Edição 145
A fala do mestre
Alegria para ensinar e transformar vidas
Nildo Lage

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O que caracteriza a alegria? Há palavras, sinais, delineamentos ou situações que a definem? Ou são momentos sublimes em que a essência do júbilo emana e se eleva para atender ao grito do eu, que ressoa ao ritmo de uma intensa sensação de felicidade?
Quem experimentou sabe que a alegria de uma conquista, de tão intensa, transporta a um nível que proporciona prazer por projetar o eu numa altivez extraordinária, e isso harmoniza a vida com instantes que estimulam a busca por novas conquistas!
E quando a maior alegria consiste na vitória do próximo? Quem somos nós para assumirmos a responsabilidade pelos sucessos ou fracassos alheios? A premissa é de que o comportamento não se aplica a todos. Apenas uma pequena parcela pode degustar o contentamento de uma vitória do outro!
É difícil de entender, mas onde procuraremos as respostas? A complexidade das estruturas emocionais humanas pode ser entendida pelo fato de que, em várias situações, nem o sofrimento alheio consegue provocar comoção. A realização pessoal, de tão desejada, torna-se foco de grande entusiasmo.
Onde a alegria para ensinar e transformar vidas embarca nesse contexto? É notório que todos os envolvidos em um processo de aprendizagem colaboram para o progresso humano. Apesar disso, observamos, na esfera social e profissional, as repercussões de uma educação ministrada com dedicação. Isso se deve ao fato de que há uma diferenciação entre o educador que apenas repassa o conteúdo programático e aquele que motiva, cuida e apoia o aluno na construção de um futuro promissor.
Para esses “excepcionais”, a vitória do próximo é um troféu, pois a alegria de ensinar facilita a troca de saberes, por fomentar a reflexão por meio de ações que expandem visões. Elas desenvolvem um método recompensador e envolvente que potencializa competências humanas, éticas e sociais, que auxiliam no redirecionamento no curso de vidas.

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[…] a vitória do próximo é um troféu, pois a alegria de ensinar facilita a troca de saberes, por fomentar a reflexão por meio de ações que expandem visões.
O que constitui a receita?
Comprometimento, compreensão, respeito… Motivação… Empatia… Componentes que, quando incorporados ao processo, formam o prato “Alegria para Ensinar”. Somente esse prazer pode atrair para o ambiente escolar a essência que se tornou cada vez mais rara: laços humanos que reforçam um eu progressivamente debilitado pelo desequilíbrio no ambiente familiar.
E este é um dos maiores desafios da escola do futuro: proporcionar mais que conteúdos profundos, por meio de ferramentas inovadoras, mas também ações humanas que construam pontes e estimulem habilidades para reunificar uma sociedade desintegrada pelas ferramentas digitais.
Como pais e educadores, entendemos que a educação para transformar vidas necessita mais que belas fachadas, preceitos e conteúdo. É fundamental direcionar exemplos para uma geração que não precisa questionar para encontrar respostas para as suas dúvidas, pois o universo digital proporciona retornos instantâneos para todos os seus questionamentos e mais: com as coordenadas para chegar à fonte do que almeja compartilhar.
Diante de tantos desafios, é crucial fomentar o fortalecimento da estrutura humana? É! Particularmente, a do educador, pois alegria para ensinar requer permutas, reconhecimento, valorização e condições adequadas. Caso contrário, continuaremos na contramão dos propósitos da vida, por não atingirmos as metas educacionais. É desafiador, pois, sem alterar a realidade daqueles que são alocados sob a liderança de um profissional estressado, cujo ambiente de trabalho suga a própria felicidade, é pouco provável que aconteçam progressos!
O segundo ponto é a atualização do sistema, que se recusa a ouvir os gritos que ressoam em salas e corredores, por resistir às alterações, e que age de forma assimétrica, impedindo a incorporação das novas tecnologias no processo educacional por não se adaptar às mudanças.
Assim, o avanço da aprendizagem é dificultado, uma vez que a fundamental ferramenta, o educador, permanece restrita ao formato analógico. Por quê? No Brasil, a metodologia de ensino é fundamentada em princípios ideológicos e combinados com estratégias políticas!
Não foca no processo de aprendizagem nem no desenvolvimento humano do aluno. Isso é uma autêntica apostasia, contrariando os princípios definidos pela “bíblia LDB”, e o aluno não deve ser penalizado, pois isso provoca reações negativas que complicam o aprendizado e limitam seu desenvolvimento humano.
Isso acontece porque oferecemos uma educação na qual os números são os protagonistas do aprendizado! Só retórica; para ostentar, fala muito, mas pouco se concretiza! Todavia, com ressalvas: reprovação só em casos extremos, já que a redução de custos para um sistema que não possui recursos para livros didáticos é a única solução.
Há um dispositivo que ativa o canal da alegria, visando instruir e transformar vidas?
A realidade é que nosso sistema de educação ainda não compreendeu o significado de ensinar para a vida por não suplantar as tradições que se firmaram como diretrizes. O procedimento envolve transmissão de conteúdo ao longo do ano letivo, ignorando que a prática para atender perspectivas e alcançar aspirações decreta aprendizado. Para atingir esses objetivos, o sistema aciona a máquina “professor”, que dissemina conteúdos de forma aleatória.
Como a humanização da educação não está prevista nos planos governamentais, o sistema não interrompe o processo de desumanização do professor, que se transformou em um instrumento flexível, que permite ser manipulado, tornando a profissão de ensinar uma opção de sobrevivência, por não ser valorizado como um profissional que muda vidas.
O fascinante é que temos ciência dos erros, mas, por compreendermos que o ensino é um processo intrincado e que, para ser transformador, requer envolvimento, o fundamental é ignorado. O envolvimento é basilar para alcançar aqueles que não têm luz própria e dependem da fonte educadora, que deve incentivar o aprendizado com determinação e entusiasmo. Para isso, ela precisa também estar motivada! Mas quais são as maneiras de incluir alegria nesse procedimento?
O sistema conserva-se silencioso para não contestar perguntas que incomodam: “É possível promover uma educação que atenda às ambições, sem respeito, reconhecimento e condições laborais apropriadas?”, “Como manter um aprendizado constante para ensinar com dedicação, considerando que o próprio material didático tem limitações?”.
A ausência de harmonia, aliada à desintegração dos valores familiares e religiosos, torna natural a desestabilização do ambiente escolar, e isso faz com que a escola se torne um local sem atrativos. Porque o laço entre o professor e o aluno não se forma, já que a alegria de ensinar é asfixiada pela angústia de um espaço turbulento, que se transformou num palco de agressões e desrespeito.

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Onde o gestor se encontra? Quais alternativas são oferecidas pelo sistema para iniciar o processo de transformação, assegurando alegria ao ensinar? Sabemos que é categórico agir com responsabilidade para prevenir que o ato de ensinar se converta numa cadência de procedimentos sem propósitos a serem atingidos.
Se o professor não possui a energia necessária para iluminar e trazer o brilho da alegria, a escola atual não conseguirá moldar uma geração que não precisa de orientação para vencer obstáculos e alcançar seus objetivos. Isso mostra que, mesmo com o progresso na educação, nosso desenvolvimento ainda não atende às expectativas estabelecidas.
Lamentavelmente, deparamo-nos com professores sobrecarregados, sufocados por um sistema que exige informações, não desempenho. Assim, considerando que o processo de aprendizagem é único, a assistência ao educador mantém a mesma qualidade, e a alegria de ensinar nunca se concretizará para um profissional que não é devidamente reconhecido.
É assim que avança a educação. Teorias que prevalecem sobre outras teorias, programas que se sobrepõem a outros programas, e a qualidade em queda. Por quê? O mundo se adapta em resposta ao progresso tecnológico, o aluno progride na mesma proporção para gerenciar a avalanche de informações, enquanto o educador permanece estagnado, dado que as leis da física do sistema de ensino se mantêm inalteradas.
Ante tantos percalços, é possível promover uma educação no modo alegre?
Apesar de o sistema reconhecer a importância de melhorar o processo através da formação continuada, ele oferece ferramentas e métodos obsoletos. Assim, torna-se cada vez mais desafiador transformar realidades por meio da resiliência, considerando que a obrigação do aluno é frequentar a escola; a da administração, de prestar contas dos recursos oferecidos; e a do professor, de implementar os conteúdos e promover o avanço do aluno para o próximo ciclo. Sentimento de pertencimento, amabilidade, solidariedade… Para quê? A inteligência artificial chegou para equilibrar desigualdades e dissipar dúvidas!
É urgente a necessidade de resgatar o amor autêntico! Quando os educadores eram respeitados, dedicavam-se à educação, mesmo sem compreender o que são ferramentas digitais, porque tinham paixão pela arte de ensinar.
Adaptar a educação mediante projetos inovadores é ativar o mecanismo que promove o calor humano ao conectar professor, aluno e família. O salário do professor deve ser adequado? Sim! Porque é imprescindível dedicar tempo para estudar, pesquisar e compreender a realidade social, familiar e cultural do aluno, visando inseri-lo num processo de educação que promova seu crescimento pessoal, e trabalhar em três escolas para complementar o orçamento é uma missão quase impossível.
Professor motivado melhora sua prática, compreende a realidade do seu aluno! Contudo, para ser educador inspirador, precisa ser valorizado e respeitado… Como consequência, tem-se um processo que compartilha conhecimento em um ambiente de amor e respeito, onde a personalização é aplicada para estimular o pensamento crítico, promover a independência e, dessa maneira, adaptar o processo às necessidades de cada indivíduo.
Dessa forma, é imprescindível introduzir inovações, uma vez que a carência de projetos que favoreçam a interdisciplinaridade no âmbito educacional dificulta a interação com um mundo cada vez mais digitalizado, no qual a ausência de iniciativas obstrui um recurso cada vez mais raro: o diálogo.
Essa situação desestrutura a prática educacional, transformando o ensinar num processo monótono. De tão constante, restringe o calor humano em um ambiente que estabelece inclusão. Convertendo o professor em um dispositivo que disponibiliza os conteúdos do planejamento de forma automática e os classifica desigualmente: o comportadinho e dedicado X; o inquieto, mas desenvolto, Y; e os que “não têm solução” avançam no mesmo processo para o próximo ciclo!
Para o sistema, o que preocupa é se o aluno está na sala de aula e se os conteúdos para os duzentos dias letivos foram aplicados. Então, o que causa a infelicidade, o sorriso, a alegria, o choro? O essencial é que as metas do ciclo sejam alcançadas! Porém, quem se beneficiou?
Tudo é diminuto! Porque o sistema ignora as condições funcionais da escola, deixando a adaptação a cargo do professor. Frequentemente, é preciso comprometer parte do salário para oferecer o mínimo àqueles que acreditam que a prosperidade pode ser obtida por meio do estudo.
O cenário desencoraja, pois o ambiente escolar tenso absorve tudo: estrutura psicológica, emocional… Trata-se da ausência de tudo: formação, reconhecimento, suporte, reestruturação do ambiente, recursos pedagógicos, e há muita pressão! De fato, a negligência está agregada à cobrança excessiva, à compressão constante e à falta de autoridade do professor.
Não é ficção; a realidade do professor no Brasil é caracterizada pelo incessante esforço sem perspectiva de reconhecimento. Trata-se de desrespeito, angústia e busca de forças para suprimir a vontade de agredir aquele aluno que, deliberadamente, procura desestabilizar. Além disso, há uma carga enigmática que se carrega nos ombros: fardos pesados de questões familiares e sociais.
Contudo, não renuncia nem deixa de exercer a sua função! Grita, reclama, às vezes interrompe… Ainda que insatisfeito, segue realizando seu trabalho! Por quê? Fidelidade à profissão? Ou por enxergar, na carreira, a principal fonte de renda?
Quando a atitude faz a diferença
O anseio de educar e transformar vidas é intrínseco ao ofício do educador, que vislumbra os momentos de alegria como estímulo para prosseguir. Essa motivação excita a persistência no trabalho, pois não se preveem obstáculos, porque a escolha de ser a diferença sobressai como um apelo do eu, que encoraja os estudantes a assumirem o controle da própria vida.
Os pais educam, enquanto as mídias deseducam. Contudo, o educador modifica realidades e, mesmo sem ser reconhecido, não cessa seu trabalho. O que o impulsiona não é uma remuneração, que, muitas vezes, não o sustenta, nem a indiferença de um sistema injusto, mas a alegria de presenciar realidades sem perspectivas se tornarem vitoriosas.
Nessa transição, os educadores autênticos emergem como um farol na trajetória de seus alunos, sublinhando que a essência da felicidade não reside em dominar o mundo, mas em firmar sua própria regência, solidificando a estrutura necessária para enfrentar um ambiente cada vez mais competitivo. Isso evidencia que o êxito na educação não estabelece regras, mas, sim, atitudes que fomentam transformações.
Milagre? Não! Professor que, simplesmente, optou em fazer a diferença na vida dos seus alunos. Pois, mesmo com adversidades e desafios, mostrou a alegria das pequenas conquistas e reconstruiu o cenário desolador com vitórias para aqueles que percebem, na educação, o caminho para a superação ao promover um método de ensino envolvente.
[…] os educadores autênticos emergem como um farol na trajetória de seus alunos, sublinhando que a essência da felicidade não reside em dominar o mundo, mas em formar sua própria regência […]

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Por quê? Apenas o coração do verdadeiro professor pode responder. Pois, em cada instante de desânimo, o coração se manifesta: vai desistir do seu propósito de vida? Assim, avança, mesmo sem estrutura, para ensinar e transformar vidas, já que o amor pela carreira oferece energia para lidar com o desrespeito e vencer os desafios de um ambiente de ensino tenso.
Essa determinação se transforma em instrumento que vai além do papel de mediador do conhecimento, pois torna-se aliado de um aluno que viu, em suas ações, referências que se converteram em orientações e transforma vidas sob sua liderança, plantando, em cada aluno, uma semente de esperança.
Por quê? Focou no individual, ciente de que ninguém consegue superar desafios sem incentivo, e transformou a carreira de professor em uma ferramenta humanizada, ressaltando um indivíduo que orienta e reorienta na direção do objetivo pretendido, auxiliando o aluno a atingir suas metas.
O verdadeiro educador não aguarda iniciativas de gestores e do sistema para trabalhar as mudanças que almeja em seu aluno. Ele se antecipa, adaptando-se à situação da classe, para se adequar a um universo de instabilidade e sonhos, para moldar um eu isolado em seu próprio universo, mas que almeja ser notado. Essas atitudes promovem a aproximação, limitando a distância por meio da transformação de comportamentos.
A ferramenta em questão? A ação lógica que valoriza o eu de uma pessoa que não se encontra em seu próprio universo, mas que tem aspirações a serem alcançadas. Essas conquistas simbolizam o início de uma mudança na vida do aluno, confirmando que a educação é uma eficiente ferramenta para promover mudanças.

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São saltos em direção ao futuro? Não! A alegria para ensinar e transformar vidas e que redireciona pessoas são atos isolados, praticados por aqueles que assumem a responsabilidade de conduzir o aluno pelas coordenadas do próprio destino, tornando-o num indivíduo ativo e ciente de sua habilidade para recriar o mundo que almejam, por meio de exemplos que influenciam positivamente.
É a partir desse nível de envolvimento que a satisfação de ensinar e transformar vidas se intensifica, porque o professor deixa de ser um líder que estabelece regras e determina metas para se converter num colaborador, cujo processo de ensino-aprendizagem promove o crescimento de ambos. Em razão de a imaturidade encontrar, na maturidade, a confiança, essa é a primeira ação que impulsiona a inspiração.
É este o impulso de que a educação necessita para cumprir o seu papel: inspiração, e o professor que inspira deixa de ser apenas um transmissor de informações para se tornar ponte que se interliga ao aluno como parceiro de um processo em que as adversidades são vencidas pela convivência, alimentando a esperança, que exala como oxigênio, que sustenta a vida e reforça a capacidade individual do aluno, cujo avanço não é mais possível retornar ao ponto de partida.
Essa união, de tão fundamental, esboça a chave que abre a porta das oportunidades. Ao elevar a expectativa de novas vitórias, excita a mola que impulsiona ao destino almejado: a superação, que alarga os horizontes por serem conduzidos para honrar um compromisso que exige, como gratificação, a vitória do outro.
E-mail: nildolage@gmail.com
