Edição 145

Construindo mais conhecimento

APRENDIZAGEM NA ESCOLA

ENSINAR E APRENDER
Raízes e asas

Ilustrações: Erica Guilane-Nachez – stock.adobe.com

A educação — preparação de cada ser humano para a vida social — acontece na família, no grupo social mais amplo, na escola, no trabalho. Cada um desses espaços realiza, predominantemente, um aspecto da formação do indivíduo.

A escola deve responder pelo acesso ao conhecimento que se considera necessário à inserção social para que os mais jovens se apropriem das conquistas das gerações precedentes e se preparem para novas conquistas. Faz isso através da seleção e organização de situações planejadas especialmente para promover a aprendizagem dos conteúdos que são culturalmente valorizados pela sociedade em que ela se insere.

O trabalho escolar pode assumir formas diversas, de acordo com as diferentes maneiras de entender a função da escola, o papel do indivíduo na sociedade e o próprio processo de ensino e aprendizagem.

Isso pode ser percebido na postura que o professor assume em sala de aula, às vezes numa simples fala:

Dar aula para esses meninos dá gosto. Eles são quietos e educados. Não ficam me interrompendo com perguntas. Aluno tem mesmo é que ficar escutando, prestando atenção.

A fala dessa professora reflete velhas concepções de aprendizagem, do papel da escola e do ser humano na sociedade. Ainda hoje, é possível encontrar professores que expressam uma visão autoritária da escola. Uma história que se conta por aí também reflete essa visão.

A volta do velho professor

stokkete – stock.adobe.com

Em pleno século XX, um grande professor do século passado voltou à Terra e, chegando à sua cidade, ficou abismado com o que viu: as casas altíssimas, as ruas pretas, passando umas sobre as outras, com uma infinidade de máquinas andando em alta velocidade; o povo falava muitas palavras que o professor não conhecia (poluição, avião, rádio, metrô, televisão…); os cabelos de umas pessoas pareciam com os do tempo das cavernas… e as roupas deixavam o professor ruborizado.

Muito surpreso e preocupado com a mudança, o professor visitou a cidade inteira e cada vez compreendia menos o que estava acontecendo. Na igreja, levou susto com o padre, que não mais rezava em latim, com o órgão mudo e um grupo de cabeludos tocando uma música estranha. Visitando algumas famílias, espantou-se com o ritual depois do jantar: todos se reuniam durante horas para adorar um aparelho que mostrava imagens e emitia sons. O professor ficou impressionado com a capacidade de concentração de todos: ninguém falava uma palavra diante do aparelho.

Cada vez mais desanimado, foi visitar a escola — e, finalmente, sentiu um grande alívio, reencontrando a paz. Ali, tudo continuava da mesma forma como ele havia deixado: as carteiras uma atrás da outra, o professor falando, falando… e os alunos escutando, escutando, escutando…

Hoje, no entanto, conhecendo os mecanismos de aprendizagem que as crianças desenvolvem desde o nascimento, sabemos que elas vão construindo seu modo de agir, pensar e sentir, sua visão de mundo e seu conhecimento através da interação com outras pessoas, adultos e colegas. Isso quer dizer que a aprendizagem raramente pode ocorrer num ambiente em que somente o professor fala, enquanto o aluno escuta passivamente.
Toda criança tem algo a dizer.
É preciso que se dê oportunidade para que ela fale.
Partilhar ideias é, também, desenvolver o pensamento.

Partilhar ideias desenvolve o pensamento

Para expressar ideias, sentimentos, conceitos, é necessário que o aluno se sinta parte de um grupo que respeita e valoriza cada um de seus membros.
Nesse ambiente, o professor não é mais o único dono da palavra, que é de todo o grupo-classe. As vivências, histórias e experiências de cada um são enriquecidas na troca com o outro, na descoberta comum de novos horizontes.

Uma outra visão inadequada, e também persistente, a respeito do desenvolvimento e da aprendizagem das crianças transparece na seguinte fala: “Não adianta perder tempo com alunos como Joãozinho. Pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto. A gente não tem como ajudar”.

Para professores que pensam assim, a criança já nasceria capaz ou incapaz, como se as características humanas estivessem definidas desde o nascimento; a escola, então, pouco poderia influir sobre o desenvolvimento intelectual daquelas que não demonstram interesse ou aptidão. Essa visão desconhece noções básicas sobre a aprendizagem e o desenvolvimento infantil.

A reflexão sobre o que é ensinar e o que é aprender precisa considerar que o ser humano não é passivo e não nasce pronto, mas está em processo constante de transformação e vai se constituindo como sujeito à medida que interage com o meio que o cerca.

O senhor… mire e veja o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando. É o que a vida me ensinou. Isso me alegra. Montão.
– Guimarães Rosa

Felizmente, muitas escolas brasileiras vêm procurando transformar sua prática educacional acreditando que toda criança pode aprender e que sempre é possível ajudá-la, pois os conhecimentos não estão prontos dentro dos indivíduos nem veem prontos de fora.

As vivências, histórias e experiências de cada um são enriquecidas na troca com o outro, na descoberta comum de novos horizontes

Toda criança pode aprender

Erica Guilane-Nachez – stock.adobe.com

A aprendizagem escolar, no entanto, requer condições específicas: isso significa que todas as crianças podem aprender, mas não em quaisquer condições.
A partir da reflexão sobre o desenvolvimento infantil e a aprendizagem escolar, os professores vão conhecendo as condições em que esta se dá, de modo a propiciar proveitosas situações de ensino.
Conhecendo as condições em que ocorre a aprendizagem e o que pode facilitá-la, o professor adquire uma visão ampla da importância de seu papel, tornando-se mais apto a organizar, na sala de aula, atividades em que ocorra aprendizagem efetiva; em outras palavras, pode ensinar melhor.
O professor também aprende para ensinar melhor.

Demorei certo tempo para conhecer os meninos e entender que, nessa escola, eu teria de arranjar um jeito de trabalhar a leitura diferente do que eu usava na escola da cidade. Essas crianças são, na maioria, filhos de pescadores, quase não têm contato com a escrita, o que me fez buscar estratégias e estímulos diferentes para motivá-los a ler e escrever
-conta uma professora que se transferiu para a escola de uma colônia de pescadores.

O professor é responsável por planejar situações educativas que estimulem a interação, coloquem problemas a resolver, deem acesso a elementos novos, proporcionem informações devidamente organizadas e estruturadas.

Autoria: Raízes e asas. Centro de pesquisas para Educação e Cultura (Cenpec)

cubos