Edição 146

Professor Construir

A MORADA COMO EXPRESSÃO DA FRATERNIDADE: uma análise da Campanha da Fraternidade 2026

Rosangela Nieto de Albuquerque

A tenda de Deus, armada entre nós, convoca-nos a construir tendas de justiça e dignidade para todos os filhos e filhas de Deus.
A Campanha da Fraternidade 2026, com o tema Fraternidade e Moradia e o lema Ele veio morar entre nós (Jo 1,14), propõe à sociedade brasileira uma reflexão profunda sobre o direito à moradia digna e sobre o valor espiritual e educativo do ato de “habitar”. A temática nos remete a uma reflexão acerca da moradia sob as perspectivas teológica, social e educacional, relacionando a mensagem cristã à pedagogia da libertação e aos direitos humanos. Fundamentado em documentos da CNBB, na Doutrina Social da Igreja e em autores como Paulo Freire e Leonardo Boff, o texto propõe compreender a casa não apenas como construção física, mas como espaço de dignidade, comunhão e aprendizagem do amor. Conclui-se que a promoção da moradia digna é ato educativo e evangelizador, que reflete a presença de Deus na história humana.
A Campanha da Fraternidade (CF), iniciativa da Igreja Católica no Brasil e realizada anualmente durante o período da Quaresma, tem se consolidado como um importante instrumento de evangelização e de convocação à reflexão e ação sobre temas sociais relevantes. Para o ano de 2026, a CNBB elegeu como pauta a Fraternidade e Moradia, sob a iluminação bíblica do prólogo do Evangelho de João: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). A escolha do tema resgata uma preocupação histórica da Igreja com a questão habitacional e busca aprofundar o debate em um contexto de persistente e grave déficit de moradia no País.
É importante analisar a Campanha da Fraternidade 2026 em suas múltiplas dimensões. Primeiramente, há que se refletir sobre os fundamentos teológicos da Campanha, com especial atenção à exegese do lema e sua conexão com a Doutrina Social da Igreja.
Em seguida, pensar sobre o panorama da realidade da moradia no Brasil, com dados sobre os déficits quantitativo e qualitativo, suas causas e consequências. Por fim, discutir sobre as propostas e os eixos de ação sugeridos pela Campanha, destacando o papel das comunidades eclesiais e dos movimentos sociais na luta por políticas públicas eficazes e na promoção do direito à moradia digna.
A moradia, mais do que abrigo, é um lugar de pertença, segurança e convivência. No entanto, milhões de brasileiros ainda vivem sem teto, em condições precárias ou em situação de rua. Esse cenário revela um desafio ético e educacional: formar consciências críticas e solidárias para a transformação social. Nesse sentido, a CF 2026 desperta a responsabilidade cristã e cidadã para promover políticas públicas de habitação e gestos de fraternidade que tornem o Evangelho encarnado na realidade cotidiana.

Oqvecto - stock.adobe.com

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A moradia na perspectiva teológica: Deus que habita entre nós

O lema bíblico da Campanha — Ele veio morar entre nós — recorda o mistério da Encarnação (Jo 1,14). O Deus cristão não se mantém distante, mas escolhe habitar o mundo humano, compartilhando suas alegrias e seus sofrimentos. O Papa Francisco (2015) afirma que “A casa é o primeiro lugar onde aprendemos o sentido da comunhão e da solidariedade”. Assim, morar é um ato teológico: reconhecer que Deus está presente onde há amor, partilha e cuidado.
Na tradição bíblica, a “tenda” de Deus acompanha o povo em sua caminhada (Ex 25,8). A casa simboliza o espaço da aliança e da hospitalidade. Como destaca Leonardo Boff (1999), “A Terra é a grande casa comum”, e cuidar dela é cuidar da própria humanidade. A moradia, portanto, é extensão dessa casa maior — lugar de acolhida, de educação da fé e da convivência solidária.
Sob a ótica educativa, o lar é também espaço de aprendizagem. É na casa que se formam valores, se experimenta a solidariedade e se aprende o respeito. Educar para a moradia é educar para o cuidado, o diálogo e a comunhão — dimensões profundamente cristãs e humanas.

“Ele veio morar entre nós”: fundamentos teológicos da Campanha

A Campanha, a partir desta premissa, desenvolve uma “teologia da morada”, que enxerga na casa não apenas um teto ou um abrigo, mas um espaço sagrado de desenvolvimento humano, de relações familiares e comunitárias e de vivência da fé. A falta de uma moradia digna, nesta perspectiva, não é apenas uma carência material, mas uma violação da dignidade da pessoa, criada à imagem e semelhança de um Deus que escolheu “ter um endereço” entre nós.
A Doutrina Social da Igreja (DSI) oferece um sólido embasamento para essa reflexão. Documentos como as encíclicas Rerum Novarum e Fratelli Tutti e a exortação apostólica Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, reforçam que o direito à moradia é um direito humano fundamental, derivado do princípio do destino universal dos bens. A propriedade privada, ensina a DSI, possui uma “hipoteca social”, ou seja, não é um direito absoluto e deve estar a serviço do bem comum, o que inclui garantir que todos tenham acesso a uma terra e a um teto.
A metodologia da Campanha, tradicionalmente pautada no Ver, Julgar e Agir, convida os fiéis e a sociedade a, primeiramente, ver a realidade de milhões de brasileiros sem-teto ou em condições precárias de habitação. O julgar se dá à luz da fé, a partir da interpelação do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja. Por fim, o agir se desdobra em propostas concretas de transformação social, que vão desde gestos de solidariedade até a incidência política por moradia digna.

Educar para a moradia é educar para o cuidado, o diálogo e a comunhão — dimensões profundamente cristãs e humanas.

Propostas de ação: da solidariedade à incidência política

O agir proposto pela CF 2026 se desdobra em diversas frentes, convocando a uma conversão pessoal, comunitária e social. No âmbito pessoal e comunitário, a Campanha incentiva a acolhida, a partilha e a solidariedade para com as famílias que sofrem com a falta de moradia. A Coleta da Solidariedade, realizada no Domingo de Ramos, é um gesto concreto que financia projetos sociais em todo o País, muitos deles ligados à questão habitacional. No entanto, a Campanha enfatiza que a caridade, embora indispensável, não é suficiente. É preciso incidir nas estruturas que geram a exclusão. Para isso, propõe-se:

>Apoiar os movimentos sociais que lutam pelo direito à moradia e pela reforma urbana.
> Pressionar o poder público para a elaboração e implementação de políticas habitacionais de interesse social, que incluam a construção de
moradias populares, a regularização fundiária de áreas ocupadas e a oferta de aluguel social.
> Fiscalizar a aplicação dos recursos públicos destinados à habitação e combater a corrupção e a especulação imobiliária.
> Promover debates e formações nas comunidades sobre o direito à cidade e a função social da propriedade.
> Incentivar projetos de economia solidária e de mutirões para a construção e reforma de casas.

A realidade da moradia no Brasil: um desafio social e pastoral

O Brasil enfrenta um crônico e complexo problema habitacional. Segundo dados recentes da Fundação João Pinheiro, o déficit habitacional quantitativo no País gira em torno de 5,9 milhões de moradias. Este número, por si só alarmante, não revela toda a dimensão da crise. A ele se soma um déficit qualitativo ainda maior, que abrange domicílios com infraestrutura inadequada (falta de saneamento básico, água encanada, energia elétrica), em áreas de risco, com adensamento excessivo ou com ônus excessivo de aluguel para as famílias de baixa renda.
As causas desta realidade são multifatoriais e estruturais, incluindo a histórica concentração de terras e de renda, a especulação imobiliária nos grandes centros urbanos, a ausência ou insuficiência de políticas públicas habitacionais eficazes e a burocracia que dificulta o acesso ao crédito e à regularização fundiária. O resultado é a proliferação de favelas, loteamentos irregulares e cortiços e o crescente número de pessoas em situação de rua.
A Campanha da Fraternidade de 2026, ao iluminar esta realidade, busca desnaturalizar a precariedade habitacional, mostrando que ela é fruto de opções políticas e econômicas que privilegiam o lucro em detrimento da vida. A Campanha, neste sentido, dialoga diretamente com a atuação de pastorais sociais, como a Pastoral da Moradia e da Favela, que há décadas atuam na organização popular, na assessoria jurídica e na busca por soluções concretas para o problema.

Ter uma casa é também ter um lugar de esperança.

A dimensão social e educacional da moradia

A Constituição Federal de 1988 reconhece a moradia como direito social fundamental (art. 6º). No entanto, a desigualdade e a exclusão urbana ainda negam esse direito a milhões de brasileiros. Conforme citado acima, com o déficit habitacional que gira em torno de 6 milhões de moradias no País. A CF 2026 insere-se, assim, no contexto de uma luta pela justiça social e pela dignidade humana.
Paulo Freire (1996) ensina que “A educação é prática de liberdade” e que o conhecimento nasce do diálogo com a realidade concreta. A falta de moradia deve ser compreendida, portanto, como tema gerador de processos educativos e pastorais. A escola e a comunidade de fé podem ser espaços de conscientização sobre o direito à moradia, despertando a solidariedade e a ação cidadã.
A pedagogia cristã e freiriana convergem ao afirmar que a transformação social exige sujeitos críticos e comprometidos. Ao discutir moradia, a educação assume papel libertador, pois ensina o valor do outro, o respeito ao espaço coletivo e a corresponsabilidade pelo bem comum. O lar deixa de ser apenas espaço privado e torna-se símbolo de fraternidade e justiça.

 

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A casa como espaço de aprendizagem, cuidado e fraternidade

No contexto educativo, a casa é o primeiro ambiente formador. É nela que se aprendem as relações, a partilha e a solidariedade. Para Freire (1981), educar é “[…] um ato de amor e, por isso, um ato de coragem”. Habitar o mesmo espaço com amor é exercício pedagógico que ensina a convivência e o respeito.
A CF 2026 convida escolas, universidades e comunidades a refletirem sobre o “morar com dignidade”. Isso significa desenvolver projetos que promovam o cuidado com a casa comum (ecologia integral), a valorização da cultura local e o respeito à diversidade. A moradia também é símbolo de pertencimento social — lugar onde cada pessoa pode ser reconhecida em sua dignidade.
Na visão do Papa Francisco (2020), “Ter uma casa é também ter um lugar de esperança”. A falta de moradia não é apenas uma carência material, mas uma ferida espiritual e social. A educação, inspirada na fraternidade cristã, pode contribuir para reconstruir laços de comunidade e promover uma cultura da solidariedade.
Certamente, esta Campanha representa um chamado profético da Igreja no Brasil a olhar para uma das feridas mais abertas da sociedade brasileira. Ao fundamentar a luta pelo direito à moradia na teologia da encarnação, a Campanha eleva esta pauta social à categoria de exigência da fé. Trata-se de um convite a reconhecer o rosto de Cristo no irmão e na irmã que não têm onde reclinar a cabeça e a compreender que a construção de uma sociedade fraterna e justa passa, necessariamente, pela garantia de um lar digno para todos. A efetividade da Campanha será medida não apenas pela reflexão gerada durante o período quaresmal, mas pela capacidade de mobilizar corações e mentes para uma ação transformadora e contínua em favor do direito sagrado de morar. A tenda de Deus, armada entre nós, convoca-nos a construir tendas de justiça e dignidade para todos os filhos e filhas de Deus

Considerações finais
A Campanha da Fraternidade 2026, ao propor o tema Fraternidade e Moradia, convida a Igreja e a sociedade a reconhecerem que o ato de morar é também um ato de fé e justiça. “Ele veio morar entre nós” significa que Deus se faz presente onde há dignidade, acolhimento e amor. A moradia torna-se, assim, um espaço sagrado de convivência e educação para a fraternidade.
Educar para a moradia é educar para o cuidado com o outro e com o mundo. O lar é a primeira escola da fraternidade — e cada gesto de solidariedade é um sinal do Reino de Deus que habita entre nós.

Certamente, esta Campanha representa um chamado profético da Igreja no Brasil a olhar para uma das feridas mais abertas da sociedade brasileira.

BOFF, Leonardo. Ecologia: grito da terra, grito dos pobres. São Paulo: Ática, 1999.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988.
CNBB. Texto-base da Campanha da Fraternidade 2026: Fraternidade e Moradia – Ele veio morar entre nós. Brasília: Edições CNBB, 2026. FRANCISCO, Papa. Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2015. ________________ Fratelli Tutti: sobre a fraternidade e a amizade social. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana,
2020. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. _____________ Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1981. FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO. Déficit habitacional no Brasil 2023. Belo
Horizonte, 2023. Disponível em: https://www.fjp.mg.gov.br/.JOÃO, Evangelho Segundo. Bíblia Sagrada. São Paulo: Paulinas, 2019. JOÃO PAULO II, Papa. Carta Encíclica Sollicitudo Rei Socialis. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1987. LEÃO XIII, Papa. Carta Encíclica Rerum Novarum: sobre a condição dos operários. Vaticano: Tipografia Vaticana, 1891.
PONTIFÍCIO CONSELHO “JUSTIÇA E PAZ”. Compêndio da Doutrina Social da Igreja.
São Paulo: Paulinas, 2005. SAGRADA BÍBLIA. Tradução Oficial da CNBB. Brasília: Edições CNBB, 2018.

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