A Escola Empreendedora é o espaço onde o “saber” deixa de ser um fim em si mesmo para tornar-se uma ferramenta do “ser”. Vivemos o início da “era do fim dos empregos”, e a alternativa mais viável para as futuras gerações é o estímulo ao espírito empreendedor desde a infância, deslocando o foco da busca por um “bom emprego” para a construção de um “grande projeto de vida”. Formar alunos para transformar o mundo exige uma quebra de paradigmas na tradição didática, onde atitudes, emoções e sonhos ganham a atenção que antes era exclusiva do conteúdo instrumental.
O conceito de empreendedorismo como uma “forma de ser” é amplo e humanista. Segundo Fernando Dolabela, o empreendedor é alguém que sonha e busca transformar esse sonho em realidade em qualquer atividade humana, lucrativa ou não. A Teoria Empreendedora dos Sonhos permite transportar a capacidade empreendedora da empresa para todas as esferas da vida.
Dessa forma, a educação empreendedora deve aumentar a capacidade de gerar capital social e humano, combatendo a exclusão social e a miséria. No Brasil, essa agenda é vital, pois o empreendedorismo deve ser um alavancador do desenvolvimento que não apenas gera riqueza, mas a distribui, melhorando a coletividade.
Inovação e libertação – a destruição criativa na educação
Para compreender a necessidade dessa mudança, recorremos ao conceito de Destruição Criativa, de Joseph Schumpeter (1982). Originalmente voltada ao capitalismo, essa teoria defende que as inovações destroem produtos e modelos obsoletos para lançar novos, controlando o mercado por meio da eficiência. No cenário educacional, a destruição criativa propõe a ruptura com o modelo tradicionalista, em que o professor detinha todo o conhecimento, em favor de um sistema inovador que leve em conta a realidade do aluno.
Inovar o processo educacional não significa apenas equipar prédios com recursos tecnológicos; a verdadeira destruição criativa ocorre na mudança das metodologias, tornando as aulas significativas e atrativas. A escola deve estar conectada às transformações velozes do mundo contemporâneo, preparando o educando para ser protagonista na construção de conhecimentos que não percam a validade em um piscar de olhos.
A criatividade é uma das competências mais valorizadas na sociedade contemporânea e constitui elemento central da educação empreendedora. Segundo Robinson (2010), as escolas tradicionalmente têm privilegiado modelos de ensino que pouco favorecem o pensamento criativo. Em contrapartida, ambientes educacionais inovadores estimulam a experimentação, a curiosidade e a busca por soluções originais.
Para Schumpeter (1982), a inovação é responsável pelo desenvolvimento econômico e pela transformação das sociedades. Entretanto, o empreendedorismo educacional ultrapassa a dimensão econômica, assumindo também uma perspectiva social. Nesse sentido, o empreendedorismo social busca gerar impacto positivo na comunidade, promovendo inclusão, sustentabilidade e melhoria da qualidade de vida.
A Escola Empreendedora, portanto, deve incentivar os estudantes a reconhecerem problemas sociais e a desenvolverem soluções criativas que contribuam para a construção de uma sociedade mais justa e solidária.
“O protagonismo estudantil constitui um dos pilares da educação empreendedora, pois possibilita que os estudantes desenvolvam autonomia, responsabilidade e consciência crítica.”
Educação crítica para a autonomia
A transformação do mundo pretendida pela Escola Empreendedora encontra eco na pedagogia de Paulo Freire. A educação deve ser um caminho para a transformação social, promovendo a conscientização do sujeito sobre seu estar no mundo. Freire critica a “educação bancária”, comparando-a a uma instituição financeira onde o aluno é um mero “depositório” estático.
Em contraste, a educação crítica defende que ninguém ignora tudo e ninguém sabe tudo; todos trazem uma “leitura de mundo” prévia que deve ser valorizada no ambiente escolar. O método dialógico é o intermédio para que o conhecimento autêntico aconteça, permitindo que o aluno se descubra em seu potencial criativo e aprenda a fazer uma releitura crítica da realidade para criar novas formas de conviver.
A Escola Empreendedora caracteriza-se por promover ambientes de aprendizagem que valorizam a participação ativa dos estudantes, estimulando a investigação, a criatividade e a construção coletiva do conhecimento.
Para Freire (1996), ensinar não significa transferir conhecimento, mas criar possibilidades para sua produção. Nessa perspectiva, o aluno deixa de ser um receptor passivo e assume uma postura protagonista em seu processo formativo.
O protagonismo estudantil constitui um dos pilares da educação empreendedora, pois possibilita que os estudantes desenvolvam autonomia, responsabilidade e consciência crítica.
Estratégias metodológicas na Escola Empreendedora
O Projeto de Vida (PV) é o componente curricular que se configura como eixo estruturante e é uma das estratégias mais eficazes para a formação empreendedora na Educação Básica. O PV atua como o motor do laboratório de sonhos, incentivando o aluno a refletir sobre sua identidade, seus valores e sua Responsabilidade Social. Ao estruturar eixos como Eu e o Mundo e Mundo do Trabalho, o PV permite que o estudante planeje seu futuro profissional e pessoal de forma autônoma e consciente.
Na prática da Educação de Jovens e Adultos (EJA), por exemplo, o PV torna-se um espaço de liberdade para expor problemas e encontrar soluções reais para a vida financeira e social. Atividades como debates críticos sobre o espaço escolar e a “descoberta de propósito” fortalecem o vínculo entre docente e discente, gerando um ambiente de acolhimento e respeito às vivências individuais.

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Metodologias ativas: o “mão na massa” do conhecimento
Moran (2018) afirma que metodologias ativas, como aprendizagem baseada em projetos, sala de aula invertida e resolução de problemas, favorecem o desenvolvimento do protagonismo e da aprendizagem significativa.
A Escola Empreendedora valoriza experiências que possibilitam aos estudantes:
› Investigar problemas reais.
› Propor soluções inovadoras.
› Trabalhar em equipe.
› Desenvolver liderança.
› Construir projetos de vida.
› Exercer a cidadania.
Dessa forma, a aprendizagem torna-se mais significativa e conectada às necessidades da sociedade.
Nesse contexto, a Escola Empreendedora precisa utilizar metodologias ativas como a Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP) e a Aprendizagem Baseada em Problemas. Essas estratégias transformam a sala de aula em um espaço de investigação e experimentação, onde o erro é visto como parte do processo de aprendizado.
› ABP: Organiza estudantes em grupos para resolver desafios reais, estimulando criatividade, tomada de decisão e trabalho em equipe.
› Contextos investigativos: Utilizados, especialmente, na infância, são convites para o encontro empático e atitude curiosa, explorando temas como meio ambiente, culinária e inclusão para construir o conhecimento de forma experiencial.
› Jogos e simulações: Estimulam mentes estratégicas e reflexivas, auxiliando, inclusive, na alfabetização e no domínio da linguagem de forma lúdica.
O framework EntreComp
Para balizar essas competências, o modelo EntreComp, desenvolvido pela Comissão Europeia, define o empreendedorismo como uma competência transversal para a vida. Ele divide as habilidades empreendedoras em três áreas fundamentais:
› Ideias e oportunidades: Criatividade, visão e pensamento ético.
› Recursos: Autoconhecimento, autoeficácia e motivação.
› Ações: Planejamento, gestão e aprendizado com a experiência.
O papel do professor: o arquiteto de ambientes educadores

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Nesse laboratório, o professor deixa de ser o detentor absoluto do saber para tornar-se um interventor e mediador. Sua tarefa é provocar o desequilíbrio nas relações do aluno com o mundo através de perguntas e desafios, oferecendo o apoio necessário para que o educando desenvolva uma ação auto-organizadora.
O professor empreendedor em sala de aula não transfere informações de forma mecânica, mas desenvolve potenciais, derrubando os muros físicos e mentais que limitam o aprendizado. Ele deve ser curioso, entusiasmado e humilde para aprender junto com o aluno as novidades da era digital e das transformações sociais. A formação continuada é, portanto, o combustível que permite a esse educador ressignificar sua prática e enfrentar os desafios de um sistema, muitas vezes, rígido e focado apenas em resultados mensuráveis.
Uma Escola Empreendedora necessita de um professor empreendedor. Para Schumpeter (1982), o empreendedor é aquele que introduz inovações capazes de transformar a realidade econômica e social. A inovação constitui o principal motor do desenvolvimento.
Filion (1999) destaca que o empreendedor é alguém que imagina, desenvolve e realiza visões, sendo a capacidade de sonhar e concretizar projetos uma característica essencial do comportamento empreendedor.
No contexto educacional brasileiro, Dolabela (2008) enfatiza que o empreendedorismo é uma forma de ser e de agir diante do mundo, estando relacionado à criatividade, à autonomia, à capacidade de aprender continuamente e ao compromisso com a coletividade.
Portanto, a educação empreendedora apresenta-se como uma proposta alinhada às necessidades da sociedade contemporânea, favorecendo a formação integral dos estudantes.
“[…] o empreendedor é aquele
que introduz inovações capazes
de transformar a realidade
econômica e social.”

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“A Escola Empreendedora não é uma
utopia irrealizável, mas um compromisso
histórico com a formação humana plena.”
Considerações Finais
As transformações do século XXI evidenciam a necessidade de uma educação capaz de formar sujeitos críticos, criativos, autônomos e comprometidos com a construção de uma sociedade mais humana e sustentável.
A Escola Empreendedora apresenta-se como uma resposta às demandas contemporâneas, favorecendo o desenvolvimento de competências cognitivas, socioemocionais e éticas, essenciais para a vida em sociedade.
É importante enfatizar que a educação empreendedora não se restringe à dimensão econômica, mas constitui uma proposta de formação integral voltada para o protagonismo, a inovação e a transformação social. Desse modo, formar alunos para transformar o mundo significa proporcionar experiências de aprendizagem significativas, capazes de estimular a criatividade, a responsabilidade social e a capacidade de intervir positivamente na realidade. Assim, a Escola Empreendedora assume um papel estratégico na formação de cidadãos preparados para enfrentar os desafios do presente e construir um futuro mais justo, sustentável e inovador.
A Escola Empreendedora não é uma utopia irrealizável, mas um compromisso histórico com a formação humana plena. Ao ressuscitar a autoestima dos alunos e prepará-los para “conversar com o mundo”, a Educação Básica cumpre seu dever de gerar capital social e reduzir a distância entre pobres e ricos.
Os resultados de experiências como a da Pedagogia Empreendedora mostram mudanças comportamentais extraordinárias: alunos mais solidários, respeitosos e, acima de tudo, capazes de acreditar em sua capacidade de realizar sonhos. Ao transformarmos cada escola brasileira em um laboratório onde o protagonismo e a ética são as principais matérias-primas, estaremos, de fato, formando alunos capazes de se adaptar ao mundo e de transformá-lo em um lugar mais justo, inovador e sustentável.
A transformação do mundo começa quando o primeiro sonho é formulado com a convicção de que pode ser realizado.
A Autora
Rosangela Nieto de Albuquerque é ph.D. em Educação (Universidad Nacional Tres de Febrero); pós-doutoranda em Psicologia; Doutora em Psicologia Social (Universidad John Kennedy); Mestre em Ciências da Linguagem; psicopedagoga clínica e institucional; neuropsicopedagoga;
neuropsicóloga clínica; pedagoga; licenciada em Letras (Português/Espanhol); psicanalista clínica; professora universitária de cursos de graduação e pós-graduação. Autora de projetos em Educação; autora da implantação de uma clínica-escola de psicopedagogia clínica como projeto social. Autora e organizadora de 13 livros na área da Educação e Psicologia.
E-mail: rosangela.nieto@gmail.com
ANPAD. Ensino do empreendedorismo na Educação Básica, voltado para o desenvolvimento econômico e social sustentável. 2006.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.
DOLABELA, Fernando. Pedagogia empreendedora. São Paulo: Cultura, 2008.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
FILION, Louis Jacques. Empreendedorismo: empreendedores e proprietários-gerentes de pequenos negócios. Revista de Administração, São Paulo, v. 34, n. 2, p. 5-28, 1999.
MORAN, José. Metodologias ativas para uma aprendizagem mais profunda. Porto Alegre: Penso, 2018.
PIAGET, Jean. Psicologia e pedagogia. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1976.
ROBINSON, Ken. O elemento: como encontrar sua paixão transforma tudo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2010.
SEBRAE. Nota Técnica 02 – Competências empreendedoras e o modelo EntreComp. [208-246]
SCHUMPETER, Joseph A. Teoria do desenvolvimento econômico. São Paulo: Abril Cultural, 1982.
UEMG. Projeto de Vida: estratégias de ensino-aprendizagem para a educação empreendedora. 2025.
