Edição 135

Construindo mais conhecimento

Diagnóstico, desafios e tratamento do transtorno de oposição desafiante

Luciana Tisser e Marianna Leão Soares

De acordo com o DSM-5, o transtorno de oposição desafiante (TOD) passou a ser definido como um padrão de “humor irritável”, “comportamento questionador/desafiante” ou “vingativo”. Embora as dimensões sejam altamente correlacionadas, atualmente já é possível se estabelecer um padrão predominante de comportamento dentro do diagnóstico de TOD, o que, potencialmente, viabiliza a predição de trajetórias.

As técnicas de acesso em terapia cognitivo-comportamental têm como função melhorar a qualidade de vida do paciente e de seus familiares, potencializando as funções preservadas e estimulando novas habilidades. Visam não somente trabalhar questões cognitivas, como também emocionais e comportamentais.

Na terapia cognitivo-comportamental para o TOD, há a necessidade de se trabalhar o treinamento cognitivo em autoinstrução e automonitoramento dos sintomas e das estratégias de resolução de problemas. Durante o tratamento, utilizam-se estratégias de conscientização do próprio comportamento, de autoavaliação, de autocontrole, de reestruturação cognitiva e de prevenção de recaída.

As crianças com TOD apresentam dificuldades na interação social tanto com pares quanto com adultos que representam autoridade e, algumas vezes, no seu desempenho escolar, por não seguirem regras e não cumprirem o que lhes é solicitado. Essas dificuldades podem acarretar a baixa autoestima e sintomas depressivos, por isso é imprescindível o manejo adequado pela família para evitar novos possíveis transtornos.

A medicação para o TOD se mostra bastante eficaz em conjunto com o acompanhamento psicológico e as técnicas realizadas na prática clínica. Com o intuito de trabalhar pensamentos, emoções e comportamentos disfuncionais presentes no quadro de TOD, surgiu o Baralho do transtorno de oposição desafiante como uma ferramenta de psicoeducação, automonitoramento, treino para a resolução de problemas e reestruturação do sistema de crenças.

A informação e o entendimento de estado funcional permitem ao paciente um autoconhecimento e uma possibilidade de automonitoramento dos sintomas.

A técnica de psicoeducação é uma ferramenta inicial que tem como objetivo ajudar familiares e pacientes a compreenderem os sintomas e prejuízos do transtorno, desfazendo rótulos prévios que, frequentemente, o acompanham. Nesse sentido, a psicoeducação também melhora a autoestima dos pacientes e ajuda os familiares a implementarem estratégias aprendidas para lidar com as dificuldades.

Automonitoramento e treino e reestruturação cognitiva para a solução de problemas

Crianças ou adolescentes com TOD, geralmente, possuem baixa autoestima, acreditando que são um problema para todos, que não conseguem ter amigos e que não são tão bons ou importantes quando comparados com outros da sua idade. Muitos desses pensamentos se devem ao fato de serem muito xingados, rotulados como desrespeitosos por brigarem demais e não obedecerem em virtude de seus comportamentos impulsivos, desafiadores e opositores.

As modificações em seus pensamentos disfuncionais fazem com que as crianças e os adolescentes sejam capazes de monitorar e readequar seus comportamentos inadequados.

O treino de resolução de problemas visa mostrar ao paciente como identificar claramente o problema, gerar possíveis soluções e escolher a que mais lhe parece adequada. É de grande eficácia para o tratamento psicológico de crianças e adolescentes com TOD, pois ajuda a aumentar o nível de tolerância à frustração e diminuir a ansiedade diante da expectativa de resolução de um problema.

Esses exercícios, tanto o automonitoramento como o treino para solução de problemas, ajudam a reconstruir suas crenças de maneira mais adaptativa e a mudar o modo de como se sente. Visto que, antes de descobrir o transtorno, o indivíduo acreditava ser incapaz de realizar determinadas tarefas e, até mesmo, de ser sociável com outras pessoas, ele irá aprender estratégias de resolução de problemas, de controle de tempo e de raiva, assim como controle de agressividade, e irá aumentar a capacidade de olhar para si próprio.

Reestruturação do sistema de crenças

Reestruturação do sistema de crenças quer dizer uma mudança no pensamento ou na forma de entendermos a nós mesmos ou aos acontecimentos à nossa volta. Esse entendimento é muito importante para pacientes com TOD, visto que costumam ter uma baixa autoestima e se sentirem indesejados, chatos e desagradáveis nos ambientes em que vivem. Esses pacientes costumam funcionar a partir de crenças autodesvalorizantes.


Luciana Tisser é psicóloga, Mestre e Doutora em Ciências da Saúde/Neurociências, colaboradora do Serviço de Avaliação Multidisciplinar do Inscer, psicóloga do corpo clínico do Hospital Santo Antônio – Complexo Hospitalar Santa Casa de Porto Alegre e escritora de livros infantis e didáticos.
E-mail: tisserlu@gmail.com
X(antigo twitter): @lutisser

Marianna Leão Soares é psicóloga e neuropsicóloga (CRP 07/33378), atua como psicóloga clínica pela abordagem cognitivo-comportamental e na avaliação neuropsicológica para todos os públicos, é co-autora do livro “Por que eu desafio? Crianças entendendo o Transtorno de Oposição Desafiante (TOD)”, co-autora do “Baralho do Transtorno de Oposição Desafiante, psicoeducando e monitorando o TOD” e sócia proprietária do instituto de Neuropsicologia do RS.

cubos