Edição 148

Profissionalismo

Cuidar de quem cuida: a saúde emocional dos professores

Nildo Lage

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O ser humano sempre se deixou envolver por agrados; zelo que acaricia o ego, acalenta o íntimo e proporciona segurança. No entanto, qual é a condição daqueles que se dedicam ao elemento essencial à jornada da vida: preparar o indivíduo para a existência? Quantos educadores se propõem a rever aqueles que, reiteradamente, apoiaram, estimularam e dedicaram esforços para que alcançassem o sucesso?

Ter a satisfação do desejo cumprido acalenta, mas gratidão é o retorno mais justo, pois zelar por quem exerce a função de cuidar ultrapassa o mero reconhecimento; demanda um sentimento para valorizar um profissional cujas habilidades impactam de maneira significativa todas as trajetórias profissionais, pois seu trabalho, que requer empenho e dedicação, pode, em circunstâncias extremas, prejudicar seu equilíbrio emocional.

Escola e sala de aula são espaços que nem sempre atraem. Professor é base para todas as profissões, por trazer, na essência, o ingrediente dos sonhos, e muitos, para atingirem essa meta, convertem-se em heróis, e, apesar de não serem capacitados para lidar com as dificuldades de um ambiente educacional desafiador, doam o seu melhor e, assim, superam desafios, arrombam barreiras e guerreiam contra as próprias restrições, somente pelo prazer de testemunhar o sucesso de seus alunos.

Contudo, a desordem que converteu o ambiente escolar em um campo de batalhas fez do professor um profissional exposto, frequentemente envolvido em situações de desrespeito, ameaça e violência. Como a recompensa é tão somente o salário, intensifica-se a necessidade de uma defesa, uma vez que o contexto da sala de aula tem se metamorfoseado em um cenário de disputas, onde armas forjadas pelo desequilíbrio familiar e social drenam valores e podam sonhos.

Dessa forma, o educador necessita de amparo para transitar sem sofrer prejuízos, tanto físicos quanto emocionais, uma vez que o custo para resguardar aqueles que são postos sob sua regência compromete, dia após dia, a estrutura psicoemocional.

Porque a vida de professor é uma verdadeira maratona que inicia antes mesmo de transpor o portão da escola. Ao primeiro passo, tem que acumular forças para se converter em um porto que acolhe pais e alunos; uma plataforma de soluções para atender às demandas do sistema. E quem o acolhe para resguardar o seu emocional?

O caos granjeou tamanha proporção que o sistema silenciou ante o desespero do professor para alcançar metas e — apesar de ouvir o grito de socorro, oriundo da sala de aula, e ter consciência de que a construção de uma nação ocorre ali — ignora que seu trabalho cuidadoso evidencia que a educação para a vida ultrapassa investimentos, demanda atenção e reconhecimento daquele que se doa para reconstruir vidas dilaceradas no ambiente familiar e edificar sonhos.

O sistema tem ciência de que o cuidado não deve ser recompensado como reconhecimento de mérito, mas, sim, como valorização da dignidade humana a fim de melhorar a qualidade de vida dos professores. Afinal, o profissional que se empenha para alcançar o êxito alheio merece ser apreciado com cuidado e respeito, e não tratado como um ser invisível!

Ao mesmo tempo, a escola enquanto território da geração que não se desconecta transformou-se em um ambiente marcado por conflitos. Diante da ausência de opções para atenuar o desconforto, o educador é impactado num cotidiano que compromete sua saúde emocional e psicológica, por atuar em prol da obtenção de metas determinadas pelo sistema.

Os responsáveis por promover as mudanças, ao perceberem a gravidade da crise, recuam ante murmúrios, desabafos, gritos de socorro. Sem retorno, o professor prossegue, instigado por uma esperança que o impulsiona a seguir em frente, mesmo consciente de que a agitação de um ambiente escolar hostil absorverá a essência que coloca em risco seu bem mais precioso: a saúde.

Movido pelo combustível “amor pela profissão”, persiste e, mesmo diante dos ataques, resiste, mas não consegue emudecer o grito que ecoa, seguido da indagação: por que a desvalorização e a crueldade tão severas contra um profissional que transforma vidas por meio do conhecimento?

O sistema conserva-se em silêncio, no entanto reconhece a necessidade de rever práticas institucionais que constrangem, considerando que o educador demanda apoio e, sobretudo, reconhecimento e valorização por se submeter a um processo profissional cuja rotina é constituída por atividades repetitivas que influenciam a parte mais delicada do ser humano: o emocional.

Devido à escassez de recursos, o escultor de sonhos enfrenta dificuldades para estabelecer sua própria rotina de trabalho, a fim de reorganizar suas tarefas repletas de desafios. Essa circunstância decorre da falta de um planejamento apropriado, em virtude de uma carência de estrutura técnica de um sistema que delega metas sem diretrizes; que pede o fechamento da conta sem apresentar nortes que necessitam ser ajustados a um modelo universal, independentemente da situação social, cultural e religiosa do educando.

É na transição desse contexto que os aspectos emocionais, físicos e até biológicos do professor se fragmentam, afetados pelo constante estado de agitação, que intensifica os distúrbios. Como o processo não pode ser interrompido, a meta é prosseguir, porque seu cliente tem que ir para o próximo ciclo, e o professor se perde nas disputas; por não ser reconhecido e valorizado, é drenado pelos alunos, cuja presença na sala de aula afiança os recursos financeiros para a manutenção de sua família, permitindo, assim, ser submetido a desrespeitos e normas injustas.

A cada retorno à sala, depara-se com a conjuntura habitual: um ambiente sobrecarregado, caracterizado por condições laborais insatisfatórias, indisciplina e agressão. Um atentado à integridade de um profissional empenhado, frequentemente desrespeitado, agredido e, em situações extremas, eliminado no espaço escolar. E, por trabalhar sob pressão do sistema para atingir metas, intensifica a disfonia, que é um dos principais motivos que levam o professor a se afastar da sala de aula, por silenciar a voz.

Professor é base para todas as profissões, por trazer, na essência, o ingrediente dos sonhos, e muitos, para atingirem essa meta, convertem-se em heróis […]

De onde vem a desintegração que afeta o professor?

Inicia-se pela desintegração da família, que sobrevém em tempo real, e o educador, sem estrutura técnica e suporte, vê-se perdido nesse labirinto. Sofre pressões que emergem de diferentes frentes, como agressão e desrespeito, além de exigências institucionais por resultados, muitas vezes desacompanhadas do suporte necessário. E não se engane pensando que tal situação se restringe ao ambiente público. As mesmas diretrizes são aplicadas no setor privado, onde, por vezes, a escola é vista como uma indústria, em que os responsáveis depositam expectativas na formação dos alunos com o objetivo de convertê-los em cidadãos exemplares.

Essa desordem serve de alerta para pais e responsáveis que procuram compreender a triste realidade. Somente alguns minutos diante da porta de uma sala de aula é o suficiente para perceber a severidade da degradação dos valores familiares, sociais e religiosos, além do impacto das mídias digitais na deseducação de crianças e jovens que ingressam no ambiente escolar sem qualquer compromisso com o próprio futuro.

Os bem-sucedidos são aqueles que tiveram a sorte de se deparar com professores que ainda ostentam equilíbrio emocional e são movidos pela paixão de ensinar, por superarem as barreiras do sistema e seguirem uma rotina estruturada com a expectativa de transformar a transmissão de conhecimentos em vivências que fomentam o desenvolvimento humano de uma geração que chega sem nada.

É responsabilidade das telas? Não! É reflexo das condutas de pais que empregam métodos sedutores para fugir da responsabilidade de educar seus filhos para uma vida livre, com capacidade para superar obstáculos, e enviam para a escola indivíduos que fazem do ambiente escolar um espaço para expressar maus-tratos e falta de limites.

Passos para sair do caos

O primeiro deve ser dado pelo sistema para proporcionar condições de trabalho adequadas e suporte na aplicação de normas no cotidiano da sala de aula. É categórico valorizar o humano, assegurando ao professor o mínimo de subsídios para desenvolver um trabalho em um ambiente que resguarde a sua saúde, excepcionalmente a mental.

É necessário que o sistema compreenda que investir na saúde mental do educador é investir na qualidade do ensino, pois ele se esforça a ponto de se expor para cumprir objetivos que demandam supervisão individual. Esse cuidado deve estar integrado à rotina diária, garantindo que a regulação emocional ocorra com cargas horárias equilibradas, cujos intervalos ofereçam condições para atenuar seus efeitos.

Portanto, é essencial combater os elementos que afetam a disposição, como a falta de alimentação adequada, de reconhecimento, de valorização e a sobrecarga de trabalho. Muitos, para garantir o conforto da família, vivem na transição entre uma instituição de ensino e outra. A escola, apesar de sua dinâmica, não é uma academia. Como humano, o educador necessita de suporte para salvaguardar sua parte mais sensível: o emocional. Pois este, sendo um ponto frágil, atacado diariamente, pode chegar ao seu limite ao se deparar com o esgotamento.

Porque a mente humana é um universo cuja estrutura pode se desintegrar, salientando que a vulnerabilidade difere de pessoa para pessoa. Para alguns, representa um desafio sem precedentes; para outros, é uma oportunidade para superar barreiras! A saúde mental dos nossos docentes é um tema que causa inquietação entre os especialistas, já que a condição vista como ruim assenta uma parcela na linha de frente de síndromes como o burnout e distúrbios psicológicos, como ansiedade e depressão.

O segundo passo revela o ponto de partida do caos: a acumulação de responsabilidades, a ausência de reconhecimento, a formação inadequada, a indisciplina e, sobretudo, os salários baixos, que desmotivam. Trata-se de um embate desigual, no qual o sistema incentiva a escola a permanecer aberta para cumprir a lei, enquanto o educador se submete para garantir o sustento de sua família!

Um passeio pelos corredores da escola revela os impactos da violência, a ausência da família e as exigências da direção. Esses fatores impulsionam uma corrida sem destino definido, já que o sistema, sem uma liderança que redirecione os fatos para uma saída humanizada, deixa tudo na mesma, por não conseguir promover um ambiente acolhedor que estimule o entusiasmo como forma de recompensa.

O resultado é uma situação desalentadora: enfermidades crônicas que provocam desde prejuízos físicos, como rouquidão e nódulos vocais, até distúrbios psíquicos, como ansiedade e burnout, impondo um ônus superior ao que já é exigido pelo sistema e com conflitos presentes em um ambiente laboral estressante. Diante desse cenário, o afastamento surge como uma alternativa lógica para preservar o equilíbrio indispensável à atuação em sala de aula, especialmente frente ao agravamento de questões vocais, emocionais e mentais.

Se os gestores não assumirem o compromisso de proteger o profissional que prepara para a vida, a degradação do setor será inescapável. É essencial entender a relevância de estabelecer programas que garantam a saúde dos professores; caso contrário, não conseguiremos avançar.

Mas como desenvolver o amor pela proeza de ensinar
sem políticas educacionais que valorizem quem faz educação?

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Essa situação acontece devido à prioridade que o sistema confere à matrícula de um estudante, desconsiderando a superlotação das salas de aula. Assim, não investe em infraestrutura que simplifique o trabalho dos professores e não reconhece a importância de um profissional que prepara pessoas para a vida. Se o fundamental — o autocuidado de um especialista que se dedica e se entrega a outras vidas, impulsionado pelo desejo de edificar sonhos — não for implantado como regra, haverá mudança de ciclo sem o essencial: aprendizagem.

Infelizmente, no Brasil, a profissão de educador está cada vez menos atrativa, pois a decisão de assumir uma sala de aula é impulsionada pelo amor à arte de educar, convertendo o desejo de cultivar saberes e acolher os sedentos por conhecimento em desafios inéditos.

Como somente sonhos permanecem, a transferência de dados se transforma em um ritual automático, permitindo que as tempestades de informações desabem com o mínimo de desenvolvimento humano, sem promover habilidades ou competências para um mercado de trabalho que estabelece indivíduos progressivamente competitivos.

E o planeta, envolvido pelas ferramentas tecnológicas cuja inteligência artificial ofusca a luminosidade do educador, diminui ante a apatia de uma sociedade que desgasta valores e rejeita a própria contribuição humana na formação do ser humano, relegando à insignificância o mestre que guia pelo exemplo e transforma pela persistência, mantendo viva a esperança de testemunhar a vitória de seus alunos por meio da educação.

Mas como desenvolver o amor pela proeza de ensinar sem políticas educacionais que valorizem quem faz educação? É preciso cuidar de quem cuida, ou o professor será riscado da lista de profissionais. O professor não necessita de falácias, mas de ações que modifiquem uma realidade que suga a alegria de ensinar, porque ensinar é um ato de amor e não deve se converter numa batalha desumana, em que o grande herói é consumido para atender a propósitos políticos.

Por isso, falar de educação dói, porque ensinar é poesia; no entanto, a rotina de professor não pode se tornar um lamento. Ele é a chave que abre a porta para as vitórias, a força que o sustenta de pé diante de vidas sem sonhos, superando os próprios limites para que aqueles que são postos sob sua regência avancem.

É isso que faz da missão professor um ato de esculpir vidas, pois surpreende a própria vida e, mesmo em circunstâncias caóticas, projeta vencedores. A trajetória de educador adapta sonhos e desenvolve habilidades únicas, a ponto de convertê-lo em um mestre na arte de formar indivíduos para alcançar vitórias pessoais. Quando veste a sua armadura de super-herói para combater os vilões que assolam valores sociais e familiares, ele é sustentado pela chama da paixão pelo ofício de ensinar — a força que impulsiona os resultados positivos. Como formar seres humanos é um processo que exige empatia, o professor se desdobra para atender às necessidades individuais de cada aluno. Essas atitudes são a prova de amor pela profissão e, ao mesmo tempo, denunciam o descaso do sistema com o bem-estar emocional do professor, que se vê dividido entre dedicar-se à rotina ou preservar sua própria vida emocional.

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