Edição 138
Professor Construir
Cadê meu tempo? Agenda lotada! Pais e filhos sem tempo…
Rosangela Nieto de Albuquerque
Os pais, a fim de preparar seus filhos para o futuro, […] em que ‘só os melhores vencem’, passam a estimular a criança a realizar uma série de atividades,
uma verdadeira maratona de compromissos […]
Hoje, segundo estudiosos, com o mundo globalizado e o acesso à informação facilitado, uma criança com apenas 7 anos de idade já acumula mais conhecimento em sua mente do que um imperador romano no auge de seu império.
Em 1959, a ONU criou a Declaração Universal dos Direitos das Crianças, a fim de conscientizar as pessoas, as famílias e as instituições dos direitos básicos de uma criança. No entanto, por interpretação equivocada, houve uma distorção, originando a ideia da criança como um ser intocável, até em relação às suas capacidades. Esse foi o momento em que muitos pais, por não entenderem o objetivo da lei, perderam sua autoridade. Eles passaram a acreditar que estavam proibidos de educar e corrigir seus filhos.
Certamente, esse marco legal, pela falta de informação, gerou uma inversão de papéis, abalou a estrutura familiar e se manifestou também dentro da escola. Dessa forma, vivenciamos hoje crianças que não respeitam pais e professores, têm dificuldades em seguir regras e não respeitam limites.
Se os pequenos não têm tempo livre, se há uma rotina voltada para a produtividade,
a criança chega à exaustão e, às vezes, passa a se cobrar desmedidamente.
Os pais, com as melhores intenções, preocupam-se em dar o melhor aos filhos e acabam satisfazendo, além de todas as necessidades básicas, também todas as vontades, esquecendo-se de colocar limites, estabelecer regras. No entanto, corrigir comportamentos indesejados é fundamental. Para que uma criança cresça e se desenvolva emocionalmente saudável, ela precisa vivenciar o amor, o respeito, a humildade, a paciência, a generosidade, a amizade, a persistência, a coragem, a justiça, a responsabilidade, que compõem o alicerce da construção de uma criança.
Temos uma geração de crianças e adolescentes extremamente ansiosos, agitados, compulsivos, folgados e imediatistas, que querem tudo para ontem. Crianças e adolescentes sem limites, exigentes, com energia acumulada, isto é, adoecidas, uma sociedade ansiogênica. Percebe-se, na contemporaneidade, um excesso de diagnósticos, em que os sujeitos são tratados com medicação em vez de com cuidado, atenção, tempo para brincar, tempo para o ócio… E não são somente as crianças e os adolescentes, observamos pessoas de 20, 30, 40 anos que não atingiram a maturidade da fase adulta, resultado de um modo de educar equivocado.
Paradoxalmente, na geração em que se flexibilizaram as vontades das crianças, há uma exigência de atividades como necessidade de preparação para o futuro. E como chegamos a esse panorama? Um misto de influências, isto é:
• A equivocada interpretação da lei dos Direitos da Criança;
• Alimentação inadequada (salgadinhos, excesso de gorduras e açúcares, etc.);
• A crença da escassez: pais querem dar aos filhos o que não tiveram, assim precisam trabalhar mais para suprir “todas” as necessidades; com isso, com as agendas lotadas, terceirizam a educação dos filhos;
• Pais ausentes devido à exigência do mercado de disponibilidade total dos funcionários;
• O desenvolvimento tecnológico (crianças e adolescentes ficam horas na tela).
O futuro é a preocupação dos pais… O perfil da sociedade mudou, não há mais a profissão do pai que passava para os filhos, o custo de vida está alto, e as famílias desejam que as crianças — futuros adultos — tenham empregos capazes de suprir as necessidades da vida futuramente.

Os pais, a fim de preparar seus filhos para o futuro, preocupados com o sistema bruto, cruel, um mercado classificatório que cobra pessoas competentes, em que “só os melhores vencem”, passam a estimular a criança a realizar uma série de atividades, uma verdadeira maratona de compromissos, isto é, estudo de línguas (inglês), balé, judô, natação, estudo de música, teatro, kumon, etc. Portanto, a infância se tornou um preparo para o futuro, e os pequenos são verdadeiros miniexecutivos. O infante, ainda em construção da subjetividade, inscreve-se no discurso social de que toda essa maratona é fundamental para que ele tenha sucesso, e o resultado dessa preparação é uma infância e uma adolescência ansiogênicas.
Então, pais atarefados demais, muitas vezes, terceirizam a educação dos filhos para dar conta de toda exigência do mercado e sentem-se culpados pela ausência; assim, buscam “supri-la” com excesso de prêmios (brinquedos, passeios, viagens, etc.). Desse modo, temos um panorama complexo, de pais e filhos com agendas lotadas. E como fica a criança que precisa crescer e descobrir o mundo, necessita do brincar livre, de escolhas de atividades para criar, do ócio, elementos fundamentais para os desenvolvimentos físico, emocional e cognitivo? Para os pais, também é difícil conciliar a parentalidade com a vida profissional, acomodar horários do trabalho, da escola e das atividades, aula de canto, natação, idiomas, etc.
Uma criança com horário para várias atividades, com agenda preenchida, com sonhos planejados é um modelo ativo para o sucesso. Produtividade é uma palavra do cotidiano, assim a criança vivencia pressão, preocupação com o futuro, competitividade, e, certamente, eclode a ansiedade. Há, na contemporaneidade, especialistas em Educação e Psicologia que discutem acerca dos limites e das possibilidades da criança em busca do “futuro dos sonhos”.
Observa-se que se estabeleceu uma cultura em que os pais precisam estimular os filhos a estarem sempre numa busca insaciável de “construir para o amanhã”, muitas vezes baseada em conquistas inatingíveis e sempre pensando na próxima meta. Os pais, nas suas funções profissionais, vivem cobrando de si mesmos um melhor desempenho e levam esse comportamento para os filhos.
A lógica da produtividade e, consequentemente, da agenda cheia vai constituir uma lacuna nessa fase tão importante da vida — a infância —, quando o desenvolvimento da subjetividade e da criatividade é realizado através da liberdade e do tempo livre.
Se os pequenos não têm tempo livre, se há uma rotina voltada para a produtividade, a criança chega à exaustão e, às vezes, passa a se cobrar desmedidamente. Assim, há mais chances de comprometer a saúde mental.
É importante enfatizar que colocar a criança em várias atividades (natação, canto, esportes, balé, teatro, música, etc.) pode desenvolvê-la tecnicamente, no entanto não é certeza de desenvolvê-la socioemocionalmente.
A preocupação dos especialistas é que esse sistema pode desencadear cansaço e frustração, sintomas que, muitas vezes, aparecem mascarados através de doenças psicossomáticas.
A cultura da produtividade, com as agendas lotadas, desenvolve chances de termos uma geração inapta a lidar com o tédio, com o ócio, além de se tornar ansiogênica.
A importância do brincar e de viver o ócio e o tédio
Todas as crianças do mundo brincam e têm o direito de brincar, mas as expectativas dos pais quanto ao futuro vão roubando delas o que têm de mais importante para seu desenvolvimento: a construção da subjetividade, a espontaneidade, a criatividade, a fantasia e a imaginação. Segundo Fernanda Marques e Helenise Ebersol, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS),
[…] uma criança que não consegue brincar deve ser objeto de preocupação. Disponibilizar espaço e tempo para brincadeiras, portanto, significa contribuir para um desenvolvimento saudável. É importante também que os adultos resgatem sua capacidade de brincar, tornando-se, assim, mais disponíveis para as crianças enquanto parceiros e incentivadores de brincadeiras
(MARQUES, EBERSOL, 2023).
A falta de tempo para brincar e ficar à toa, viver o ócio pode demonstrar que a criança está se sentindo pressionada a ser produtiva e pode se transformar em sinais de estresse. Os sintomas são variados, como dores de cabeça e no corpo, irritabilidade, mau humor, dificuldades para dormir, falta de apetite e enjoo. Cada criança reage de uma forma, em alguns casos ela verbaliza dizendo que não quer ir à escola; em outros, fica calada, retrai-se, pois, sem querer desagradar os pais, tenta dar conta da infinidade de atividades, no entanto está exausta e infeliz.
A Academia Americana de Pediatria publicou, em 2012, um relatório que nos chama à reflexão sobre os impactos negativos do estresse tóxico e prejuízos para o desenvolvimento físico e mental, enfatizando também os danos na aprendizagem e no comportamento infantil. O relatório evidencia que muitos problemas de diagnóstico de depressão, pânico e outras psicopatologias estão relacionados ao encurtamento da infância. É preciso um olhar para os nossos pequeninos, pois muitos transtornos nos adultos advêm da infância.
Hirsh-Pasek e Golinkoff (2013) enfatizam que:
Brincando mais livremente, as crianças terão mais chance de desenvolver a inteligência emocional
Hirsh-Pasek e Golinkoff (2013).
Portanto, os pais precisam interagir/brincar com seus filhos, oportunizar também o brincar livre; não será na pressa das atividades diárias que se forjará a inteligência emocional.
Para Coimbra (apud Souza, 2013. p. 7),
A subjetividade humana é marcada pelo desejo de ser único; eu preciso descobrir quem sou, do que gosto, o que quero fazer da vida. Uma infância bem vivida deveria ser um espaço de exploração de descobertas e de abertura para a criatividade.
Sabemos que, para que a pessoa conquiste uma carreira de sucesso, é necessário que as competências técnicas sejam desenvolvidas, mas é preciso promover um bom convívio em sociedade e ter uma vida equilibrada, e isso é construído na infância, através do brincar, da expressão livre, do contar histórias, da beleza da fantasia, da representação teatral, dos contos de fada, fatores que irão desenvolver criatividade, imaginação, capacidade de improvisar, resolução de problemas e interação com o outro.

Deixar o tempo livre para o ócio, quando o tédio exerce um papel fundamental de ser um importante catalisador de ideias, é essencial. É no tempo ocioso, sem atividade dirigida, sem fazer nada, que a criatividade aflora. Os valiosos momentos de calma e felicidade devem ser cultivados na infância e exercitados por toda a vida. É importante enfatizar que o tempo ocioso não envolve telas (TV, celular, tablet), portanto estar nas telinhas não é considerado tempo de ócio.
É com a brincadeira livre, com as descobertas, nas experimentações, na testagem de hipóteses que a criança vai aprendendo a processar suas emoções e sensações de explorar o mundo, a lidar com as possibilidades, com o inesperado, a imaginar diferentes cenários, a desenvolver a criatividade.
A cultura da produtividade, com as agendas lotadas,
desenvolve chances de termos uma geração inapta a lidar com o tédio, com o ócio […]
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pais e filhos estão com agendas lotadas, e os pais estão preocupados em capacitar tecnicamente seus filhos para as demandas do mercado de trabalho de um futuro que desconhecem. Hoje, o mercado de trabalho requer sujeitos preparados técnica e emocionalmente, mas e no futuro? Certamente, as habilidades como inteligência emocional, criatividade, resolução de problemas serão diferenciais em qualquer profissional. E o que mais desenvolve essas habilidades na criança é o lúdico, o brincar livre, sem pressa, sem planejamento de dia e hora marcados, o brincar sozinho, o brincar com pares.
É preciso ficar alerta à cultura da produtividade, hoje percebida até nas festas infantis, pois as atrações não proporcionam tempo para o brincar livre, há monitores para dirigir, mágicos e outras atrações em que se mantém a criança “ocupada”. Observa-se que os pais repetem esta ocupação durante a semana e enchem a agenda dos filhos de atividades. E quando a criança terá tempo para ser criança? Quando ela utilizará uma caixa de leite para representar um carro? Quando exercitará a criatividade em construir brinquedos com sucatas? Quando terá a infância sem pressa?
É importante cuidar do emocional da
criança e deixá-la desfrutar da infância.
Para que a criança aprenda, é necessário experimentar, resolver problemas, enfrentar desafios, mas sem sobrecarga, sem estresse.
É preciso reforçar para a criança que ela não precisa ser perfeita, que o erro faz parte da vivência de todos nós, que errar não diminuirá o sentimento de responsabilidade e que desafios são naturais. É importante cuidar do emocional da criança e deixá-la desfrutar da infância.
Desse modo, é preciso criar espaços livres na rotina dos pequenos, ensiná-los a ter empatia, a enxergar o outro, a resolver conflitos, a entender outras culturas, estimulando as descobertas e a liberdade de escolha. Certamente, assim eles terão uma vida mais saudável e estarão preparados para o futuro.
Não há receitas ou fórmulas prescritas para prevenir o estresse, o adoecimento físico e mental dos nossos pequeninos, mas é preciso deixá-los viver uma vida saudável com o velho e bom equilíbrio.
Rosangela Nieto de Albuquerque é Ph.D. em Educação (Universidad Tres de Febrero), pós-doutoranda em Psicologia, Doutora em Psicologia Social, Mestre em Ciências da Linguagem, psicanalista clínica, professora universitária de cursos de graduação e pós-graduação, psicopedagoga clínica e institucional, pedagoga, licenciada em Letras (Português/Espanhol), autora de projetos em Educação e da implantação de uma clínica-escola de Psicopedagogia Clínica como projeto social e autora e organizadora de treze livros nas áreas da Educação e da Psicologia.
REFERÊNCIAS
HIRSH-PASEK, Kathy; GOLINKOFF, Roberta Michnick. Conversando: brincadeira, desenvolvimento da linguagem e o papel do apoio aos adultos. American Journal of Play , v. 6 n. 1. p. 39-54, outono de 2013.
MARQUES, F.; EBERSOL, H. Efeitos da agenda cheia. 2023. Disponível em: https://escoladepaisgrandefloripa.org.br/efeitos-da-agenda-cheia/. Acesso em: 25 jun. 2024.
SOUZA, A. Agenda lotada e os riscos da busca pela produtividade infantil. 2023 Disponível em: https://lunetas.com.br/agenda-lotada-produtividade-infantil-riscos/. Acesso em: 25 jun. 2024.
