Edição 137

Professor Construir

Como lidar com a ansiedade em sala de aula?

Rosangela Nieto de Albuquerque

BRINCAR DE AMARELINHA, CORRER, PULAR CORDA, ESPERAR O PAPAI NOEL CHEGAR…
A INFÂNCIA ATROPELADA…

Coração acelerado, mãos suando, respiração ofegante, garganta seca, sensação de desmaio; esses são alguns sinais de ansiedade.
A ansiedade em adultos está presente na história da humanidade desde os tempos mais remotos; no entanto, em crianças e adolescentes eram raros os diagnósticos, e, agora, o número de casos vem aumentando a cada dia. Sendo assim, fazer uma reflexão sobre o assunto é fundamental, pois é um desafio lidar com o transtorno, tanto para a família quanto para a escola.
Segundo Clark e Beck (2012, p. 15),

A ansiedade é ubíqua à condição humana. Desde o início dos registros históricos, filósofos, líderes religiosos, acadêmicos e, mais recentemente, profissionais da saúde, bem como cientistas sociais e cientistas das áreas da Saúde, têm tentado desenredar os mistérios da ansiedade e desenvolver intervenções que efetivamente tratem dessa condição disseminada e perturbadora da humanidade. Hoje, como nunca antes, eventos calamitosos provocados por desastres naturais ou atos desumanos de crime, violência ou terrorismo criaram um clima social de medo e ansiedade em muitos países ao redor do mundo.”

Na escola, a pergunta mais propagada pelos educadores é: “Como lidar com a ansiedade no ambiente escolar?”. Certamente, são necessárias estratégias desenvolvidas pela escola, talvez em parceria com instituições que promovam formação aos docentes, por profissionais capacitados que os preparem para lidar com o transtorno da ansiedade.

Há alguns comportamentos que os docentes podem identificar como possíveis sinais de que o estudante pode estar vivenciando a ansiedade, por exemplo: apresentar elevada quantidade de faltas; ter dificuldade de trabalhar em equipe; desenvolver desatenção e inquietação; parar de socializar com os colegas de classe; ter dificuldade de responder perguntas em aula; e apresentar irritabilidade.

As principais causas da ansiedade escolar envolvem alguns comportamentos como, por exemplo: pressão acadêmica, mudança de escola ou de turma, carga horária intensa, exames consecutivos e busca pela excelência (cobrança por resultados) e também desafios sociais, como a necessidade de se encaixar em grupos, aceitação das limitações, etc.

A escola precisa observar alguns sinais:

• Se há isolamento social do estudante.
• Se há queda no desempenho acadêmico.
• Se há mudanças no comportamento, como apatia ou irritabilidade.

Os transtornos de ansiedade têm prevalência relevante em relação aos demais transtornos relativos à saúde mental de crianças e adolescentes. Considera-se transtorno de ansiedade aqueles quadros em que o medo ou a preocupação inicial é desproporcional ao agente causador, não só em termos de probabilidade de acontecimentos ruins, mas também em termos de gravidade desses possíveis acontecimentos.

A infância, na contemporaneidade, é um período em que a criança vive com pressa. O tempo é tomado por várias atividades; fase em que a criança deveria ter o tempo para crescer e descobrir o mundo, mas que se transformou em uma maratona de compromissos em busca da preparação para o futuro. Com a agenda cheia de atividades, são crianças miniexecutivas que vivenciam diariamente uma aceleração do tempo e “queimam” as etapas de desenvolvimento infantil fundamentais para a saúde física, mental e cognitiva.

O tempo acelerado… O novo paradigma familiar… Crianças e adolescentes estão se desenvolvendo em um ambiente adverso e competitivo; muitas vezes, sentem-se solitários e acabam por assumir responsabilidades cada vez mais cedo, com cobranças de resultados ainda antes de a maturidade ter sido alcançada. Assim, essa realidade que se instala contribui para o ambiente tenso e fértil para o desenvolvimento de transtornos de ansiedade na infância e na adolescência.

Ansiedade é um sentimento desagradável, medo e apreensão caracterizados por tensão ou desconforto e derivados de uma antecipação de perigo. As crianças, em geral, têm medos, e é difícil reconhecer se são exagerados ou estão dentro da normalidade; portanto, é preciso diferenciar ansiedade normal de ansiedade patológica; desse modo, é importante avaliar se a reação ansiosa é de curta duração, autolimitada e relacionada ao estímulo do momento.

Os sintomas da ansiedade podem ocorrer em várias condições e até como depressões, psicoses, transtornos do desenvolvimento, transtorno hipercinético, entre outros; as causas dos transtornos ansiosos infantis ainda são desconhecidas, mas estima-se que apresentem características multifatoriais, isto é, fatores hereditários e ambientais diversos.

É comum crianças sentirem os medos mais variados possíveis: do escuro, de ficarem sozinhas, de ir à escola, da separação dos pais, etc., mas, à medida que vão crescendo e se desenvolvendo, ampliam a relação com o mundo e se tornam mais seguras e confiantes, e a tendência é que esses medos desapareçam. No entanto, quanto mais cedo for identificado e analisado o motivo do medo mais intenso, certamente mais êxito se terá no tratamento, pois é comum vermos em crianças vários tipos de patologia de ansiedade, até mesmo aquelas observadas nos adultos, como: ansiedade generalizada, pânico, agorafobia (medo de lugares com muita gente ou abertos) e fobias específicas.

Existe um grupo de transtornos de ansiedade que permeia especificamente as crianças e que, muitas vezes, é desconhecido dos pais, professores e cuidadores, a exemplo de fobia escolar (medo de ir para a escola) e transtornos de ansiedade de separação (medo de se afastar dos pais ou das figuras de referência).

O transtorno de ansiedade vem acometendo 4% das crianças. Observa-se uma ansiedade não apropriada e excessiva em relação à separação dos pais ou de figuras importantes para a criança. Acontece quando ela fica sozinha e começa a sentir que algo poderá acontecer com ela ou com seus cuidadores (sequestro, doença, assaltos). Ela teme que algo a afaste definitivamente dos entes queridos. Nesse caso, há um comportamento excessivo de apego aos seus pais ou cuidadores, impedindo o afastamento deles; é comum a criança, quando está na escola, ficar a todo momento telefonando para os pais.

E, na escola, como os professores podem agir? O importante é tranquilizar a criança ou o adolescente; levá-lo para um local calmo, silencioso; acolhê-lo com suavidade, dando a sensação de segurança. É fundamental que se informe se a família já buscou acompanhamento psicoterapêutico e com médico especialista. A criança ou o adolescente com transtorno de ansiedade precisa estar na sala de aula em lugar calmo, de preferência sentar próximo do professor, ser estimulado na questão da autoestima e se sentir apoiado para se tranquilizar acerca dos seus medos.

A escola pode trabalhar com algumas estratégias:

• Trabalhar a competência socioemocional – criar um projeto pedagógico com intervenções para o estudante aprender a lidar com as emoções.
• Proporcionar um ambiente de apoio – valorizar a empatia na cultura escolar.
• Romper o círculo vicioso que proporciona a ansiedade – acolhendo, dando segurança, deixando claro que ele não está sozinho, fortalecendo a tríade escola-família-estudante.
• Elaborar projetos de bem-estar mental – através de ferramentas para diminuir o nível de ansiedade, promover atividades relaxantes (meditação, ioga).
• Investir em uma boa equipe de apoio – profissionais qualificados para a rede de apoio.
• Oportunizar o acesso a profissionais de saúde mental (psicólogo escolar, psicopedagogo).

A ansiedade, muitas vezes, faz com que a criança fique ausente das aulas por medo de sentir os sintomas do transtorno na escola; é importante que ela frequente as aulas para evitar cronicidade e evasão. Para a remissão dos sintomas, é necessário um acompanhamento multidisciplinar.

As pesquisas demonstram que, em muitos casos, os pais já tiveram algum transtorno de ansiedade, e, quando os sintomas são graves e incapacitantes, é importante enfatizar que é necessário o uso de intervenções farmacológicas.

O transtorno de ansiedade é bastante complexo. É comum as crianças manifestarem dificuldades de aprendizagem e de socialização, pois o comportamento difícil pode prejudicar o relacionamento com as outras crianças na escola. Os obstáculos em relação à leitura e à escrita, na matemática ou até em outros componentes do currículo podem aparecer, e nesse momento o professor tem um papel fundamental. É preciso que ele fique atento à problemática e oriente os pais a buscarem ajuda e tratamento. Em geral, o tratamento será definido após uma avaliação criteriosa, com profissionais especializados (psiquiatras, psicólogos especialistas em infância), que farão o processo de diagnóstico. O tratamento da ansiedade envolve medicações e psicoterapia.

Para entender as características e os sintomas do medo, é preciso considerar que o medo é natural no ser humano; com uma dose proporcional, constitui uma defesa muito importante da espécie humana; no entanto, quando o medo é exagerado e desproporcional àquele estímulo aversivo ou quando o perigo não é real, há a predominância do transtorno de ansiedade, que é uma sensação de medo extremo, com alterações físicas, sem uma razão real justificada.

Clark e Beck (2012) consideram ansiedade e medo duas emoções intrinsecamente interligadas, mas que precisam ser compreendidas e diferenciadas. O medo é uma emoção primitiva inerente à espécie humana, que desencadeia reações e resposta do organismo, tendo importante papel na perpetuação de nossa espécie. Já a ansiedade é mais subjetiva, é uma emoção estimulada pelo medo.

Para Stallard (2020, p. 11),

A ansiedade é uma resposta normativa concebida para facilitar a autoproteção, como foco particular do medo e da preocupação, variando de acordo com o desenvolvimento da criança e suas experiências anteriores.”

Certamente, o ritmo frenético de vida das pessoas, com tempo de prazos, muitas competições, a própria vida com muita violência, faz com que o corpo responda às sensações e apresente um desconforto. É comum as pessoas apresentarem algumas funções fisiológicas, como taquicardia, respiração difícil, tremor nas mãos e em outras partes do corpo, sudorese excessiva, desconforto abdominal, sensação de medo e perda de controle, que são sintomas da ansiedade, o que, certamente, é um quadro bastante preocupante. Esses sintomas evoluem causando problemas na rotina do dia a dia, promovendo, assim, mais irritabilidade no sujeito, impaciência constante, falas repetidas, dores de estômago e no peito e até insônia.

Conforme Clark e Beck (2012), a ansiedade nos acompanha desde os primórdios da humanidade até os dias atuais; tem sido tema de preocupação de diversos estudiosos que buscam não só compreendê-la, mas também desenvolver formas de tratá-la de modo a proporcionar uma melhor qualidade de vida às pessoas com transtornos de ansiedade.

De acordo com Stallard (2010, p. 56), os transtornos de ansiedade intensos atingem 10% das crianças e dos adolescentes, o que aumenta consideravelmente o risco de ansiedade recorrente na fase adulta. São variados os caminhos que levam aos transtornos, desde as influências genéticas até a educação oferecida à criança. Portanto, “As influências ambientais compartilhadas têm contribuição significativa para o desenvolvimento dos transtornos de ansiedade em crianças, e é uma área que tem recebido atenção considerável da influência dos pais”.

Para Stallard (2010, p. 15),

Uma das influências ambientais mais importantes para as crianças é a família. Ela fornece um contexto dentro do qual o comportamento ansioso pode ser modelado e/ou reforçado. A psicopatologia dos pais pode resultar na exposição repetida da criança ao comportamento ansioso pelo qual são modelados o comportamento temeroso e a esquiva. Esses comportamentos também podem ser reforçados através de exercício parental, pelo qual os pais das crianças ansiosas incentivam comportamentos de esquiva em seus filhos. Igualmente, um estilo parental restritivo, caracterizado pelo controle e pela proteção excessivos dos pais, limita o desenvolvimento da autonomia. Por sua vez, isso aumenta a dependência, restringe as oportunidades que a criança tem de desenvolver habilidades para a resolução de problemas e aumenta a expectativa de que os acontecimentos que causam temor sejam imprevisíveis e incontroláveis.”

A parceria dos pais com a escola é fundamental para melhor qualidade de vida acadêmica. Os pais precisam:

• Estabelecer uma comunicação aberta e empática com os filhos, criando um ambiente propício para que a criança possa expressar seus sentimentos e falar sobre os desafios escolares.
• Participar da rotina escolar, isto é, comparecer às reuniões com professores, verificar as atividades e os desafios enfrentados pelos estudantes.
• Observar se houve mudança de comportamento da criança — às vezes, preocupações excessivas para tirar boas notas podem promover a ansiedade.
• Buscar ajuda de profissionais de saúde mental, isto é, uma rede de apoio para entender e saber como lidar com os desafios mais complexos.
Considerar que as causas da ansiedade podem estar no próprio lar.
• Verificar se o estudante tem tempo reservado para brincadeiras, lazer, atividades ao ar livre e para dormir bem.
• Orientar sobre a gestão do tempo sem pressão.
• Colocar um canal aberto para solicitar ajuda quando necessário.

Para o tratamento da ansiedade, de acordo com o Knapp (2004), além da equipe multidisciplinar, a escola deve acompanhar e oferecer um ambiente tranquilo e seguro para a criança ou o adolescente.

Observa-se, na contemporaneidade, que o Papai Noel passa mais rapidamente que outrora, e as crianças não esperam o tempo para crescer e descobrir o mundo, elas simplesmente se adultizam mais cedo e, com tanta responsabilidade e cobranças, tornam-se adultos mais cedo e perdem a maravilhosa oportunidade de viver a infância, cheia de fantasias, de ludicidade, de faz de conta, de conto de fadas, de uma espera pelo Papai Noel… As crianças não têm tempo… Assim, ficam ansiosas, prejudicando a saúde física e mental. Elas precisam resgatar a infância, às vezes perdida, precisam saborear a juventude e a adolescência, precisam de tempo para ser viventes, tempo para aguardar o Papai Noel chegar, brincar de amarelinha, rir sem medida, andar de bicicleta, fazer peraltice, correr, brincar e ser feliz…

Considerações finais

A ansiedade é uma realidade na vida das crianças e dos adolescentes, e, sob a perspectiva do ambiente escolar, a estatística é preocupante, pois estudar e aprender tornam-se sem sentido, causam desmotivação e até evasão escolar.

A infância é o momento em que a criança deveria andar sem pressa, respeitando o tempo para crescer e descobrir o mundo que a cerca; no entanto, tudo é muito rápido, e as crianças ficam ansiosas e sem tempo para brincar. As configurações familiares são velozes, e a dinâmica psicológica dos pais com seus filhos se envolve completamente no processo de compreensão da função do outro; assim, as crianças se adaptam ao mundo dos pais, e não o contrário, elas ficam adaptadas para atingir a estrutura de desejo dos pais.

O mundo é rápido… está cada vez mais veloz… e a insegurança predomina… Assim, os transtornos de ansiedade se estabelecem. A família precisa repensar a vida de seus filhos, preocupar-se com a saúde física e mental dos pequeninos. A ansiedade, muitas vezes, aparece como um gatilho da vida agitada e corrida da família.

É importante que família e escola tracem planos de um espaço de convivência tranquilo, sem estresse, sem pressa, para que se desenvolva a saúde mental e tenhamos adultos sadios, isto é, oferecer para a criança uma educação respeitosa, atenta aos limites do desenvolvimento biopsicossocial da criança ou do adolescente; assim, sem dúvida é possível prevenir possíveis danos decorrentes de uma infância atropelada.

 

Referências

CLARK, D. A.; BECK, A. T. Terapia cognitiva para os transtornos de ansiedade. Ciência e prática. Porto Alegre: Artmed, 2012.
KNAPP, P. Terapia cognitivo-comportamental na prática psiquiátrica. Porto Alegre: Artmed, 2004.
STALLARD, P. Ansiedade: terapia cognitivo-comportamental para crianças e jovens. Porto Alegre: Artmed, 2010.

 


Rosangela Nieto de Albuquerque é Ph.D. em Educação (Universidad Tres de Febrero), pós-doutoranda em Psicologia, Doutora em Psicologia Social, Mestre em Ciências da Linguagem, psicanalista clínica, professora universitária de cursos de graduação e pós-graduação, psicopedagoga clínica e institucional, pedagoga, licenciada em Letras (Português/Espanhol), autora de projetos em Educação e da implantação de uma clínica-escola de Psicopedagogia Clínica como projeto social e autora e organizadora de treze livros nas áreas da Educação e da Psicologia.
E-mail: rosangela.nieto@gmail.com

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