Edição 134

Socioemocional

Autismo nas escolas: a importância do ensino socioemocional

Fabiana Barrocas Alves Farah e Maria Cristina Soares Rocha

Cada vez mais em evidência, o ensino socioemocional tem se destacado nas discussões que envolvem o autismo na escola, tanto pela relevância educacional quanto do ponto de vista da socialização, uma vez que o equilíbrio emocional está diretamente ligado aos desafios da vida e a como lidamos com eles mantendo a saúde mental.

Sabendo que o ensino socioemocional é um método educativo que busca direcionar crianças e adolescentes em sua formação, tendo em vista o desenrolar de suas características sociais e emocionais, de acordo com as especificidades de cada idade, vale refletir como pode ser desafiador trabalhar as emoções com uma pessoa com autismo, que, supostamente, como é corriqueiro ouvir, vive em seu próprio mundo e não se interessa por outras pessoas.

De fato, algumas pessoas com autismo podem ter certa dificuldade de se relacionar e preferem o isolamento, mas isso também acontece com pessoas neurotípicas. Ao contrário do que se pensa, as pessoas com transtorno do espectro do autismo (TEA) têm, sim, interesse em fazer amigos e se relacionar com outras pessoas, todavia podem apresentar dificuldade de se aproximar, iniciar uma conversa ou mesmo reconhecer, no outro e em si, expressões faciais de tristeza, alegria, raiva, medo, etc. Isso faz com que se sintam incapazes de manter uma relação interpessoal, confundindo a timidez e o isolamento com desinteresse, hostilidade e falta de empatia.

Nesse caso, as emoções são sentidas, percebidas e expressadas de forma diferente, e, assim, alguns preferem o isolamento porque possuem um sentimento exacerbado ou minimizado demais, chegando a ponto de se desorganizar comportamentalmente, o que pode levar a crises de catatonia, shutdown e breakdown, ficando difícil de suportar a convivência social.

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), em sua 5a edição, o autismo é caracterizado como um transtorno do neurodesenvolvimento, tendo como díade os déficits persistentes na área de comunicação social e a presença de comportamentos restritos e repetitivos. Não obstante, crianças diagnosticadas com TEA podem apresentar déficits em reciprocidade socioemocional; dificuldade para expressar, de modo socialmente apropriado, seus estados emocionais; déficit em utilizar linguagem verbal e não verbal para se comunicar e interagir com pares ou adultos; assim como dificuldade para estabelecer e manter interações sociais por meio de brincadeiras e jogos.

O desconhecimento das emoções naturais de um ser humano impede o autista de participar plenamente e ativamente do convívio familiar, escolar e social. O aprendizado sobre as emoções busca fazer o aluno com autismo entender os próprios sentimentos, reconhecendo a importância do seu papel na vivência com outras pessoas e sabendo adequar suas reações diante de diferentes acontecimentos.

A inabilidade ou até mesmo a presença de habilidades deficitárias das crianças ao expressar, de modo apropriado, pensamentos, sentimentos e estados emocionais, com frequência torna-se contexto para a ocorrência de episódios de comportamentos disruptivos mais severos, isto é, a ausência ou o déficit na comunicação funcional efetiva e apropriada, assim como a ausência de suporte adequado, torna-se contingência para a ocorrência de episódios de explosão comportamental e emocional para crianças com TEA. Para o autista, destaca-se a autorregulação, que significa a habilidade de poder monitorar e modular os sentimentos, a cognição e o comportamento, a fim de alcançar um objetivo e adaptar-se às demandas cognitivas e sociais para determinadas situações.

Após conhecer essas emoções, faz-se necessário reconhecê-las em si mesmo e aprender habilidades de autocontrole, permitindo-se sentir, dosar e expor esses sentimentos apropriadamente. Nessa toada, há um consenso entre os educadores acreditando que é preciso compreender o processo educacional de modo mais amplo, e não somente como transmissão de conteúdo, mas vendo o aluno em sua universalidade.

O conteúdo pedagógico já ocupa grande parte da preocupação dos alunos, mas não pode ser visto como suficiente para prepará-los por completo para os desafios que enfrentarão ao longo da vida, uma vez que está diretamente ligado ao mercado de trabalho, visto que a profissão e as relações interpessoais vão muito além do conhecimento técnico. O ensino sobre emoções e reações pode tornar alguém capaz de melhorar o relacionamento com familiares, professores e amigos e ainda ser mais responsável, autônomo e compreensivo diante das formalidades sociais.

As atividades estruturadas e brincadeiras educativas direcionadas para os alunos aprenderem a controlar suas emoções, alcançar seus objetivos, tomar as próprias decisões e lidar com eventuais frustrações são de extrema importância para as pessoas com autismo, assim como são também para os demais alunos.

A questão é que as pessoas com autismo são vistas, muitas vezes, como indiferentes, antipáticas, insensíveis, egoístas, e, na verdade, elas podem realmente ter dificuldades em captar o que a outra pessoa está sentindo apenas analisando sua expressão facial, o tom de voz ou, ainda, gestos e linguagem corporal, por serem literais, ou seja, compreendem o que é dito ou mostrado da forma como explicitamente se encontra, não sendo capazes de deduzir ou interpretar, por meio de hipóteses, o texto, a fala ou a expressão. Porém, havendo uma comunicação direta, os autistas conseguem tanto compreender as emoções como esboçar sentimento de compaixão e empatia como qualquer outra pessoa.

Diante disso, observa-se a necessidade de direcionar um ensino voltado para o reconhecimento dos sentimentos e das emoções de maneira precoce. A comunicação direta, verbal, sem subterfúgios nem ironia e, em alguns casos, utilizando imagens pode fazer toda a diferença na efetiva compreensão desse ensinamento. Um papel importante que deve ser realizado também no ambiente escolar.

Todavia, a ausência ou o déficit na comunicação social de crianças com TEA se torna um desafio para o ensino de habilidades e competências socioemocionais, visto que é por meio dessa comunicação que o indivíduo pode sinalizar seus estados emocionais, expressar, verbalmente e de modo socialmente apropriado, seus pensamentos e sentimentos. O próprio autista, muitas vezes, é prejudicado pela dificuldade em reconhecer seus sentimentos, por encontrar-se vulnerável aos olhos dos outros, por acreditar fielmente no que lhe dizem e por não enxergar além do que lhe é mostrado, o que chamamos de sexto sentido ou ler entrelinhas, ações necessárias para a manutenção das relações sociais.

A base de uma vida equilibrada na fase adulta, tanto da pessoa com autismo quanto das neurotípicas, depende de um eficaz autoconhecimento, um bom autogerenciamento emocional, uma tomada de decisões lúcida e responsável, uma consistente habilidade de relacionamento e de consciência social, e, para alicerçar a vida nesses princípios, é preciso começar a reforçar a inteligência emocional dos alunos também no ambiente escolar, onde há pessoas diferentes, fora do convívio familiar, e que irão exercitar a execução desses sentimentos e reações o tempo inteiro.

As relações sociais no âmbito escolar, estando diretamente associadas ao gerenciamento das emoções, podem ser trabalhadas para minimizar o capacitismo, o preconceito e a discriminação que permeiam a sociedade, principalmente a juventude, causando transtornos dos mais diversos para a vítima e também seus familiares.

Pensadores ao longo da História, como Aristóteles, Marx e Engels, defendem a expressão de que “O homem é um ser social” sob a argumentação de que ele é assim por natureza e precisa viver em sociedade e em contato com outros seres humanos para se desenvolver plenamente. Quantos relacionamentos foram desfeitos por falta do diagnóstico de autismo e consequente falta de autoconhecimento de suas emoções, além da falta de conhecimento das emoções e dos sentimentos pela outra parte convivente?
Por isso, destacamos que o aprendizado socioemocional dos alunos autistas vai muito além dos muros escolares, tendo em vista que esse conhecimento será utilizado no dia a dia nas relações sociais com seus familiares, com os amigos e com a sociedade. O conhecimento de seus próprios sentimentos faz com que o autista exponha suas emoções proporcionalmente aos acontecimentos, evitando que eles sejam interpretados ou julgados equivocadamente.

A educação socioemocional na escola pode fazer a diferença no enfrentamento do capacitismo, na medida em que ensina os alunos a reconhecerem essas atitudes, repreenderem-nas e deixarem de reproduzi-las, além de compartilharem com outras pessoas o que aprenderam. O incentivo às práticas de atitudes positivas associadas ao ensino socioemocional pode impulsionar alunos e professores a viver de forma mais leve e saudável física, emocional e psicologicamente. Identificar os estados emocionais viabiliza que o aluno consiga distinguir entre um estado emocional e outro, conseguindo nomear que emoção está sentindo naquele momento, podendo, assim, comunicar-se de forma mais assertiva e socialmente apropriada.

Por isso, devemos disseminar esse conhecimento nas instituições escolares, principalmente para alunos autistas, colegas e professores, para que todos possam aprender com as diferenças e, acima de tudo, respeitá-las. Assim, estimulando esse tipo de atitude, podemos transformar o espaço em que vivemos num lugar desejável, íntegro e equilibrado para todos.


Fabiana Barrocas Alves Farah é autora do livro Autismo: os direitos – a realidade; Mestre em Direito Privado; vice-presidente do Instituto LeBlue Autismo; secretária-geral da Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência da OAB-CE; membro efetivo da Comissão de Direitos da Pessoa Idosa; líder do Grupo de Trabalho sobre os Direitos dos Consumidores com Deficiência da Acedecon; pós-graduada em Direito do Consumidor, Inclusão e Direitos das Pessoas com Deficiência; fisioterapeuta; advogada; e mãe de uma pessoa com autismo associado à síndrome de Pitt-Hopkins.

 

Maria Cristina Soares Rocha é vice-presidente da Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência da OAB-CE; membro da Comissão de Educação Jurídica da OAB-CE; diretora-executiva do Instituto LeBlue Autismo; pós-graduada em Inclusão e Direitos das Pessoas com Deficiência; advogada; e mãe de uma pessoa com autismo.

 

 

Referências

[Autor desconhecido]. Educação socioemocional: o que é, importância e como pôr em prática? Site: Kumon Brasil, 2022. Disponível em: https://www.kumon.com.br/blog/voce-sabe-o-que-e-educacao-socioemocional-e-como-aplica-la-na-sua-casa-/. Acesso em: 29 set. 2023.

ARAÚJO, Álvaro Cabral; LOTUFO NETO, Francisco. A nova classificação americana para os transtornos mentais – o DSM-5 (The new north american classification of mental disorders – DSM-5). Rev. Bras. Ter. Comport. Cogn., v.16, n.1, São Paulo, abr. 2014. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-55452014000100007. Acesso em: 05 out. 2023.

BORBA, M. M. C.; BARROS, R. S. Ele é autista: como posso ajudar na intervenção? Um guia para profissionais e pais com crianças sob intervenção analítico-comportamental ao autismo. Curitiba: Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental (ABPMC), 2018. Disponível em: https://abpmc.org.br/wp-content/uploads/2021/08/1521132529400bef4bf.pdf. Acesso em: 29 set. 2023.

BRITES, Clay. Estratégias de comportamento para crianças autistas: apoiando habilidades socioemocionais. Site: NeuroSaber, 2022. Disponível em: https://institutoneurosaber.com.br/estrategias-de-comportamento-para-criancas-autistas-apoiando-habilidades-socioemocionais/#. Acesso em: 19 set. 2023.

BRITES, Clay. O que é autorregulação no TEA? Site: NeuroSaber, 2018. Disponível em: https://institutoneurosaber.com.br/o-que-e-autorregulacao-no-tea/#:~:text=A%20autorregula%C3%A7%C3%A3o%20significa%20a%20habilidade,e%20sociais%20para%20situa%C3%A7%C3%B5es%20espec%C3%ADficas%E2%80%9D. Acesso em: 29 set. 2023.

CARVALHO, Cristiane. Mitos do autismo: saiba o que é verdade e o que não é. Site: Autismo em dia, 2020. Disponível em: https://www.autismoemdia.com.br/blog/mitos-do-autismo-saiba-o-que-e-verdade-e-o-que-nao-e/. Acesso em: 19 set. 2023.

CLÍNICA, Instituto Brasileiro de Psicanálise. O homem é um ser social: 3 teorias científicas, 11 de março de 2020. Disponível em: https://www.psicanaliseclinica.com/o-homem-e-um-ser-social/ psicanaliseclinica.com. Acesso em: 05 out. 2023.
COUTO, Lucas Polezi do. Ensino de competências sociais e emocionais para crianças com TEA: desafios e benefícios. Site: Portal Comporte-se – Psicologia & AC, 2019. Disponível em: https://comportese.com/2019/03/15/ensino-de-competencias-sociais-e-emocionais-para-criancas-com-tea-desafios-e-beneficios/. Acesso em: 5 out. 2023.

CURY, Augusto. O que é educação socioemocional e como colocá-la em prática? Site: Escola da Inteligência, 2022. Disponível em: https://escoladainteligencia.com.br/blog/educacao-socioemocional/. Acesso em: 29 set. 2023.

DEFENDI, Maria Lúcia. Socioemocional: o acolhimento que busca o pertencer para crescer. Site: G1, 2023. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/especial-publicitario/raphael-di-santo/colegio-raphael-di-santo/noticia/2023/06/28/socioemocional-o-acolhimento-que-busca-o-pertencer-para-crescer.ghtml. Acesso em: 19 set. 2023.

FRESCHI, Elisandra Mottin; FRESCHI, Márcio. Relações interpessoais: a construção do espaço artesanal no ambiente escolar. Revista de Educação do IDEAU. vol. 8, nº 18, 2013. Disponível em: https://www.passofundo.ideau.com.br/wp-content/files_mf/58059286bd30c43864fe675a1b6f659d20_1.pdf. Acesso em: 29 set. 2023.

GENTILIN, Ana Floripes Berbert. Competências socioemocionais: prática docente frente ao desafio do trabalho na área do Transtorno do Espectro Autista. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 06, ed. 09, vol. 05, pp. 163-198. Setembro de 2021. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/frente-ao-desafio. Acesso em: 29 set. 2023.

PINHEIRO, Raquel Carvalho. Precisamos falar sobre capacitismo. Ministério da Cidadania: Brasília, 2021. Disponível em: http://blog.mds.gov.br/redesuas/wp-content/uploads/2021/12/Capacitismo-e-defici%C3%AAncia-1-1.pdf. Acesso em: 29 set. 2023.

SANCHES, Sara. Atitudes positivas: o que são e exemplos. Site: Psicologia Online, 2022. Disponível em: https://br.psicologia-online.com/atitudes-positivas-o-que-sao-e-exemplos-1075.html. Acesso em: 29 set. 2023.

SHAH, Amitta. Catatonia, Shutdown and Breakdown in Autism: A Psycho-Ecological Approach. Londres: Jessica Kingsley Publishers, agosto, 2019.

cubos