Edição 145

Sob um novo olhar

Mulheres pioneiras na história

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A invisibilidade, o esquecimento ou as poucas referências de mulheres que tiveram participação ativa em vários momentos da história são reflexos de estruturas sociais e históricas que marginalizaram as contribuições femininas ao longo do tempo. A narrativa predominante foi construída a partir de perspectivas masculinas, destinando às mulheres papéis secundários ou simplesmente omitindo suas realizações.

As personagens a seguir demonstram, contudo, que as mulheres sempre tiveram destaque na História do Brasil e do mundo. Muitas, infelizmente, não tiveram as suas trajetórias registradas; entretanto, sabemos da importância das mulheres indígenas na formação das comunidades; das africanas, que mantiveram a coragem durante o período de escravização; e daquelas de origem europeia e asiática na adaptação das famílias aqui no nosso território.

 

Dandara dos Palmares

 

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Apesar da escassez de registros históricos detalhados sobre sua vida, a existência de Dandara dos Palmares é amplamente reconhecida, e sua contribuição para a luta contra a opressão e a injustiça é celebrada como parte integral da História do Brasil.

Dandara dos Palmares foi uma importante figura na resistência à escravização no Brasil colonial. Ela foi companheira de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares, e desempenhou um papel fundamental na luta pela liberdade dos negros escravizados, sendo reverenciada como uma das heroínas da história brasileira.

Dandara é reconhecida por sua coragem, habilidades estratégicas e capacidade de liderança dentro da comunidade de Palmares, um dos mais conhecidos quilombos do Brasil.

Ana Pimentel Henriques Maldonado

Quando estudamos as capitanias hereditárias, aprendemos que os donatários eram homens, correto? Alguns historiadores afirmam, contudo, que esses fidalgos portugueses tinham esposas atuantes, mulheres que comandaram as capitanias desde o início de sua administração. Estas eram chamadas de “capitoas” do Brasil colonial.

Uma delas foi a espanhola Ana Pimentel Henriques Maldonado, esposa de Martim Afonso de Sousa, que fundou, em 1532, a capitania de São Vicente.

Um ano depois, tendo recebido a missão de seguir para a Índia, Martim Afonso precisou voltar para Lisboa. Então, Ana Pimentel, por meio de uma procuração datada de 3 de março de 1534, administrou a capitania. Por mais de dez anos, ela exerceu seu mandato com grande competência.

Ana Pimentel fez cartas de doação de sesmarias — uma delas destinada a Brás Cubas, que fundou a vila de Santos; ordenou o cultivo de laranjeiras para combater o escorbuto, doença provocada pela falta de vitamina C e que atacava os marinheiros durante a travessia no Atlântico; e introduziu, na capitania, o cultivo da cana-de-açúcar, do arroz e do trigo e a criação de gado.

Em sua gestão, autorizou que os colonos subissem a serra e entrassem no planalto paulista, pois lá havia terras mais férteis e um clima mais ameno do que no litoral. Essa proibição era ordem do marido, pois Martim Afonso queria evitar que os portugueses habitassem nas terras dos indígenas aliados, o que provocaria conflitos e perigo para a colonização. Para Ana Pimentel, esse zelo não era mais necessário, e, em 1546, revogou a proibição. Com isso, a capitania se expandiu para o interior.

Graças à excelente administração de Ana Pimentel, a economia da capitania de São Vicente era baseada na produção de açúcar, na criação de gado e na exploração de recursos naturais, como madeira e minerais. Essa diversificação econômica proporcionou estabilidade e prosperidade à região.

Francisca da Silva de Oliveira

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Chica da Silva, cujo nome verdadeiro era Francisca da Silva de Oliveira, foi uma figura proeminente na História do Brasil colonial. Ela nasceu por volta de 1732, em Minas Gerais, e é conhecida por sua ascensão social e influência durante o período em que viveu.

Apesar de ter nascido escravizada, Chica da Silva alcançou uma posição de destaque na sociedade da época. Ela foi comprada e alforriada pelo poderoso contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, com quem manteve uma união estável e teve treze filhos, o que lhe proporcionou acesso a riquezas.

Em 1770, quando João Fernandes precisou regressar a Portugal para assumir a gestão da indústria diamantífera e cuidar dos bens deixados no testamento do pai, levou consigo os quatro filhos homens. Em Portugal, eles cursaram o Ensino Superior, ocuparam cargos importantes no governo do reino e até receberam títulos reais.

Chica da Silva e suas filhas ficaram no Arraial do Tijuco, e as propriedades que João Fernandes deixou no Brasil mantiveram sua vida confortável.

Suas filhas receberam a melhor educação que era destinada às meninas brancas da época. Foram encaminhadas para o Recolhimento das Macaúbas, onde aprenderam a ler, escrever, contar, costurar e bordar.

Chica da Silva era influente na comunidade local e tinha os mesmos privilégios que as mulheres brancas, podendo, por exemplo, ingressar em grupos religiosos de acordo com sua posição social. Ela pertenceu à Irmandade São Francisco e Carmo, que recebia apenas pessoas brancas, mas também às irmandades das Mercês, que era composta por pessoas inter-raciais; e do Rosário, que era reservada aos negros. Essas participações mostram que ela tinha dinheiro suficiente para realizar doações a quatro irmandades diferentes.

Apesar de ter sido uma mulher muito rica, não há registros ­— retrato ou pintura — de Chica da Silva. O casarão em que morou, hoje, é um patri­mônio cultural, tombado pelo Instituto do Patrimô­nio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Chica da Silva faleceu em 1796 e foi sepultada dentro da Igreja de São Francisco de Assis, a mais importante irmandade da época, um privilégio exclusivo das pessoas brancas. Esse fato demonstrou que ela manteve sua condição social elevada, mesmo após a partida de João Fernandes para Portugal.

Curiosidade
A história de Chica da Silva é emblemática por desafiar as normas sociais e raciais da época, demonstrando sua capacidade de conquistar poder e respeito em um contexto historicamente marcado pela escravização e pela discriminação racial.
Chica da Silva é lembrada como um exemplo de força, determinação e superação em meio a um período de profunda desigualdade no Brasil colonial. Sua vida tem sido tema de diversas obras literárias, cinematográficas e artísticas, sendo considerada uma figura icônica na História do País.

 

Domitila de Castro Canto e Melo

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Além de Maria Leopoldina, outra mulher que teve influência significativa no Primeiro Reinado foi Domitila de Castro, a Marquesa de Santos. Ela teve um romance com Dom Pedro I e exerceu considerável influência sobre ele, tanto na esfera pessoal quanto na política.

Nascida em São Paulo, em 1797, casou-se aos 15 anos de idade com o militar Felício Pinto Coelho de Mendonça, de 23 anos, e tiveram três filhos. Felício é citado por diversos historiadores como um homem violento, que espancava e agredia constantemente a esposa. Ela conseguiu se divorciar com a ajuda de seu irmão, que era amigo íntimo de Dom Pedro I. O imperador intercedeu diretamente para que o divórcio acontecesse; esse foi o primeiro contato entre Pedro e Domitila, que resultaria em romance.

Domitila foi uma figura polêmica, e sua presença na corte gerou intrigas políticas. Sua influência sobre Dom Pedro I foi notável, e muitos estudiosos a consideram uma das mulheres mais poderosas da época, devido ao seu papel nas decisões do imperador.

A Marquesa de Santos é lembrada por sua influência política e social durante o Primeiro Reinado, sendo uma das figuras femininas mais marcantes desse período da História do Brasil. Essa influência foi percebida em nomeações para cargos públicos e na concessão de títulos de nobreza e favores a seus familiares e aliados, demonstrando sua participação ativa nos bastidores do poder da época.

A imperatriz Maria Leopoldina da Áustria

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Maria Leopoldina da Áustria, arquiduquesa da família Habsburgo da Áustria, foi a primeira esposa do Imperador Pedro I e imperatriz consorte do Brasil de 1822 até sua morte, aos 29 anos de idade. Desse casamento, proveniente de acordos políticos entre o Brasil e a Áustria, nasceram sete filhos; três morreram antes do nascimento ou ainda na infância — fato natural na época, pela falta de recursos médicos. Um dos filhos dessa união foi Dom Pedro II, segundo imperador do Brasil.

Maria Leopoldina escrevia cartas para seus familiares contando as aventuras amorosas de seu marido, Dom Pedro I, principalmente com a Marquesa de Santos; como estava o cenário político da época; e sobre a dor da perda de seus filhos. A imperatriz também escrevia para pedir dinheiro ao pai, a fim de pagar as dívidas que contraía. Por meio da leitura desses documentos, os historiadores contam que seus gastos não eram destinados a si mesma, mas para ajudar pessoas pobres. Esse fato explica a grande tristeza da população com o seu falecimento, em 1826.

A Imperatriz Maria Leopoldina teve uma participação ativa na independência do Brasil e desempenhou um papel significativo na política e nas relações internacionais do País. Durante muito tempo, entretanto, sua história e sua importância política também foram apagadas, em consequência de ela ser mulher.

Dona Carlota Joaquina

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Dona Carlota Joaquina nasceu na Espanha, em 25 de abril de 1775. Foi rainha consorte do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves de 1816 a 1822 e rainha consorte do Portugal e Algarves de 1822 a 1826. Era esposa de Dom João VI e mãe de Dom Pedro I.

Carlota Joaquina teve uma infância travessa e brincalhona, mas, aos 10 anos, foi obrigada a se casar com Dom João, que tinha 18.

Sendo uma mulher com temperamento forte, Carlota participou ativamente da vida política portuguesa, brasileira e espanhola. Por isso, era frequentemente acusada de influenciar as relações políticas do rei com a intenção de beneficiar a corte espanhola.

Durante a permanência da família imperial no Brasil, essa influência política teve impacto no contexto do reinado brasileiro. A Guerra da Cisplatina, por exemplo, ocorreu porque Dom João VI queria atender aos desejos de Dona Carlota Joaquina, que almejava ser a Rainha do Prata, no lugar de seu irmão Fernando VII, rei da Espanha. Este não era, entretanto, um mero capricho dela. Essas intervenções militares evitariam a ocorrência de levantes que poderiam prejudicar o território brasileiro.

Dona Carlota Joaquina foi uma figura polêmica e controversa, envolvendo-se em intrigas políticas e disputas de poder, o que impactou indiretamente os rumos do Brasil colonial. Sua presença na corte contribuiu para moldar parte da história do País, entre o período colonial e o início do processo de independência.

Apesar das controvérsias que a cercam, Carlota Joaquina deve ser lembrada como uma figura que deixou sua marca na história do Brasil, especialmente por seu papel como integrante da família real portuguesa durante um período crucial para a nação.

O nome completo de Carlota Joaquina era Carlota Joaquina Teresa Marcos Caetana Coleta Francisca de Sales Rafaela Vicenta Ferrer Joana Nepomucena Fernanda Josefa Luísa Singorosa Antônia Francisca Bibiana Maria Casilda Rita Januária e Pasquala.

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