Edição 138
Profissionalismo
Cadê meu tempo? Agenda lotada!
Nildo Lage
“Que tempo?” Tempo para a vida! “Para a vida? A vida necessita de tempo para quê?” Para compreender que o viver é agora! “Compreender o quê?” Por que vive reclamando que corre tanto, e não sobra tempo para nada? Por que nunca finaliza o que começa? Por falta de tempo? “O que é tempo, afinal?” Ontem? Hoje? Amanhã? Agora? Nunca? Breve? Logo? Outrora? Sempre? Jamais? Ou tempo é, meramente, o estado atmosférico?
Na verdade, tempo é uma das grandezas do Universo. É irreduzível, não retrocede no próprio espaço, tampouco se contrapõe, dá satisfações. Seu agir é imperceptível; muitos nem percebem, outros não admitem, mas o tempo é o regente da vida!
Por ser insuperável, impõe as coordenadas do próprio transcursar e constitui o momento para tudo: da concepção ao nascimento, à definição para crescer e ao instante preciso de partir. Assim, é primordial respeitar o tempo da vida para que a existência sobrevenha sem sequelas que fragilizam o viver.
Tempo é irredutível, inacumulável. Se não aplicarmos o recurso mais precioso a nosso favor, passaremos pela vida sem usufruir da transição que abrolha a seiva que sustenta o viver, como afiança a própria Palavra em Eclesiastes 3,1: “Há um tempo para cada coisa debaixo do Sol, tempo de plantar, de colher, de nascer, de viver e de morrer”. Salientando que essa grandeza física define que desejos e escolhas devem ser delineados no tempo alcunhado agora para não perdermos o norte que conduz à felicidade.
Se é assim, cadê meu tempo, papai, mamãe?: “Agora não posso, tenho uma reunião importante!”, “Preciso atender uns clientes, depois falamos!”, “Mais tarde, se sobrar tempo, iremos!”, “Sua babá o auxiliará nas tarefas de casa e o acompanhará na visita aos seus avós!”.
Muitos se agarram a essa ilusão, crentes de que correr contra o tempo para acumular conquistas e ser proeminência é abeirar-se do ápice. Nunca têm tempo e, como não retêm poderes para expandi-lo, perdem-se nos próprios caminhos por não conseguirem atingir propósitos pessoais; ao tentarem desdobrar o espaço na agenda, comprimem-se nos paredões de uma sociedade cada vez mais dependente dos avanços tecnológicos que impulsionam o social a acelerar os passos para se adaptar ao novo padrão.
A pressa é de uma altivez que a deficiência de tempo emudeceu o grito “CADÊ MEU TEMPO?”. Não há retorno, porque essa ausência de espaço na agenda tornou-se referência, insígnia de sucesso, e muitos se gabam de levar uma rotina sem tempo de parar até mesmo para apreciar e usufruir da vida.
Por quê? É inegável! O humano tem ciência de que jamais governará, tampouco deterá, o tempo para satisfazer ambições e caprichos. O mínimo que consegue é gerenciá-lo ao seu favor para desempenhar funções e não ser massacrado pelas afobações do dia a dia.
[…] a corrida pela supervivência dispersa família e amigos a ponto de um não ter tempo para o outro, transformando pais e filhos em forasteiros no próprio lar […]
Se o tempo pode ser gerenciado… cadê meu tempo?
É surpreendente: a corrida pela supervivência dispersa família e amigos a ponto de um não ter tempo para o outro, transformando pais e filhos em forasteiros no próprio lar, e, à medida que contemporizam um gesto de carinho, um ato de amor, dilatam a distância e, quanto mais longínquos, menos ambicionam contato, até mesmo com os consanguíneos.
Nesse ininterrupto processo de afastamento, o eu, que desconhece o que é altruísmo, permite que o vazio da existência seja completado por artifícios. O humano, mesmo ousando se adaptar num quadrado regido pelas mídias digitais, não consegue asfixiar o sociável, porque a natureza alerta que os papéis sociais são essenciais à vida, mesmo em redes eletrônicas, pois cobranças que se impõem ao outro — como atenção — são necessárias para a tribo que as adotou e exigem tempo.
É a partir desse marco que se inicia o grande desafio: administrar o tempo para que compromissos profissionais, familiares e sociais se nivelem, para não acarretarem a um problema maior: o acúmulo de comprometimentos. O que é isso? Esfalfamento? Não! Globalização da família!
O que fazer? Muito pouco! A humanidade foi arremessada no universo digital e permitiu ser esfacelada para ser submetida a um refinado processo de decomposição de valores para ter acessibilidade ao universo desconhecido, que não decreta limites, disciplina ou norte. Basta desejo para explorar, porque o irreal se desfaz com um clique, e a vida permite ser desligada para se aparelhar a esse novo.
Regressar ou prosseguir? Depende do querer. Só que tais viagens ao universo além-mundo convertem os membros da família contemporânea em avatares, e os indivíduos interagem através da tela touchscreen, dissolvendo o contato físico até mesmo com os que o cercam. O processo de digitalização, instigado pelas circunstâncias da evolução tecnológica, incita suas ferramentas a arremeterem no próprio futuro para saciar uma humanidade esfaimada de novo.
Esse novo, de tão sedutor, minimizou assimetricamente o existir para alocar as tribos em comunidades que facilitem a relação sem estabelecer reciprocidade de afeto e contato físico.
E o espaço-tempo?
Como trabalho-tempo-produção não escoltam a cadência de tais desenvolvimentos, precisamente pela deficiência de tempo, é inevitável que o viver, o registrador da vida, desfeche o alarme como alerta de que é preciso compassar o ritmo para viver o agora e, do mesmo modo, perceber que a vida pede passagem para viver o hoje, porque o tempo não descontinua e opera em modo analógico. Como não se conecta ao humano digital, este se desespera por não equiparar ações do cotidiano com o tempo nem gerenciar atos e ter alguns minutos como trégua para recarregar a bateria e prosseguir na busca de ideais que o reumanizem.
É no pesar do semblante que o olhar se inclina e redireciona o foco para dentro de si, que reflete a dimensão do vazio, dilatado por ambições e atitudes fúteis que impediram atar o laço do afeto com os filhos, que cresceram sem referências familiares. Educação? Os frutos das correrias em busca de divisas assumiram as rédeas do próprio destino! Como chegarão? A escola da vida responderá!

Tamanho distanciamento é, realmente, falta de tempo?
Temos ciência de que ser presentes na vida dos filhos é presenteá-los com o que há de melhor em nós — o nosso acolhimento. Por quê? Filhos dependem de referências, exemplos e, acima de tudo, presença! Casa, comida, brinquedos, roupa, educação são itens de necessidade básica. Todavia, amor, carinho, afeto, contato, envolvimento são fundamentais, porque complementam e fazem a diferença na vida daqueles que dependem do nosso abarcamento para crescer como humanos.
Nesse processo, nada tem tanto valor como um abraço, assistir àquele filme pela décima vez como se fosse a primeira, sentar no piso, brincar, ouvir, muitas vezes, uma história repetida. Filhos só querem aquele momento família para atarem o laço do afeto, construírem, com pais e irmãos, uma relação de amor e carinho. Esse tempo é necessário para arquitetarem a base emocional, porque beijos, “Eu te amo” e abraços fortalecem a autoestima, alçam trincheiras que proporcionam segurança emocional, alargam a confiança, pois dedicação acolhe, por se sentirem amados. Quando se cresce feliz, dilata-se a consciência de que família é uma sociedade da qual provêm amizade, afeição e incentivo para descobrir valores, respeitar sentimentos, olhares, limites e a individualidade.
Todavia, a família contemporânea decreta que ser pai é uma opção. E realmente é! Só que as vítimas do incidente de concepção não podem ser criadas como bichos de estimação, para as quais roupa, casa e alimento são tudo o que se pode oferecer; assim, os pais afastam-se das crias, transferindo, para professores, avós e babás, responsabilidades na formação. Sacrificam o tempo passado com os filhos por aulas de inglês, balé, música, no intuito de mantê-los entretidos e ter aquele instante de paz.
Só que as obrigações de pais vão além do abrigar, vestir e alimentar. E há tempo, sim. Basta gerenciá-lo para dilatar o espaço dos filhos. Por outro lado, é preciso edificar a própria estrutura para formar um ser que depende de exemplos, num meio cada vez mais infestado por influências externas. O desenvolvimento do caráter, da personalidade, decreta participação, envolvimento, escuta e sensibilidade para captar fraquezas, medos, inseguranças e agir sem atropelar o processo que requer prevenção: o crescimento humano.
Tudo isso demanda tempo. Tempo para observar, aproximar, aconselhar, corrigir, ditar regras, impor limites e brincar. Reservar o tempo para brincar com os filhos é proporcionar momentos que vão além de desconcentração. O lúdico no ambiente familiar é incentivo que proporciona bem-estar, fortalecimento emocional, estrutura psicológica, por ser um processo que promove não apenas distração, mas um aprendizado à base de exemplos, numa convivência disseminada em momentos excepcionais para dar e receber amor e carinho.
O fato é que muitos, por não terem um plano de vida, não percebem, mas momentos de brincadeiras e descontração são metodologias cujas táticas forjam personalidade, caráter. A ludicidade educa e transforma comportamentos, excepcionalmente pela observação de atitudes, além de estreitar a relação. Somos observados o tempo todo por nossos filhos e, se aproveitarmos o tempo de convívio para sermos espelho, formaremos indivíduos com respeito e responsabilidade.
E presença não é estar em casa, suportar berreiros e perrarias. É ter contato e se envolver. Inserir essas ações no cotidiano familiar determina renúncias e dedicação para participar da vida escolar ou, simplesmente, estar juntos, como momento para entreter, para não desconectar do amor, da amizade, do companheirismo, que são hastes que sustentam a relação de pais e filhos, cujas memórias armazenarão momentos que levarão por toda a vida.
Qual o tempo para iniciar?
Agora! Filhos dependem da qualidade do tempo dos pais para que os atos se tornem rituais, por meio de atividades que não sejam balé, escola de futebol, violão, artes ou entretenimento com ferramentas digitais. Todos têm aqueles minutos extras para abraçar, discutir assuntos escolares e familiares e dizer: “Eu te amo!”.
Todavia, enquanto conquistas de divisas forem mais importantes que o futuro das crias e, assim, prosseguirmos descartando obrigações de provedores de valores familiares para nos dedicarmos ao trabalho, que exige mais e mais tempo, nossos filhos se perderão nos próprios caminhos.
A sociedade hodierna esboçou a falta de tempo como modelo de prosperidade. É tanta ocupação que, ao cumprirem as últimas tarefas do dia, as crianças estão extenuadas e só querem dormir.
É impressionante como as crianças da atualidade não têm infância. Na maioria das vezes, não é raptada por drogas, violência urbana ou familiar. Não querem ser crianças? Não! Não têm tempo de ser crianças, brincar como crianças, viver uma fase em que desenvolvem, além da estrutura psicológica e emocional, habilidades como pensamento crítico, liderança, comunicação e capacidade de trabalhar em equipe.
Esse conjunto de habilidades forma a estrutura para ostentar a expressividade emocional e o autocontrole, além de promover o equilíbrio pessoal, porque as habilidades sociais facilitam o conviver, à medida que expandem os laços de amizade, que dilatam as oportunidades de vitória.
Há casos tão críticos que muitos não experimentaram a alegria de ver os filhos ensaiarem e darem os primeiros passos, tartamudearem as primeiras palavras. Ficam semanas sem conseguir ver os filhos acordados para um “Oi, filho! Tudo bem?”. Porque, assim como filhos, não têm tempo; se pararem para um momento de atenção, uma oportunidade é abocanhada pela concorrência.
Assim, os filhos crescem sem referências familiares nem intimidade com os pais e irmãos, por serem forçados a se adaptar a um ambiente em que prevalece o individual. Não há diálogo, carinho, bom senso, equilíbrio emocional ou psicológico nem exemplos que impõem limites.
Na idade escolar, a ausência se aperfeiçoa, principalmente, para acompanhar o rendimento, porque uma boa escola — na percepção dos genitores — é tudo para o futuro do filho. Essa concepção arrebata a paternidade, ao serem descartados momentos de lazer, e até na doença, porque babá existe para suprir a presença dos pais; creches e escolas são ambientes que formam para a vida; e avós sempre têm um colinho quente, um abraço afetuoso e um beijo de amor para oferecer!
Quantos têm esse privilégio? A crise estabelece estacionarmos, abrirmos a caixinha da responsabilidade para desvendarmos o segredo de formar filhos felizes. A omissão é justificada pela falta de tempo que gastamos com uma cerveja com os amigos, uma partida de futebol, um chá com as colegas de trabalho, enquanto as crias se conservam aos cuidados de outros e crescem órfãos de pais, que vivem para si mesmos.
Reservar o tempo para brincar com os filhos é proporcionar
momentos que vão além de desconcentração.
E o tempo?
Continuará como repto, e os efeitos da sua falta são refletidos numa sociedade ansiosa, sem afeto e solidariedade, cujas angústias determinam lutar contra o tempo para ter, dominar, porque pai, mãe e até avós estão com as agendas sempre lotadas.
O jeito é entreter, mas com atividades assimetrica-mente delineadas, para que o tempo da criança seja equiparado com o tempo dos genitores. Com essa deficiência de tempo para a formação, cultiva-se uma geração em que a maior ruptura é de entusiasmo pela vida. De tão frágil, um “não” acende terremotos que fazem tudo desmoronar.
Muitos até tentam, improvisam, desfecham cadências de checklist na agenda. Não sobra tempo! Descanso? Nem pensar! Vinte e quatro horas são pouco para tanto vai e vem! O que fazer? Tudo! Pois é preciso encontrar tempo para dar conta das dimensões de compromissos pessoais e profissionais assumidos.
É tanto corre-corre que os filhos chegam à adolescência ignorando o que é brincar de esconde-esconde, um momento em família, subir numa árvore, jogar bola num terreno baldio, sujar-se de lama. Criança que não brinca não desenvolve competências nem desenvolturas para expressar sentimentos e frustrações, que são internalizadas, originando bloqueios que incitam desvios comportamentais.
Socializar na era da pós-contemporaneidade estabelece atenção para não se perder ante tantas opções, para que pais fechem concordatas que promovam a terceirização dos filhos, sem se importarem se a infância será ceifada em creches, hoteizinhos, com cuidadores, professores, familiares ou se o desenvolvimento emocional sofrerá sequelas.
A terceirização da parentalidade se tornou comum no contexto pós-moderno, em que a separação ocorre com o filho ainda bebê. Como as funções dos pais não foram exercidas, o atar do laço afetivo foi impedido. O intercâmbio que agencia a relação de pais e filhos passou a ser feito por terceiros, que, cada vez mais, cumprem obrigações maternais e paternais sem terem que gerar. Porque, assim como as barrigas de aluguel se converteram num negócio, pais de aluguel vêm se tornando a profissão do momento.
Como a vida não descontinua, na transição primeira infância-idade escolar, com a profissão de pais terceirizados, creches e escolas se tornam receptoras, com encargos de suprir deficiências familiares, e os responsáveis entregam as crias no portão, giram sobre os calcanhares e partem para a batalha pela sobrevivência.
Como não harmonizam tempo com conquistas pessoais para a expansão das oportunidades de vitórias, reciprocidade entre tempo e viver, são alvos inatingíveis, e o propósito maior, a felicidade dos que dependem do tempo que disponibilizamos para eles, não sobrevém como retorno de uma trajetória de perdas, construção e reconstrução.
Aproveite o momento agora para viver a plenitude da vida com aqueles com que ela o presenteou. Porque esse agora se esvairá como uma nuvem que o vento arrebata para longe.
Ainda há tempo?

Há! Basta que pais invistam tempo nos filhos, tirem proveito de cada passo dessa passagem como oportunidade única de abraçar, beijar e dizer: “Eu te amo!”. Porque viver é um exercício contínuo, mas a infância é uma fase, e esta passa na velocidade do tempo perdido que corre atrás do vento.
Assim, viva cada dia como o último para moldar a personalidade, fundir o caráter, inserir valores, compartilhar amor, carinho e alegria. Pois um dia será realmente o nosso último, e, como não levaremos nada, podemos deixar, no mínimo, um legado para nossos filhos.
O tempo dedicado àqueles que geramos amadurece e faz crescer. Cada minuto perdido é uma oportunidade de sermos felizes que se vai com tamanha presteza que foge do nosso controle, pois muitos só percebem a dimensão do erro quando voltam o olhar e apreendem que momentos únicos que poderiam proporcionar alegria e felicidade ficaram para trás.
Aproveite o momento agora para viver a plenitude da vida com aqueles com que ela o presenteou. Porque esse agora se esvairá como uma nuvem que o vento arrebata para longe.
Assim, seja feliz agora, porque esse ser que grita pelo tempo — agora — não estaciona para esperar o seu bocadinho de tempo. A vida é hoje, e o seu tempo é já, e essa urgência estabelece parada para os que amamos. Dessa forma, você verá que a alegria dos filhos refletirá como energia para si mesmo e, sobretudo, para os filhos, por imperar a reciprocidade de respeito pela vida e reinar o amor.
