Edição 136

Refletindo

A cadeira repintada

Paco (SJ)

Era uma cadeira velha, bamba, em péssimo estado; com a pintura enrugada, gasta, a cor desbotada. Já não conseguia sustentar o próprio peso, maior a cada dia… Arranhões, sujeiras, manchas, pernas frágeis, partes quebradas. Vez ou outra, alguém retocava a pintura, e ela melhorava. Mas logo voltava a rachar e a descascar, ficando pior do que antes.

A tinta preta cobria a vermelha, a azul, a verde, a branca, a amarela, camada sobre camada…

Um belo dia, entretanto, sem saber como, ela foi parar na oficina de um marceneiro. Que tristeza chegar às pressas, submetida a empurrões e sacudidas no fundo de um caminhão! Mas, já que estava ali, o que mais poderia fazer? Ela já não ligava para nada.

O marceneiro pegou a cadeira e lavou-a com todo o cuidado. Alguma coisa no jeito dele intrigou a cadeira. Um pouco mais calma, resignou-se em receber mais uma camada de pintura. Mas, para sua surpresa, não sentiu o costumeiro cheiro de tinta. Ao contrário, o marceneiro se pôs a raspar a pintura. E como doía! A cura, entretanto, estava naquelas mãos que tanto machucavam a cadeira.

Pacientemente, o marceneiro raspava uma camada depois da outra, cantarolando baixinho:
— Cadeira, o marceneiro te conhece, tua real beleza ele conhece, ele sabe que podes ser reparada pela graça de seu amável cuidado.
O canto acalmou um pouco a cadeira. Mas ela não sabia o que pensar. O que estava acontecendo? Por que parecia mais pesada?
— Não aguento mais — gritava. — Pare com isso, cubra-me de novo, quero ficar sozinha!
Dia após dia, contudo, o marceneiro perseverava. Às vezes, deixava a cadeira descansar por algum tempo. Que alívio ela sentia, apesar de saber quanto caminho ainda tinha pela frente.
Dolorosamente, o marceneiro retirou, uma a uma, as camadas de preto, vermelho, azul, verde, branco, amarelo… A cadeira percebeu, então, uma mudança no modo de agir dele, que redobrou seus cuidados habituais para evitar qualquer machucadura.
Quando a última camada, de tinta amarela, começou a sair, a cadeira, num primeiro suspiro vital, teve uma ideia do que havia debaixo dela. Não mais pintura, e sim madeira, madeira de lei. E então compreendeu por que o tratamento do marceneiro mudara na derradeira camada: para não ferir a bela madeira que agora se revelava.

A cadeira tinha pressa em seu desejo de se ver melhor. Pouco a pouco, a madeira apareceu plenamente. Que sensação de prazer, glória, que revelação! A cadeira abandonou o marceneiro para viver livre da pintura, livre para ser ela mesma. Enfim, já não precisava dele… Pela primeira vez depois de muito tempo, a vida lhe parecia uma realidade nova, excitante.

Mas não demorou para os sinais de glória se dissiparem. Às vezes, a cadeira passava pelo marceneiro e via as mãos dele trabalhando para devolver o esplendor natural de outras cadeiras, outras mesas, outros móveis. E eles pareciam refletir a beleza do próprio marceneiro. E, então, a cadeira constatou como sua madeira era rústica e sem brilho…

Humildemente, voltou ao marceneiro e passou muito tempo com ele. Em vez de se ocupar de milhares de coisas, permanecia ao seu lado. Certo dia, ele lhe disse:
— Acho que você está preparada!
Tomou-a novamente e esfregou-a com uma lixa (e como machucava!). Mas agora ela sabia que o marceneiro conhecia seu trabalho. Ele lixou cuidadosamente, depois pegou uma lixa ainda mais fina e continuou…

E como foi bom desta vez! A cadeira nunca tinha sentido uma massagem tão agradável!

Em seguida, ungiu-a com uma estranha substância que realçou o colorido da madeira e sua beleza, acrescentando-lhe um toque delicado, doce, acetinado. Ela jamais se imaginou tão linda!

Envaidecida, chamou alguém que passava para se sentar, mas, esquecida da fragilidade de suas pernas, quase desmoronou. Amedrontada, correu para o marceneiro, que lhe pediu para esperar um momento, para fazê-la tomar consciência de sua própria fraqueza. Depois, colou-a firmemente, transmitindo-lhe um pouco de sua força.

Alguns dias mais tarde, ao se olhar, a cadeira notou alguns riscos, um pouco de poeira aqui, algumas manchas ali. A ideia de ser novamente recoberta pela pintura despertou seus antigos medos, e ela foi dominada pelo pânico. Desesperada, agitou-se, mas depois se aquietou e, olhando longamente para o marceneiro, compreendeu. Ela precisava dele não apenas uma vez, mas para sempre. Tinha sido restaurada por ele e só por intermédio dele poderia continuar a crescer em beleza. Precisava que ele tirasse seu pó, a limpasse, lixasse suas asperezas, mantivesse sua estabilidade.

Sim, já não podia pensar numa vida independente. Mas agora também já não precisava ter medo das camadas de pintura…

• Quantas camadas de tinta encobrem meu verdadeiro “eu”, a beleza que sou realmente… até para mim mesmo?
• Com quais camadas me apresento diante dos outros, seja para ser aceito, seja para esconder minhas imperfeições, limitações e pecados?
• Qual é o “alicerce” que sustenta a minha vida? Qual é o “chão” sobre o qual eu me construo? Qual é o “quadro” integrador que me unifica? Qual é o “horizonte” que dá sentido a tudo o que sou e faço? Quem é o “marceneiro” que me dá vida plena?


PACO, SJ. A cadeira repintada. Mensageiro do Coração de Jesus. São Paulo, v. 130, n. 1417, p. 44–45, jan./fev. 2024.

 

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