Edição 133

Fique por dentro

De 1983 para cá… Uma ideia que ficou…

Miriam Carrilho

Miriam Carrilho ao lado de Neidinaldo Alves seu sócio, da Livraria Idéia Fixa.

Em fevereiro de 1983, o presidente do Brasil, João Figueiredo, ante a necessidade de captar dólares para o País, promoveu a maxidesvalorização do cruzeiro, nossa moeda à época. Mas a grande festa foi mesmo a posse dos vinte e dois governadores eleitos, após quase vinte anos. A partida de Garrincha e a de Clara Nunes foram a grande perda desse ano de 1983.
Completara quatro anos na empresa. O meu chefe, naquela manhã tão igual a tantas outras, chamou-me ao seu gabinete. Estava zangado e insatisfeito por eu não conseguir adivinhar o que ele esperava da minha atuação — apesar de tantas idas e vindas para colocar todos os sinônimos nas Comunicações Internas (CIs); de sair de casa aos sábados e domingos para atender às solicitações disso e daquilo, às vezes para providenciar um lanche para os funcionários que estavam fazendo hora extra, devido à incompetência do chefe deles… Curto e grosso, sem um bom-dia sequer, decretou:
— Aqui, sou eu ou você!
Olhei-o, estupefata. Ele continuou, olhando-me nos olhos:
— E, como sou o gerente, quem fica sou eu…

Perguntei:
— Agora?
— Não. Ainda preciso de você… Quando chegar a hora, aviso…

Daí em diante, sabendo que os meus dias estavam contados na empresa, e já beirando os quarenta anos, imaginei a dificuldade de encontrar um emprego semelhante.

À noite, reuni os filhos e o namorado (na época). Falei que iria começar a trabalhar para mim. Não queria mais depender do humor de quem quer que fosse (doce ilusão…).

Até pensei em abrir uma escolinha para crianças ou, quem sabe, uma creche.

Hum… Pensei melhor: não entendia nada nem de uma nem da outra. Deixa pra lá… Como sempre gostei de ler, inspirada em meu pai, nasceu a ideia de uma livraria. Tornou-se uma ideia fixa… Colegas da empresa me apoiaram. Comecei a visitar as livrarias que existiam na cidade.

À noite, reuni os filhos e o namorado (na época).
Falei que iria começar a trabalhar para mim.
Não queria mais depender do humor de quem quer que fosse (doce ilusão…).”

Àquela época, um bocado. A Nordeste, a Livro 7 — a maior livraria do Brasil, do saudoso Tarcísio —, a Imperatriz, a Moderna, a Síntese e tantas outras. Decidi enfrentar. Procura que procura, ai, onde me estabelecer?

O Parnamirim Center, no bairro de Parnamirim, no Recife/PE, estava abrindo as portas. Mas, sala vaga, só no primeiro andar! Tem nada, não. Passei a conversar e a ouvir muita gente, analisei algumas opiniões: todas eram unânimes: vender apenas livros não daria pra manter a loja… Foi quando pensei: muita gente precisa de cópias (xerox). E, na redondeza, não havia copiadoras.

Neidinaldo, que na atualidade é meu companheiro de jornada há 41 anos e que sempre colaborou com todas as minhas iniciativas, resolveu procurar saber se havia copiadora de outra marca além da Xerox. Soube então da Nashua, de origem japonesa, com ótima qualidade e preço razoável. Juntei a poupança dos filhos — que sempre fiz questão de manter — ao meu salário e, assim, pude dar a entrada e pagar as prestações. Edgar, o seu representante, tornou-se nosso amigo.

Engenheiro mecânico, Neidinaldo entendia do funcionamento da máquina. Sempre que havia um problema, chamava-o para resolver. Trabalhava perto, e não havia maiores problemas em dar uma saidinha… Com isso, em 1989, tornou-se meu sócio.

Os primeiros livros comercializados — escolhidos a dedo — eram quase todos da Editora Record. O vendedor confiou em mim e me orientou na compra.

Sete prateleiras de ferro, compradas na Rua da Conceição, no centro do Recife, bastaram, e até sobraram, para colocar os títulos adquiridos. Precisei até trazer alguns de casa para compor as falhas nas prateleiras. O piso foi coberto com carpete de sisal — mais barato do que os ladrilhos —; e os móveis artesanais, comprados numa pequena loja em Boa Viagem, também no Recife. Duas mesas e um banco para o descanso dos clientes. A loja até parecia grande… Mais simples, impossível. As luminárias foram colocadas por Neidinaldo.

Tudo pronto, desenhei a logomarca Ideia Fixa – Livraria e Serviços rodeada de flores e cajus (a minha marca). Mandei confeccionar a placa em metal amarelo para ser colocada no portal de entrada da loja.
O dia 30 de agosto foi escolhido para a inauguração por ser o aniversário do meu filho e ainda porque, do jeito que dava, estava tudo pronto.

O azul da tarde começava a dar a vez para o escuro do céu estrelado. Curiosos, os colegas da empresa, alguns familiares, além de lojistas da galeria, lotaram aquele arremedo de livraria. A MPB — os LPs trazidos de casa, bem como a radiola — dava um ar festivo à inauguração. O Pe. Edwaldo, da matriz de Casa Forte, na capital pernambucana, muito popular, foi convidado por Carmita, uma amiga que o conhecia bem. Pediu-lhe para abençoar esse sonho que começava a se concretizar. Ele veio. Meio a contragosto, na verdade… Reservadamente, revelou-me estar constrangido por se tratar de um comércio, coisa que a Igreja Católica não vê com bons olhos…

Mas Deus entendeu a necessidade. Tem-nos abençoado.

Uma boa surpresa nos visitou num sábado à tarde. Nossa! Quase desmaiei de emoção. Meu pai o elogiava muito. A origem paraibana da sua família era a mesma da de papai. Pois bem, ele chegou, e eu, que não o conhecia pessoalmente, cismei — conhecia a sua imagem dos jornais. Ousei perguntar:

— Boa-tarde. Você é Ariano?

Ele, que mexia nas prateleiras, sem saber como estavam organizados os livros, virou-se.

— Sou.
— O Suassuna? — eu perguntei, já me levantando da cadeira e caminhando até onde estava.
— Sim.

Nem liguei para o seu laconismo.

— Muito prazer. É uma honra tê-lo em nossa loja. Posso ajudá-lo? O que está procurando?
— Ah, obrigado. Estou procurando um livro meu: O Casamento Suspeitoso…

Foi fácil. Peguei-o, entreguei-lhe. Com o livro na mão, olhou-me como se não acreditasse.

— Olhe, já procurei em outras livrarias e não o encontrei… Quanto custa?
— Por favor, Ariano, aceite como um presente. Estou muito contente por você nos visitar.
— Não. Assim eu não quero.
— Mas…
— Não, não, assim eu não aceito. Sei que você pagou por ele — olhou ao redor, como a conferir a simplicidade das instalações, o minguado estoque… —, mas se puder fazer um descontinho…

Ai! Fiquei aperreada. Livros são precificados pela editora. O que o livreiro tem é um pequeno desconto, na maioria das vezes, para que possa emitir a nota fiscal, pagar aos funcionários e as despesas tantas. Fiz as contas. Tirei alguns cruzeiros. Falei pra ele:

— É tanto…

Olhou-me entre sério e brincalhão…
— Também um descontinho desse nem precisava…

Myriam Didier, professora e escritora, idealizadora do método de Educação Criadora, ao saber da livraria, veio nos visitar. Muito bem-educada, foi, além de cliente assídua, grande incentivadora desde os primeiros dias. Quando da entrega de certificados e medalhas de um dos concursos Estórias de Criança, fizemos uma homenagem a ela. Foi difícil trazê-la para receber. A modéstia por pouco não a sequestrou… Está junto ao Pai. Deixou as filhas como amigas e, eventualmente, clientes. Devo muito a ela.

Posso falar de uma porção de gente boa e querida que, ao longo da nossa história, tem nos prestigiado de muitas maneiras. Raimundo Carrero; Luzilá Gonçalves; Melchíades Montenegro; Dorany Sampaio; Dr. Alcides Ferreira Lima; Luiz Schettini; Dr. Wilson Oliveira Júnior; Kátia Ferrão; professor Romildo; professor Nilzardo Carneiro Leão; Claudio e Maria Amélia Almeida; Rejane Maia, do Colégio Apoio; professor André Felipe, da Escola de Dança Corpo & Expressão; minhas queridas colegas da dança; Isaías Leal e Vera; professora Celeste; Eugênia Menezes (que me pediu para escrever as orelhas da minha obra Pacote e entregou-as chorando de emoção enquanto as lia) e sua linda família; artistas; escritores da região; as Suassuna Flávia, Débora, Lívia e Magda; Celeste; Denise e Luiz… Ufa! Estes dois últimos foram testemunhas da inauguração da Ideia Fixa… Eita, criatura de Deus! Não dá pra sair desfiando todos os nomes — contas preciosas — do mais belo colar de gente querida que acompanhou os nossos passos, que nos prestigiou. Por favor, sintam-se mencionados. Ou se apresentem…
Meus filhos, à época adolescentes, Cynthia e Franklin, além de contribuírem com a sua poupança, também trabalharam alternadamente. Um pela manhã, a outra à tarde, de acordo com o horário da escola. Na hora do meu almoço, vinha substituir o que precisava sair, ficando até chegar a outra. Durante algum tempo, não havia condições de contratar um funcionário… Aos sábados, vínhamos eu e Neidinaldo passar o dia. O lucro, digo o apurado, era insuficiente para pagar um prato do almoço que dividíamos, lá no Bar do Louro, na Estrada do Arraial, na cidade do Recife…

Nada foi fácil: para anunciar a nossa existência, escrevi para os moradores da redondeza informando que estávamos no primeiro andar, que tínhamos copiadora, além de bons livros. Copiava e ia, pessoalmente, entregar nas casas, na portaria dos edifícios. Naquela época, havia os catálogos telefônicos, com o nome e o endereço dos moradores. Também fiz trabalhos de datilografia para alunos do Colégio São Luís, não foi, Gustavo? Assim, conheci muita gente boa. Não vou falar dos que tentaram atrapalhar. Nenhum deles está mais por aqui…

Nada foi fácil: para anunciar a nossa existência,
escrevi para os moradores da redondeza informando
que estávamos no primeiro andar, que tínhamos copiadora,
além de bons livros.”

Por exigência dos clientes, começamos a trabalhar com papelaria, antes mesmo do fim do ano. Com o meu cartão de crédito, conseguia comprar o que pediam. Era bem trabalhoso. Precisávamos correr até o centro do Recife, onde lojas de atacado vendiam as quinze pastas para atender à arquiteta, as dez agendas do presente que a mãe da cliente adolescente havia pedido para o Natal… Cartões Requinte, canetas BIC e papel de presente… Tudo isso acrescentou um pouco de “sustança” ao nosso caldo ralo…

Conseguimos, após um ano e meio, descer do primeiro andar para o térreo. Uma loja que trabalhava com máquinas de jogos não pôde levar adiante o negócio. Nunca gostei tanto de vir de cima pra baixo… Com maior visibilidade, o movimento aumentou. Começamos a equilibrar as contas. Também, no fim de outubro de 1984, fui, finalmente, desligada da empresa onde trabalhava. O FGTS deu uma ajuda grande para o pagamento das contas. E então pude me dedicar exclusivamente à livraria. Comecei a ter crédito. Alguns fornecedores passaram a ver em mim a possibilidade de boas e crescentes vendas. Passamos a comprar diretamente aos fabricantes, o que baixou os nossos custos e aumentou o volume e a diversidade de produtos. Tivemos grandes alegrias e algumas decepções. O trabalho imitando a vida…
Fomos conhecendo os clientes, seus desejos, suas preferências. À época, tudo era bem rudimentar. Uma calculadora somava as vendas, e talões de notas fiscais cumpriam o ritual necessário para o funcionamento da loja. Lojinha, melhor dizendo…

Aos poucos, foi surgindo a necessidade de mais alguém para ajudar; foi preciso adquirir ferramentas tecnológicas para cumprir as novas exigências da Fazenda Estadual e dos fiscais de tantas outras estatais. Vendedores de várias editoras e de algumas empresas de papelaria começaram a nos assediar. Os boletos começaram a pedir urgência, e nem sempre havia dinheiro para quitá-los. Meu pai me salvou do protesto de títulos algumas vezes. Mas só recorria a ele no último momento, quando todas as portas se fechavam.

Para fazer um pouco de justiça, preciso falar da ajuda fundamental e imprescindível de muitos funcionários. Alguns gostaram e ficaram bastante tempo. Maria Lindercy passou dezenove anos conosco. Outros pediram para sair e, depois, quiseram voltar.

É preciso falar também da ajuda das filhas que nasceram depois que a livraria já pelejava pra se manter. Nathália e Marília cresceram participando das alegrias e aflições do trabalho dos seus pais. E, quando já entendiam algumas contas e sabiam e gostavam de ler, ajudaram nos momentos de maior necessidade. Sobretudo quando se tratava de procedimentos de TI; o que para nós é complicado para elas — e eles, os maridos — é café com açúcar… Daniel e Felipe, dois filhos que nossas filhas nos deram.
Enfim, com o curso de Administração da UFRN, tinha noção do muito que deveria ser feito. No entanto, a experiência em empresas do porte da Mesbla e do Serpro serviu de base para levar adiante esse projeto, esse sonho, essa necessidade…

Hoje estamos estabilizados. Após uma breve experiência com a abertura de outra loja, que não funcionou a contento, deixamos de lado a ideia de expandir o negócio. Optamos por ampliar o espaço com a ocupação de mais duas lojas contíguas e, assim, concentrar os esforços num mesmo local. Não nos falta entusiasmo, depoimentos de clientes de muitos anos e a vontade de continuar atendendo e agradando — na maioria das vezes — aos clientes do jeito que aprendemos.

Não nos falta entusiasmo, depoimentos de clientes de muitos anos
e a vontade de continuar atendendo e agradando aos clientes do jeito que aprendemos.”

Miriam Carrilho é proprietária da Livraria Ideia Fixa,
localizada na Av. Parnamirim, 448 – Parnamirim, Recife/PE.

 

 

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